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Os minutos que antecederam a avalanche de lama na fronteira entre Nepal e China

Desastre natural já soma mais de 1 mil mortos e 3,9 mil desaparecidos após a inundação que devastou um importante rota comercial entre o Nepal e a China.

Publicado em 01 de Setembro de 2026 às 15:34

BBC News Brasil

Publicado em 

01 set 2026 às 15:34

O vídeo dura poucos segundos.

Uma parede escura aparece atrás dos prédios em Gyirong, no lado chinês da fronteira entre o Nepal e o Tibete, região anexada por Pequim na década de 1950.

Inicialmente, ela quase parece uma nuvem escura, até que ganha forma e velocidade.

Uma onda de água, lama, rochas, gelo e pedregulhos se espalha pelo vale. As imagens, feitas por câmeras de segurança às 10h59, hora do Tibete (23h59 em Brasília), viralizaram em todo o mundo.

Para muitos, esta foi a primeira evidência visual da enorme escala da destruição que estava por vir.

Ainda é difícil reconstruir o que aconteceu nos minutos seguintes. Mas fragmentos de vídeos e imagens de satélite mostram grande parte do complexo fronteiriço destruída. Construções que, antes, ocupavam o vale simplesmente deixaram de existir.

Os registros eletrônicos de imigração do posto de fronteira nepalês de Rasuwagadhi fornecem algumas informações, além das impressões do seu único funcionário sobrevivente.

Tika Ram Pokharel, por acaso, estava prestando naquele dia um exame na capital nepalesa, Katmandu. Ele conta à BBC que a fronteira estava mais movimentada que o habitual quando foi atingida pela enchente.

Imagem BBC Brasil
Imagem de satélite mostra a área em torno da fronteira entre o Nepal e a China antes que a enchente devastasse a região, levando com ela veículos e construções inteiras Crédito: Satellite image (c) 2026 Vantor

"Este é um caminho histórico entre Katmandu e o Tibete", explica o hidrólogo Ajay Dixit, da capital do Nepal.

"A região é geologicamente vulnerável, caracterizada por profundas gargantas e rios íngremes que fluem em alta velocidade, carregando muitos sedimentos que podem trazer rochas enormes."

Este é um local onde os peregrinos que se dirigem ao monte Kailash encontram comerciantes viajando entre o Nepal e a China, motoristas de caminhão, autoridades alfandegárias, turistas e pessoas que moram ao longo da fronteira.

Na manhã da enxurrada, mais de 100 cidadãos indianos podem ter estado no posto de fronteira ou nas suas proximidades. Pelo menos 275 indianos permanecem desaparecidos no Nepal, segundo o Ministério das Relações Exteriores da Índia.

O Departamento de Imigração do Nepal vem tentando reconstruir o que aconteceu em Rasuwagadhi, nas últimas horas antes do desastre.

Os registros eletrônicos demonstram que 89 cidadãos nepaleses e estrangeiros haviam deixado a imigração, saindo do Nepal em direção ao Tibete, enquanto quatro pessoas registraram entrada no sentido contrário.

Imagem BBC Brasil
Imagem de circuito fechado de TV mostra as pessoas fugindo, enquanto a água cobre as construções na fronteira entre o Nepal e a China em Gyirong, no dia 26 de agosto Crédito: Redes sociais via Reuters

O sistema de imigração nepalês fez seu último registro às 08h35, pelo horário local (23h52 do dia anterior, pela hora de Brasília), menos de 10 minutos antes que a enchente aparecesse na filmagem das câmeras de circuito fechado em Gyirong.

Quatro funcionários da imigração ficaram desaparecidos na inundação, incluindo o chefe do escritório de Rasuwagadhi.

Seu corpo foi recuperado posteriormente, em local muito distante dali. A funcionária que processou os últimos registros segue desaparecida.

Entre os cidadãos estrangeiros registrados na saída do Nepal naquela manhã, havia 32 indianos, 12 chineses e nove americanos, além de viajantes do Reino Unido, Canadá, Austrália e Itália.

Tika Ram Pokharel, o assistente de imigração sobrevivente de Rasuwagadhi, afirma que os registros eletrônicos incluem apenas parte do que aconteceu na fronteira naquela manhã.

