Derrotado por Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentará sua maior batalha eleitoral desde que se elegeu pela primeira vez, em 2002.
Ele terá que reverter a abstenção entre eleitores mais pobres, recuperar a perda de votos em todos os Estados do Nordeste, melhorar o desempenho em São Paulo e Minas Gerais — onde foi derrotado — e disputar os votos dados no primeiro turno a Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).
Desde a redemocratização do Brasil, em 1988, nunca houve uma virada entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial.
Lula teve 45,1% dos votos no primeiro turno e ficou atrás de Flávio Bolsonaro, que terminou com 47% dos votos. Veja o mapa da votação.
O resultado de Lula ficou bem aquém do que ele obteve no primeiro turno da eleição de 2022: o petista recebeu agora 3,5 milhões de votos a menos do que naquele pleito.
Já Flávio teve 5 milhões de votos a mais que seu pai no primeiro turno de 2022.
É uma vantagem de cerca de 2,5 milhões de votos e que deixa o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro em uma situação relativamente confortável para o 2º turno, a ser disputado em 25 de outubro.
Nos 20 dias que restam para a decisão final dos brasileiros, o presidente precisaria recuperar territórios perdidos e convencer mais eleitores a votar, segundo analistas consultados pela BBC News Brasil.
"Acho que é um cenário muito complicado de se conseguir a virada e não há outra ideia para campanha a não ser um choque no eleitorado", resume o analista Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, para quem a tendência aponta para vitória da oposição.
Entenda cinco dos desafios que Lula terá de enfretar para obter vitória inédita nestas eleições:
1. Abstenção 'maior entre os mais pobres'
No primeiro turno, 21% dos eleitores não compareceram às urnas. São 33,4 milhões de pessoas — ou seja, quase dez vezes a diferença de votos entre Flávio e Lula.
Essa foi a maior abstenção já registrada em um primeiro turno desde 1998.
Normalmente, a abstenção é maior entre pessoas mais pobres e com baixa escolaridade — um público em que Lula normalmente vai bem.
Outros 6 milhões de eleitores votaram branco ou nulo no primeiro turno, totalizando 4,8% dos votos.
Para Rafael Cortez, convencer alguém a mudar o voto é muito difícil neste cenário de polarização. Portanto, resta ao PT estimular quem não votou no primeiro turno a votar no segundo.
"Lula precisa de um eleitor novo, dada a baixa probabilidade de mudança de voto de alguém que votou no bolsonarismo e mudar pro petismo", explica.
Para conseguir um eleitor novo, diz Cortez, a campanha de Lula precisa se esforçar para empolgar esse público ou anunciar algo novo.
"É um eleitor que não gosta do governo, não gosta do Flávio Bolsonaro. E precisa receber um choque do governo, uma sinalização econômica, um anúncio de nome de peso para a equipe ministerial", exemplifica.
Na avaliação de Maria do Socorro Braga, professora da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), essas eleições também ficaram marcadas pela apatia de parte do eleitorado, com uma campanha pouco animada nas ruas.
"Essa eleição é uma continuidade da disputa de 2022", explicou Braga à BBC, argumentando que há um cansaço com o cenário repetido PT x família Bolsonaro, além do cansaço com os vários governos do PT.
Para a cientista política Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o governo precisa convencer essas pessoas desacreditadas com a eleição para "acreditar no potencial de mudança por meio da política".
"Hoje, o custo de não votar é muito baixo. Então, é preciso dar significado ao voto para essas pessoas", avalia.
Francisco Teixeira, professor de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que a estratégia de Lula para o segundo turno provavelmente deve passar por reduzir a abstenção entre os mais velhos e os mais jovens — dois grupos nos quais o petista tem maior apoio, segundo as pesquisas.
Entre os eleitores mais velhos, Teixeira diz que podem ter apelo temas como a defesa das aposentadorias e pensões, a oferta de medicamentos gratuitos e a atuação do SUS.
