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Por dentro da sala de controle da Artemis, a nova missão da Nasa à Lua

A sala de controle em Houston, no Texas, é fundamental para o sucesso da missão Artemis 2, que irá levar quatro astronautas em direção à Lua
BBC News Brasil

Publicado em 

31 mar 2026 às 16:33

Publicado em 31 de Março de 2026 às 16:33

Imagem BBC Brasil
A Artemis 2 contará com uma sala de controle da missão acompanhando todos os instrumentos aqui na Terra — similar à das missões Apollo, mas com os incríveis avanços da tecnologia Crédito: Getty Images
Os cientistas que projetam os foguetes recebem os aplausos e os astronautas ficam com a glória.
Mas, na hora de voar até a Lua, o centro real das ações fica em um conjunto de escritórios de concreto construído nos anos 1960, no Estado americano do Texas.
O Centro de Controle de Missões Christopher C. Kraft, Jr., da Nasa, fica na periferia da cidade de Houston. Ele recebeu o nome do homem que criou este conceito logo no início da era espacial.
A ideia de Kraft era reunir, em uma única sala e sob a coordenação de um diretor de voo, todas as pessoas responsáveis pela espaçonave.
O controle da missão original que supervisionou o primeiro pouso na Lua e nos trouxe a frase "o fracasso não é uma opção", quando uma parte da espaçonave Apollo 13 explodiu a caminho do nosso satélite natural, está, agora, preservado como Marco Histórico Nacional dos Estados Unidos. Isso inclui os cinzeiros, xícaras de café e tudo o mais.
Mas, do outro lado do salão, fica o seu equivalente moderno, para as missões lunares do século 21. A sala de controle da missão Artemis e o seu propósito são essencialmente os mesmos.
"A estrutura criada por Chris Kraft, como o primeiro diretor de voo, realmente resistiu ao teste do tempo", afirma Fiona Antkowiak, uma dentre os nove diretores de voos designados para a Artemis 2, a primeira missão lunar tripulada da Nasa desde 1972.
Imagem BBC Brasil
A equipe de controle da missão em Houston terá a missão de manter a Artemis 2 na sua rota e trazer a tripulação de volta à Terra com segurança, 10 dias depois Crédito: Getty Images
Programada atualmente para lançamento em abril de 2026, a Artemis 2 levará quatro astronautas em um looping para além da Lua, cobrindo a maior distância já percorrida por seres humanos.
Eles serão as primeiras pessoas a serem lançadas ao espaço pelo novo e gigantesco foguete SLS, voando na cápsula Orion. Ou seja, há muito trabalho em jogo.
A equipe de Houston será responsável por manter a missão no seu curso e trazer a tripulação de volta para a Terra com segurança, 10 dias depois.
Trabalhando em três turnos, 24 horas por dia, o controle da missão se manterá em comunicação com a espaçonave, enviará comandos e monitorará tudo, desde a trajetória e os sistemas de propulsão até os batimentos cardíacos dos astronautas.
"O papel do controle da missão, em última análise, é manter os astronautas em segurança, manter a espaçonave Orion em segurança e atingir os objetivos da missão", explica Antkowiak.
"Nós estruturamos o nosso trabalho para cumprir estes pontos em ordem de prioridade."

Ambiente saudável e com diversidade

Entre o logotipo de "minhoca" da Nasa, dos anos 1980, na parede de fundo, e as luzes de LED hexagonais suspensas do teto, a sala de controle de missão atual é uma mistura do novo e do velho.
Os consoles de cor cinza sob medida com os botões volumosos e monitores em preto e branco da era Apollo foram substituídos por teclados e telas sensíveis ao toque. Mas os nomes das mesas datam das primeiras missões.
O suporte à vida, por exemplo, ainda é supervisionado pelo Eecom (Oficial de Emergência, Ambiental e de Materiais de Consumo, na sigla em inglês). Ele foi fundamental para manter os astronautas vivos durante o resgate da Apollo 13.
O ar, agora, também é muito mais limpo do que costumava ser, já que o fumo é proibido e as xícaras de porcelana foram substituídas por canecas de viagem de plástico.
Mas, além da tecnologia, a maior mudança provavelmente foi a aparência dos próprios controladores da missão.
Se você observar qualquer fotografia do controle da missão Apollo, verá que todos os controladores eram homens brancos jovens, vestindo camisas brancas, com bolsos cheios de canetas e réguas.
Poppy Northcutt foi a primeira mulher engenheira a entrar para a equipe, em meados da década de 1960. Na época, a sala mais parecia um clube só para meninos.
Hoje em dia, não só os trajes são muito mais informais, mas a equipe de controle da missão tem muito mais diversidade. E, frequentemente, as mulheres estão na liderança.