O escritório de imigração fica em Ghatte Khola Bazar, que fica a cerca de 1,5 km ao norte de Timure, um pequeno vilarejo comercial encrustado em torno da fronteira. E mais 2 km separam aquele local da Ponte da Amizade, que marca a fronteira com o Tibete.

Ao longo do caminho, havia lojas, hotéis e áreas de estacionamento, onde viajantes e veículos se reuniam antes de cruzar a fronteira.

O escritório de imigração nepalês abriu às 8h da manhã, segundo Pokharel. Quando os viajantes saíam da imigração, podiam continuar em direção à fronteira ou aguardar na área antes de cruzá-la.

Imagem BBC Brasil
As cheias de julho do ano passado em Rasuwagadhi destruíram a Ponte da Amizade (que marca a fronteira com o Tibete), além de estradas e uma subestação hidrelétrica. Elas também carregaram veículos em Rasuwa, no Nepal Crédito: Getty Images

Pokharel ligou para um colega às 8h20 daquela manhã e ficou sabendo que o cruzamento da fronteira estava mais movimentado que o normal.

Cerca de 300 a 400 pessoas aguardavam para sair do Nepal em direção ao Tibete, segundo ele, enquanto outras chegavam do lado chinês e também estavam na região.

"Acredito que as pessoas que completaram as formalidades de imigração naquela manhã não conseguiram completar seu processo de entrada no lado chinês", explica Pokharel à BBC.

Ele afirma que o caminho a pé do escritório de imigração nepalês até a ponte, depois que os viajantes saíam da imigração, levava de 15 a 20 minutos.

Alguns viajantes que chegavam no final da tarde anterior precisavam esperar pela reabertura da fronteira na manhã seguinte. Já os que chegam em grupos ou de ônibus, muitas vezes, esperavam que todos completassem o processo de imigração para saírem juntos.

Tudo isso dificulta saber onde estavam aquelas 89 pessoas quando chegou a enxurrada.

Às 8h37 (menos de dois minutos depois que o sistema de imigração nepalês fez seu último registro), instrumentos sísmicos detectaram movimentos nas montanhas acima da fronteira, segundo a linha do tempo compilada pelo Centro de Hidrologia e Pesquisa de Recursos Aquáticos do Nepal.

Posteriormente, os pesquisadores atribuíram este sinal ao colapso de parte de uma geleira, que provocou a inundação.

A China afirmou que, do seu local de origem, o deslizamento de lama levou cerca de sete minutos para atingir a fronteira.

Imagem BBC Brasil
O assistente de imigração Tika Ram Pokharel é o único funcionário sobrevivente do Escritório de Imigração nepalês de Rasuwagadhi. Ele estava em Katmandu para um exame, quando a enchente atingiu o local Crédito: BBC

As pessoas que estavam na fronteira poderiam estar se dirigindo à ponte, aguardando em Ghatte Khola ou se preparando para cruzar para o lado chinês.

Ainda não se sabe ao certo onde estava cada uma delas.

E Ghate Khola também era muito mais do que uma área de espera. Pokharel afirma que havia 50 a 60 casas ali, além de hotéis, comércios locais e quatro instalações hidrelétricas.

O local também era a última parada dos ônibus que vêm de Katmandu e servia de base para os motoristas, ajudantes, guias turísticos e trabalhadores do transporte de carga, que aguardam liberação alfandegária. Os viajantes que se dirigem ao Tibete também costumam fazer fila naquele local, de um dia para o outro.

"Tenho 40 a 50 amigos próximos que estão desaparecidos", lamenta Pokharel.

Ele acredita que o número de mortos naquela região poderá ser muito maior do que sugerem os números oficiais. Pokharel calcula que "2 mil a 2,5 mil pessoas" podem ter sido atingidas pela enchente.

Estes números são suas estimativas e não foram verificados de forma independente.

Os últimos números oficiais somam 1 mil mortos e mais de 3,9 mil desaparecidos no lado nepalês.

Imagem BBC Brasil
Mais de 100 cidadãos indianos podem ter estado na fronteira atingida pelas inundações. Pelo menos 275 indianos permanecem desaparecidos no Nepal, segundo o Ministério de Relações Exteriores da Índia Crédito: Reuters

O escritório de imigração ficava a cerca de 100 metros acima do rio, segundo Pokharel. Mas, durante a cheia, a água pareceu atingir níveis ainda mais altos.