Já entre os mais jovens, a estratégia pode enfatizar os indicadores da economia brasileira, que hoje registra níveis baixos de desemprego, segundo Teixeira.
O governo Lula, segundo Cortez, ainda vai aguardar uma melhora na avaliação com as pautas positivas, como a PEC do fim da escala 6x1. O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), pautou para a partir de terça (6/10) a discussão da PEC.
O novo valor do Bolsa Família também estará disponível aos beneficiários a partir de 19 de outubro, conforme o calendário do programa.
2. Perda de votos em todos os Estados do Nordeste
Em todos os Estados do Nordeste, Lula teve uma votação menor do que em 2022.
As maiores perdas foram no Maranhão (de 68,84% para 63,91%, queda de 4,94 pontos percentuais) e Bahia (de 69,73% para 66,04%, queda de 3,68 pontos).
O cientista político Vitor Sandes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), diz que o resultado mostra que Lula deveria ter o Nordeste como um dos seus focos no segundo turno, "para ele poder recuperar essa margem, já que a região Nordeste tem o eleitor mais suscetível a se identificar com políticas vinculadas ao lulismo".
A cientista política Luciana Santana, da Ufal, avalia que tanto Lula quanto Flávio vão ter que se esforçar para convencer mais eleitores a votarem em Estados onde têm votação expressiva.
No caso de Lula, explica Santana, o presidente não terá o segundo turno da eleição para governador para animar o eleitor em Estados importantes no Nordeste.
Bahia, Piauí e Ceará reelegeram seus governadores petistas já no primeiro turno. Em Pernambuco, segundo maior colégio eleitoral da região, a governadora Raquel Lyra (PSD) venceu o candidato de Lula, João Campos (PSB).
"Então, é preciso traçar estratégias para manter essas bases ativadas", afirma Santana.
Para o analista Rafael Cortez, o resultado no Nordeste deve servir como alerta para a campanha de Lula como um todo. Isso porque, segundo ele, mostra que, no fundo, a eleição foi mais "uma avaliação negativa do governo" do que uma "comparação entre candidatos".
"Acho que foi menosprezado esse sentimento de mudança no eleitorado", avalia Cortez.
3. Derrota em São Paulo, o maior colégio eleitoral
Outro desafio de Lula para reverter o resultado do primeiro turno seria melhorar seu resultado em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.
Quatro anos atrás, Jair Bolsonaro teve uma vantagem de 7 pontos percentuais sobre Lula em São Paulo no primeiro turno.
Desta vez, a vantagem de Flávio pra Lula aumentou pra 14 pontos — o dobro.
Lula até ganhou na capital, com 5 pontos percentuais de vantagem sobre Flávio, e também ficou na frente em alguns municípios da Grande São Paulo, como Diadema e São Bernardo do Campo.
Mas no interior — uma região historicamente mais conservadora, e bastante populosa — Flávio ganhou com folga.
Essas duas regiões devem mobilizar as campanhas, segundo Maria do Socorro Braga, da Ufscar.
"Temos o eleitorado no interior paulista, com grandes correntes mais conservadoras quem tenderão a se consolidar com o voto no Flávio Bolsonaro, em contraste com a capital e os municípios da região metropolitana", disse à BBC.
Flávio tem alguns trunfos em São Paulo para o segundo turno. O governador Tarcísio de Freitas — que é aliado de Flávio — se reelegeu com facilidade.
E os dois senadores que foram eleitos em São Paulo, Guilherme Derrite e André do Prado, também são aliados de Flávio.
Por outro lado, o historiador Luiz Felipe de Alencastro aponta a possibilidade de que a vitória de Tarcísio no primeiro turno desmobilize parte do eleitorado do governador — um público que também tende a votar em Flávio.
4. O voto de Minas, o Estado espelho
O resultado do primeiro turno também revelou uma forte mudança de cenário em Minas Gerais.
O Estado é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil e é visto como um termômetro nacional em eleições.