A sala onde tudo acontece

Cada aspecto do voo será supervisionado desta sala. Os controladores da missão em terra trabalharão com os astronautas no espaço para manter a Artemis 2 no seu curso.
Para evitar confusões, todas as comunicações com a tripulação são realizadas por um comunicador de cápsula, abreviado em inglês "capcom" (um nome que data dos primeiros voos espaciais Mercury, 1958-1963). Mas quem dá as ordens finais é o diretor de voo.
"O principal é que você tem um diretor de voo no console e aquela pessoa detém a autoridade final para tomar qualquer decisão rápida", conta Antkowiak.
Os sistemas desta complexa espaçonave, em grande parte, são automáticos. Mas, mesmo assim, acompanhar tudo e lidar com eventuais problemas é uma tarefa além do que um pequeno grupo de pessoas pode fazer sozinho em uma sala.
É aqui que entra em ação outra equipe, que fica na Sala de Avaliação da Missão Orion (Mer, na sigla em inglês), no mesmo edifício.
Imagem BBC Brasil
A partir do lançamento da Artemis 2, as diversas equipes de controle da missão Artemis irão monitorar todos os aspectos da espaçonave e da sua tripulação Crédito: Getty Images
"A Mer tem uma perspectiva única e diferente do diretor de voo e sua equipe operacional", segundo o chefe da Orion Mer, Trey Perryman.
"Não somos responsáveis pela operação, nem pela resposta imediata a cada questão, mas por monitorar o desempenho da espaçonave em minuciosos detalhes e liderar a resolução de problemas. Existe uma diferença entre reagir a um problema e resolvê-lo."
Os engenheiros que trabalham na Orion Mer são os mesmos que projetaram e construíram a espaçonave. Por isso, eles conhecem cada um dos seus parafusos, componentes, circuitos e válvulas.
A equipe da Mer inclui um grupo europeu, responsável pelo módulo de serviço anexado à Orion, que é de fundamental importância.
Fornecido pela Agência Espacial Europeia (Esa, na sigla em inglês) e construído pela Airbus, na Alemanha, esta metade da espaçonave contém o motor principal e o combustível necessário para alimentar a espaçonave, além da água e do ar que irão manter os astronautas vivos.
"Somos quem mais conhece a espaçonave", afirma Perryman.
"Por isso, nós apoiamos todos os seus operadores por toda a missão, para ajudá-los a entender o que está acontecendo, onde eles podem precisar de um pouco mais de ajuda da engenharia e resolver eventuais problemas, pois é de fundamental importância trazer a tripulação para casa."

As simulações

É possível que todos os estágios da Artemis 2 funcionem exatamente conforme o planejado, do lançamento até o pouso no mar.
A primeira missão não tripulada, Artemis 1, foi à Lua e voltou com poucas falhas. Mas o histórico dos voos espaciais humanos indica que é aconselhável se preparar para qualquer eventualidade.
Quase todas as missões lunares Apollo sofreram algum tipo de anomalia, desde propulsores com defeito até computadores sobrecarregados.
Todos os problemas foram resolvidos e todas as missões foram salvas, graças ao conhecimento combinado da tripulação, do controle da missão e da Mer.
Antes que qualquer missão deixasse o solo, a maior parte das contingências havia sido estudada, preparada e simulada em terra. Os astronautas da Apollo passaram meses das suas vidas trancados em um simulador de espaçonave, aprendendo a voar e pousar.
Paralelamente, o controle das missões Apollo e Mercury passou por falhas e mais falhas durante as simulações, para desenvolver o conhecimento necessário para as viagens reais.
Imagem BBC Brasil
A sala de controle ficou agitada em abril de 1970, com as pessoas lutando desesperadamente para salvar a espaçonave comprometida Apollo 13 Crédito: NASA
Durante a segunda missão para a Lua, por exemplo, o foguete foi atingido por um raio, segundos após o lançamento.
A descarga desligou a energia no módulo de comando, com os astronautas se precipitando em direção ao espaço no topo de um foguete gigante, com todos os alarmes soando e a espaçonave, aparentemente, fora de controle.
Mas Houston havia vivenciado isso durante uma simulação e sugeriu que a tripulação selecionasse uma chave obscura no painel de controle da espaçonave: SCE para Aux.
SCE significa Equipamento de Condicionamento de Sinal, o sistema que processava os dados de sensores para transmissão para a Terra.
Com a chave selecionada, a energia voltou e os astronautas prosseguiram em sua viagem para caminhar na Lua.

