Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 06:13
É uma coincidência. Mas muito relevante. Nos próximos meses, o papa Leão 14 irá nomear praticamente ao mesmo tempo os novos líderes de quatro das mais importantes arquidioceses brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro, as circunscrições mais populosas do país; Aparecida, um dos maiores centros de peregrinação católica do planeta; e Manaus, o coração da Amazônia, região que foi alçada ao protagonismo nas discussões católicas sob o pontificado anterior, do papa Francisco (1937-2025).>
Com essas mudanças de comando, Leão tem a oportunidade de imprimir sua visão na alta hierarquia do maior país católico do mundo. >
Para especialistas, esta será a hora crucial em que o papa americano pode começar a jogar com as cartas que tem na mão nos debates mais relevantes acerca dos desafios contemporâneos.>
Os atuais líderes dessas dioceses estão na idade limite para a aposentadoria compulsória determinada pelas regras da Igreja Católica.>
>
A norma, prevista no Código de Direito Canônico, é que um bispo, quando está prestes a completar 75 anos, apresente um pedido de renúncia ao papa. >
O Vaticano, então, combina um prazo para que o bastão seja passado ao sucessor. E nomeia um novo religioso para o cargo.>
Por padrão — embora não seja uma regra formal — um bispo aposentado, então, passa a ser reconhecido como emérito de sua última diocese. Deixa de ter papel executivo, mas segue sendo respeitado simbolicamente.>
Arcebispo de São Paulo desde 2007, o gaúcho Odilo Pedro Scherer chegou a esse limite de idade em setembro de 2024. Na ocasião, o então papa Francisco solicitou que ele ficasse no comando da maior arquidiocese do país até o final de 2026.>
Já o paulista Orani João Tempesta, que comanda a arquidiocese do Rio desde 2009, completou 75 anos em junho do ano passado. >
Na resposta ao seu pedido de renúncia, o papa determinou, a exemplo do que ocorreu com seu homólogo de São Paulo, que ele exercesse a função por mais dois anos.>
Há dez anos à frente da arquidiocese de Aparecida, o catarinense Orlando Brandes é um caso sui generis: vai trabalhar na função até os 80 anos, conforme determinou Francisco quando ele apresentou sua renúncia. >
Brandes nasceu em abril de 1946 e comanda a circunscrição do maior santuário católico do país há quase uma década.>
Por fim, o também catarinense Leonardo Ulrich Steiner, que lidera a arquidiocese de Manaus desde 2019, completou 75 anos em novembro do ano passado.>
"O Brasil é um país estratégico para o catolicismo romano", analisa a antropóloga e cientista da religião Lidice Meyer, professora na Universidade Lusófona de Portugal.>
Ela argumenta que se o pastoreio dos fiéis é "responsabilidade dos padres locais", são os bispos que os supervisionam e administram a atuação deles. "Assim, a escolha desses arcebispos é extremamente importante", comenta.>
"Não tenho dúvidas de que Leão 14 está diante de uma grande oportunidade. A verdade é que ele já está pensando de maneira muito estratégica. Esses nomes não serão escolhidos de forma aleatória", diz o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.>
A importância desses quatro cargos pode ser medida inclusive pelo reconhecimento formal que com o qual o Vaticano costuma brindar seus comandantes. >
Embora não seja uma regra escrita, é quase automático que o bispo que assuma alguma dessas dioceses seja, pouco tempo depois, feito cardeal, passando a integrar o grupo mais próximo do papa.>
No caso da morte ou renúncia do sumo pontífice, por exemplo, são os cardeais que se reúnem para eleger o sucessor — e deste grupo é que sai o novo papa.>
Scherer, o arcebispo de São Paulo, chegou a ser apontado como papável no conclave que elegeu Francisco, em 2013. Vaticanistas confirmam que ele chegou a ser bem votado nas rodadas que antecederam a eleição do argentino. >
Já no processo do ano passado, o brasileiro não era mais um nome visto como forte para comandar a Igreja.>
O chefe da arquidiocese de São Paulo chegou ao cargo em 2007, nomeado pelo então papa Bento 16 (1927-2022). Oito meses depois, no mesmo ano, tornou-se cardeal.>
Tempesta foi nomeado arcebispo do Rio no início de 2009, também por Bento. Foi Francisco que, cinco anos mais tarde, fez dele cardeal. >
A aproximação de ambos ocorreu durante a primeira viagem apostólica do papa argentino, quando ele veio ao Brasil em julho de 2013 e participou da Jornada Mundial da Juventude, evento que o Rio sediou na ocasião.>
Foi Francisco quem colocou Steiner para comandar Manaus no final de 2019, logo após o Sínodo dos Bispos para a Amazônia, encontro ocorrido no Vaticano que trouxe os holofotes do cristianismo para as questões missionárias e ambientais da mais importante floresta do planeta. >