Historicamente, quem ganha a eleição para presidente em Minas também ganha na contagem geral.
Flávio teve 5 pontos de vantagem sobre Lula. Já em 2022, foi Lula quem teve 5 pontos de vantagem sobre Jair Bolsonaro.
O mapa da votação em Minas mostra um Estado bastante dividido — o norte de Minas tem um comportamento eleitoral parecido com o da região Nordeste, com forte votação para Lula.
Já o sul e o oeste do Estado têm um perfil mais parecido com o do interior de São Paulo ou do Centro-Oeste.
A disputa para governador em Minas foi vencida no primeiro turno pelo senador Cleitinho, que declarou voto em Flávio.
Andreza Aruska, diretora do King's Brazil Institute, do King's College London, disse à BBC que o fenômeno Cleitinho empurra Minas para a direita, alinhada com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
"Ele se coloca como um trabalhador, como povo, que fala nas ruas, que vai de camiseta, que conversa com as pessoas. Ele também se colocou a favor do fim da escala seis por um, mas se posiciona também junto à candidatura do Flávio", contextualiza Aruska sobre a força do novo governador.
Para o Senado, se elegeram Domingos Sávio, do PL, e Marília Campos, a única candidata do PT a se eleger para a Casa em um Estado do Sudeste nesta eleição — e alguém a quem Lula poderá recorrer pra tentar melhorar seus números no Estado.
5. Os votos de Cury, Renan, Caiado e Zema
Lula também vai precisar conquistar eleitores que, no primeiro turno, votaram em outros candidatos que não Flávio.
Analistas avaliam que boa parte dos votos destinados no primeiro turno a Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) tende a migrar para Flávio no segundo.
Isso porque são três candidatos de direita, cujas propostas têm mais em comum com Flávio do que com Lula.
Renan, Caiado e Zema conseguiram, juntos, pouco menos de 5% dos votos — um montante que daria a maioria para Flávio no segundo turno.
"Ele (Flávio) sai na frente e tem reserva de voto", diz o historiador Luiz Felipe de Alencastro, fazendo uma metáfora com uma corrida de Fórmula 1
"Ele tem um pitstop ainda na corrida e pode parar no pitstop. O Lula já não tem mais pitstop. O tanque que ele tem é esse", avalia
Nesse cenário, Lula teria que lutar para que ao menos parte desses votos não migre para Flávio.
Um dos principais palcos dessa batalha será Goiás, Estado natal de Caiado e onde ele foi apoiado por 12% dos eleitores, recebendo quase meio milhão de votos.
Goiás foi o Estado onde Lula teve a maior queda de votos no primeiro turno: de 39,51% em 2022 para 31,06% dos votos em 2026, uma derrocada de 8,46 pontos percentuais. Flávio teve uma vantagem de 22 pontos percentuais sobre Lula.
Na disputa para governador, Daniel Vilela do MDB se reelegeu — e espera-se que ele declare apoio a Flávio no segundo.
Também estão em disputa os 3,4 milhões de votos obtidos no primeiro turno pelo escritor Augusto Cury (Avante) — e aqui, segundo analistas, Lula parece ter mais chances de abocanhar uma parte maior.
Cury se define como um político de centro e concorreu se apresentando como uma alternativa à polarização entre esquerda e direita. Ele disse que não apoiará nem Lula nem Flávio no segundo turno.
Esse eleitor de centro seria justamente um para quem a campanha de Lula não olhou neste ano, na avaliação do cientista político Creomar de Souza, da Dharma Politics.
"As vitórias de Lula sempre foram acompanhadas de um enorme esforço de dizer para o eleitor de centro que Lula governaria também para eles."
Mas dessa vez "toda a estratégia da campanha ficou em termos históricos. Foi uma campanha olhando para o passado, naquilo que era o legado, as conquistas históricas, o que funcionou da última vez, quatro anos atrás".
Segundo Souza, "a grande característica" da campanha de 2026 foi a de conversar "só com a sua bolha de convertidos."