Prevendo os problemas

A tecnologia da Artemis 2 é muito mais sofisticada que a da missão Apollo. E, para ter certeza de que eles a conheçam por dentro e por fora, os controladores da missão também passaram meses levando a espaçonave até o seu ponto de ruptura.
"Nosso objetivo é fazer uma simulação com 10 coisas se quebrando em três horas", explica Antkowiak. "Na missão real, esse número deverá ser menor e estamos preparados para cuidar disso."
"Sabemos que, ao entrarmos, haverá problemas", destaca Perryman.
"Você pode imaginar um cenário onde, talvez, um propulsor falhe e um sistema de navegação em outra parte também falhe. É importante compreender não apenas se podemos recuperá-los, mas também, se não pudermos, o que isso significa para a missão."
O que diferencia a Artemis 2 de qualquer outra missão em mais de 50 anos se baseia em uma decisão a ser tomada dois dias após o início da viagem.
Depois do lançamento, a Artemis 2 irá orbitar a Terra para ajustar sua trajetória e permitir que a tripulação e os controladores de voo verifiquem os sistemas da espaçonave.
Este intervalo incluirá um período em que os astronautas assumirão o controle manual da espaçonave, algo que os pilotos, altamente treinados, com certeza aguardarão ansiosamente.
Por fim, no segundo dia, o diretor de voo de plantão irá reunir a sala e definir: todos os sistemas estão aptos a mandar a Orion para a Lua?
Imagem BBC Brasil
A sala de controle de voo da missão Apollo, no Centro Espacial Johnson, parece exatamente igual aos dias da corrida espacial com a União Soviética, até mesmo pelos cinzeiros usados Crédito: Getty Images
"É a chamada injeção translunar", segundo Antkowiak.
"É uma decisão imensa — você precisa ter certeza de que a espaçonave está pronta para sustentar a tripulação por até 10 dias e, depois que você tomar esta decisão, não há muitas formas rápidas de voltar para casa."
Outro aspecto incomum da Artemis 2 é que a tripulação ficará sem contato com a Terra por cerca de 40 minutos, quando a Orion desaparecer atrás da Lua.
A trajetória e as leis da física indicam que a espaçonave certamente dará a volta, mas isso não irá necessariamente diminuir a tensão na sala de controle.
"Nós certamente gostamos de ter comunicação com a nossa espaçonave", reconhece Antkowiak. "É uma bela, confusa e calorosa sensação poder ouvir a tripulação e ver os dados de telemetria chegando."
"Acho que, quando chegarmos perto do momento da volta das comunicações, você terá uma sala inteira de pessoas no controle da missão simplesmente olhando para suas telas, esperando que os dados retornem no momento certo."

A volta para casa

Mas, para a tripulação, este período fora de contato com o controle da missão provavelmente representará outro clímax da viagem. Serão apenas eles e a Lua, enquanto voam sobre áreas da superfície lunar nunca antes observadas diretamente por olhos humanos.
A programação, segundo o cronograma oficial, é que os astronautas passem esse tempo olhando pela janela, tirando fotos, filmando vídeos e registrando seus pensamentos.
Depois que a Orion circundar a Lua, a física também determina que eles voltarão rapidamente para casa.
Ao se aproximar da Terra, a cápsula irá viajar a cerca de 40.200 km/h. E, quando entrar na atmosfera terrestre, a Orion enfrentará temperaturas de mais de 2000 °C — potencialmente, os minutos mais perigosos da viagem.
Durante a missão Artemis 1, em 2022, o escudo térmico foi danificado na reentrada e esta foi uma das razões do grande atraso da Artemis 2.
Perryman considera muito bem os riscos do retorno à Terra. Ele estava presente no controle da missão quando o ônibus espacial Columbia se desintegrou durante a reentrada, em janeiro de 2003, matando os sete astronautas a bordo.
"O acidente do Columbia deixou em mim uma marca permanente", ele conta.
"Ele com certeza está em um canto da minha mente, dizendo que o que fazemos neste prédio, na minha sala e com o diretor de voo e sua equipe tem uma importância imensa."
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Technology.

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