Três anos mais tarde, o papa argentino faria dele cardeal. Foi simbolicamente marcante, como o primeiro cardeal da Amazônia.>
Brandes, nomeado para chefiar Aparecida em 2016, é uma exceção no grupo porque não chegou a integrar o colégio do cardeais. >
Mas seu antecessor no cargo, o hoje arcebispo emérito de Aparecida Raymundo Damasceno Assis, foi feito cardeal quando estava à frente da circunscrição — o que dá dimensão da visibilidade desse cargo para a cúpula do Vaticano.>
A socióloga Tabata Tesser, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião e doutoranda na Universidade de São Paulo, coloca esses quatro nomes em espectros ideológicos diferentes dentro da Igreja.>
Ela define Scherer como um religioso de centro, moderado, alguém que "representa uma Igreja de estabilidade e governança, com forte densidade teológica e cuidado institucional". "Alinha-se formalmente ao magistério social recente, mas sem assumir riscos pastorais mais disruptivos", diz ela.>
Tempesta, por sua vez, seria um nome conservador, da direita eclesial. "Fortaleceu uma Igreja de visibilidade, ordem e conciliação com o poder, evitando confrontos diretos com o conservadorismo religioso e político", pontua. >
"Na prática, abriu espaço para leituras mais fundamentalistas da fé, especialmente em contextos eleitorais.">
Brandes seria um nome da "centro-esquerda eclesial", alguém profundamente ligado ao trabalho pastoral, "com coragem discursiva em temas sociais".>
Por fim, Steiner, de perfil "progressista pastoral" seria a figura mais alinhada "à gramática eclesial que o papa deseja aprofundar", o que daria pistas sobre quem podem ser os sucessores nos postos que serão abertos. >
"Expressa uma Igreja desclericalizada, amazônica, sinodal e encarnada nas realidades dos pobres e dos povos originários. É o nome que mais rompe com o episcopalismo clássico", explica Tesser.>
"São quatro bispos de formações distintas e, por conta disso, com linhas pastorais que se ajustam diante do povo ao qual eles foram designados", comenta o teólogo Raylson Araujo, pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.>
Na sua análise, por exemplo, Scherer é aquele com "formação mais sólida, mais firme", de perfil canonista. Tempesta, o homem "da espiritualidade, da contemplação".>
A transição nos comandos dessas arquidioceses é tema que vem sendo discutido pelo papa. >
Para chegar aos nomes ideais, o pontífice ouve religiosos de sua confiança na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, claro, as opiniões do núncio apostólico no Brasil, que é o representante diplomático da Santa Sé no país. >
Desde 2020 o posto é ocupado pelo arcebispo italiano Giambattista Diquattro.>
Baseado em Brasília, ele tem boa interlocução com os principais nomes do catolicismo brasileiro e uma visão abrangente dos desafios que a Igreja Católica tem no país.>
Para especialistas, Leão 14 está diante de dois caminhos. Por um lado, pode optar pela continuidade de perfis, entendendo que, cada um a seu nome, Scherer, Tempesta, Steiner e Brandes conseguiram se impor à frente dos desafios de suas comunidades e, ao mesmo tempo, foram leais às determinações vindas do Vaticano.>
A opção seria Leão aproveitar a oportunidade e colocar nos quatro postos religiosos que sejam completamente afinados com a maneira como ele quer reger a Igreja.>
Pela lógica, pessoas muito mais ao estilo Steiner do que ao estilo Scherer.>
Mas isso não é tão simples. Se comungam de semelhante importância, essas quatro localidades têm desafios muito diferentes. O que pode exigir perfis muito diferentes de gestão.>
Araujo explica lembrando que os desafios de gerir igrejas fortemente urbanas, como São Paulo e Rio, é muito diferente de comandar uma vasta área com comunidades distantes, isoladas, e todo o desafio ambiental da Amazônia. >
De acordo com dados da CNBB, a Arquidiocese de São Paulo, a maior do país, atende a cerca de 5 milhões de católicos. A do Rio, segunda maior, 3,5 milhões.>
Já Aparecida carrega a especificidade de receber diariamente um manancial de peregrinos de todas as partes do país. Em 2025, o santuário de lá recebeu cerca de 10,5 milhões de fiéis.>
Por outro lado, Leão está há menos de um ano no trono. E, se demonstra uma continuidade ao papado de Francisco, é verdade que tem um perfil mais discreto, cuidadoso e, por vezes, parece mais conservador. >
Nesse sentido, os nomes que ele indicar para comandar São Paulo, Rio, Manaus e Aparecida, mais do que serem o estilo que ele quer imprimir ao catolicismo, podem demonstrar de forma mais clara que estilo é esse.>
Para Moraes, as escolhas de Leão vão revelar "se ele quer preservar o legado de Francisco e consolidar isso" ou se ele quer "avançar um pouco mais". "Até agora, Leão segue na esteira de seu antecessor. Aos poucos, deve deixar sua marca", acrescenta.>
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta