Publicado em 1 de março de 2026 às 18:11
Até poucos dias atrás, as imagens de drones interceptados no céu, destroços caindo na rua e prédios pegando fogo estavam fora do radar de quem vive e visita algumas das cidades mais prósperas do Oriente Médio, como Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e Doha, no Catar.>
Mas tudo isso passou a ser realidade desde o sábado (28/2), quando os EUA e Israel realizaram ataques contra o Irã, matando o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. >
Os iranianos revidaram, atingindo não só o território israelense e militares americanos, mas também alvos nos Emirados Árabes, no Catar, no Bahrein, no Kuwait, em Omã, no Iraque e na Jordânia.>
Segundo o Irã, esses países se tornaram alvo dos ataques porque possuem bases ou presença militar americana.>
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"Todos os territórios ocupados e as bases criminosas dos Estados Unidos na região foram atingidos pelos potentes impactos dos mísseis iranianos. Esta operação continuará sem descanso até que o inimigo seja derrotado de forma decisiva", afirmou a Guarda Revolucionária do Irã.>
Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã defendeu o direito do país de revidar e disse não estar mirando os países vizinhos, mas o que seria "solo americano".>
"Aos países da região: não estamos buscando atacá-los. Mas quando as bases localizadas em seu país são usadas contra nós, e quando os Estados Unidos realizam operações na região contando com essas forças, então atacaremos essas bases. Pois essas bases não fazem parte do território desses países; na verdade, são solo americano", disse Larijani.>
Mas imagens que ganharam as redes sociais e agências de notícias mostraram que os drones e mísseis do Irã alcançaram muito além de instalações militares.>
Só os Emirados Árabes Unidos, um dos mais atingidos, receberam até a tarde deste domingo 67 mísseis e 541 drones iranianos, segundo o governo.>
Desses drones, 35 caíram em território do país, resultando em três mortes.>
Uma dessas mortes ocorreu na área do aeroporto de Abu Dhabi, atingido por destroços de um drone.>
Já o aeroporto de Dubai, o segundo mais movimentado do mundo em tráfego de passageiros, foi danificado no que o governo chamou de "incidente" que deixou quatro funcionários feridos.>
Com os ataques, o espaço aéreo da região está fechado e centenas de voos foram cancelados, deixando milhares de turistas ainda sem perspectiva de voltar a seus países, inclusive o Brasil.>
Um deles é Ricardo Ferreira, assessor artístico brasileiro que está sem sair de seu quarto de hotel em Abu Dhabi, capital emiradense a pouco mais de 100 km de Dubai. >
Ferreira estava a trabalho nos Emirados Árabes com mais 16 pessoas e tinha a volta programada de Dubai para São Paulo na manhã deste domingo (1º/3). Agora, ele não faz mais ideia de quando conseguirá retornar.>
O brasileiro, que disse nunca ter imaginado passar por algo parecido nos Emirados Árabes, ouviu estrondos e viu caças e mísseis atravessando o céu de Abu Dhabi no sábado, sem saber que estava em meio a ataques do Irã.>
"Fomos pegos totalmente de surpresa, porque a gente estava sem informação nenhuma. A gente não tinha ideia de que isso estava para acontecer ou poderia acontecer", relata.>
O grupo só começou a entender o que estava acontecendo quando recebeu notícias de familiares e da imprensa brasileira.>
"Conforme foi passando o tempo, nós fomos ouvindo mais explosões, ficamos sabendo dos destroços que atingiram um dos hotéis mais famosos daqui. Aí sim que começou mais o pânico, mais o desespero", relata.>
Na famosa ilha artificial em forma de palmeira Palm Jumeirah, em Dubai, a região do hotel cinco estrelas Fairmont foi atingida por uma grande explosão no sábado.>
Destroços de um drone também provocaram um pequeno incêndio na fachada do icônico hotel em forma de vela Burj Al Arab.>