Ele inicialmente esperava que seus colegas desaparecidos pudessem ter escapado para terra firme a vários quilômetros de distância.

Para alguns dos peregrinos indianos na fronteira, a manhã havia começado como um dia qualquer. Eles fizeram ligações e vídeos para seus parentes, mostrando as montanhas, enquanto aguardavam a abertura do escritório de imigração da China.

Sudipto Bhattacharya recebia mensagens da sua esposa, Subhrasree Chakraborty, que viajava com um grupo de mais de 60 pessoas.

Às 7h57, hora do Nepal, ela enviou a ele uma fotografia do carimbo de saída no seu passaporte. Ela havia passado pela imigração nepalesa.

Seis minutos depois, ela escreveu novamente: "Estamos aguardando para entrar na China." Foi sua última mensagem.

Entre as pessoas que estavam na imigração chinesa, havia um grupo de 77 peregrinos associados à Fundação Isha. Eles retornavam do monte Kailash e estão desaparecidos, junto com três funcionários, desde que a inundação varreu a região.

Imagem BBC Brasil
Socorristas em operação de busca e resgate na área atingida pelo deslizamento de lama em Gyirong, no Tibete (China) Crédito: Getty Images

Uma equipe de 21 socorristas chineses chegou a Gyirong no dia 28 de agosto. Um deles declarou à imprensa estatal da China que "até onde podemos ver, existem apenas ruínas".

A fronteira havia se recuperado recentemente de outra grande enchente. Em julho de 2025, as cheias fecharam Rasuwagadhi por cerca de seis meses.

O cruzamento foi reaberto no dia primeiro de janeiro, com uma ponte temporária construída pela China. O tráfego retornou desde então.

Autoridades fronteiriças chinesas afirmam que mais de 100 mil pessoas atravessaram a fronteira em Gyirong até junho. Já os registros nepaleses mostram 53.742 chegadas e partidas de Rasuwagadhi entre janeiro e meados de julho.

Os dois números se referem a diferentes períodos e sistemas de contagem, o que dificulta sua comparação.

O maior grupo registrado no ponto de imigração nepalês era de cidadãos indianos, seguidos por nepaleses e chineses. Gyirong também passou a ser uma das primeiras artérias de ligação entre o Nepal e a China.

Posh Raj Pandey é o presidente emérito da organização South Asia Watch on Trade, Economics and Environment, com sede em Katmandu. Ele afirma que Rasuwagadhi é um dos dois maiores pontos de comércio do Nepal com a China, ao lado de Tatopani.

Segundo ele, Rasuwagadhi representa cerca de um terço do comércio entre o Nepal e seu vizinho do norte, que totaliza US$ 2,95 bilhões (cerca de R$ 15,2 bilhões).

Cerca de 60 a 70 caminhões atravessavam o desfiladeiro todos os dias, levando eletrônicos, máquinas, veículos, frutas, roupas e outras mercadorias em direção a Katmandu.

Pandey afirma que, por aquele caminho, também trafegavam cerca de 80% das importações de veículos elétricos chineses do Nepal.

Seu fechamento deixou o país mais dependente de Tatopani, que as autoridades chinesas também fecharam temporariamente, devido aos riscos de deslizamento no lado nepalês, segundo o jornal Kathmandu Post.

A fronteira também fica ao lado do trajeto proposto para a ferrovia que irá ligar a região a Katmandu. Ela faz parte dos planos do Nepal e da China para desenvolver uma rede ferroviária trans-Himalaia.

"O Nepal precisa desenvolver uma rota comercial alternativa com a China e reconsiderar sua estratégia de desenvolvimento como um todo, incluindo sua alta concentração de projetos hidrelétricos ao longo do mesmo sistema fluvial", afirma Pandey.

"Nós colocamos todos os ovos aqui. Precisamos desenvolver uma fronteira alternativa."

Na fronteira, Tika Ram Pokharel fica pensando nas conversas que teve com seus colegas que, agora, estão desaparecidos.

A enchente do ano passado havia conscientizado os funcionários do escritório de imigração de Rasuwagadhi sobre os riscos iminentes.

Ele conta que, às vezes, "sentia vibrações" à noite e saía para inspecionar o rio. Eles haviam chegado a discutir entre eles como escapar subindo as montanhas, se outra cheia atingisse a região.

"Mas meus amigos não tiveram esta sorte", lamenta ele.

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