Segundo Ferreira, há fila na porta do hotel de turistas que não conseguiram voar em busca de hospedagem.>
A situação também pegou de surpresa quem mora em Dubai.>
A moradora Becky Williams disse à BBC ter visto cerca de 15 mísseis "lançados atrás da minha casa ontem", referindo-se aos mísseis disparados pelas autoridades dos Emirados para interceptar projéteis iranianos.>
"É possível ouvir as interceptações acontecendo no ar.">
Satya Jaganathan, que mora perto do porto de Dubai atingido por explosões, diz que a situação "ainda está relativamente calma, já que há apenas barulhos altos a cada poucas horas".>
"Mas é inquietante porque este não é o Dubai ao qual estamos acostumados".>
Na noite deste domingo, um alerta no celular pediu para que as pessoas procurassem abrigo e ficassem longe de janelas diante da possibilidade de mais ataques.>
Nas últimas semanas, líderes do Golfo Pérsico vinham tentando mediar conversas para que a situação não escalasse entre Estados Unidos e Irã. Mas os esforços não adiantaram.>
Ainda não se sabe com certeza quais eram os objetivos do Irã com os ataques aos Emirados Árabes Unidos, que são um de seus maiores parceiros comerciais.>
Mas o país tem presença militar americana, especialmente na base aérea Al Dhafra, ao sul de Abu Dhabi, que abriga aeronaves da Força Aérea americana e sistemas de defesa antimísseis. Além disso, o porto de Jebel Ali, em Dubai, um dos mais movimentados da região, recebe navios da Marinha dos EUA.>
Na vizinhança, também foram registrados ataques à base da marinha americana no Bahrein, onde drones e destroços de um míssil interceptado atingiram prédios na capital Manama.>
Também houve explosões em Doha, capital do Catar, onde mísseis direcionados à base aérea de Al Udeid, a maior base militar americana na região, foram interceptados.>
O luxuoso aeroporto da capital catari, frequentemente eleito um dos melhores do mundo e um dos maiores hubs globais de conexões entre Oriente e Ocidente, teve todos os voos suspensos.>
O Ministério das Relações Exteriores do Catar afirmou que o ataque feito por um vizinho "não pode ser aceito sob qualquer justificativa ou pretexto", ressaltando que o Catar sempre se manteve distante de conflitos regionais.>
A base americana do país já havia sido alvo do Irã em junho do ano passado, quando o Irã revidou os ataques que destruíram instalações nucleares no país.>
Já o Ministério da Defesa do Kuwait afirmou que sua força aérea interceptou e destruiu 97 mísseis balísticos e 283 drones desde que o Irã lançou contra o país, segundo a agência oficial de notícias.>
Segundo análise de Frank Gardner, correspondente de Segurança da BBC, uma linha vermelha foi cruzada no Golfo Pérsico diante dos ataques do Irã aos seus vizinhos. >
Para ele, é difícil imaginar como as famílias que governam esses Estados árabes poderão retomar relações minimamente normais com a atual liderança iraniana, caso ela sobreviva a esta guerra.>
Para Gardner, a escalada na região "é mais grave e perigosa do que qualquer outra coisa anterior".>
Enquanto os desdobramentos do conflito seguem rasgando o céu do Oriente Médio, influenciadores e milionários que escolheram Dubai como casa nos últimos anos seguem compartilhando conteúdo, dessa vez com menos luxo.>
O criador de conteúdo britânico Will Bailey atualizava seus seguidores filmando os rastros de fumaça deixados por mísseis e foguetes interceptadores no horizonte de Dubai.>
"Aquilo estava a poucos metros de nós", diz ele em um vídeo gravado perto do hotel Fairmont >
À agência AFP, a jornalista Emma Ferey, cujo romance de 2024, Emirage, retrata a cena de influenciadores nos Emirados Árabes, disse que "é possível perceber ansiedade" entre eles.>
"Mesmo sabendo que falar de política — ou pior, geopolítica — significa correr o risco de perder seguidores.">
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