A britânica Emma Nicholls fica com os olhos cheios de lágrima até hoje ao rememorar do que aconteceu em 2 de setembro de 2018.
"Eu chorei naquele dia, foi devastador. E, mesmo de falar sobre isso oito anos depois, ainda me emociono", relata a paleontóloga, que é gerente de coleções do Museu de História Natural da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
O evento ao qual Nicholls se refere aconteceu a milhares de quilômetros de distância, do outro lado do Atlântico: o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, a mais antiga instituição científica do Brasil e um dos maiores museus de história natural e antropologia das Américas.
Estima-se que o desastre ocorrido há cerca de oito anos tenha destruído mais de 80% do acervo e gerado perdas irreparáveis (saiba mais a seguir).
Desde então, diversas instituições ao redor do mundo têm feito um esforço para contribuir com a restauração do acervo da instituição brasileira.
Uma delas é justamente o Museu de História Natural da Universidade de Oxford, que decidiu enviar ao Brasil, de forma definitiva, 62 fósseis que estavam no Reino Unido há algumas décadas.
A reportagem da BBC News Brasil foi até Oxford para ver esses espécimes de perto e entender como será feita essa doação.
De volta à casa
Nicholls conta que, a partir do momento em que surgiu a oportunidade de contribuir com a reconstrução do Museu Nacional, não houve qualquer dúvida sobre a necessidade de ajudar.
"Foi algo que todos nós consideramos extremamente importante e que estamos com muita vontade de concretizar", confessa ela.
Para começar, os curadores do museu de Oxford fizeram um levantamento de todos os fósseis que eles tinham na coleção cuja origem era o Brasil.
Eles encontraram 118 espécimes diferentes, que chegaram ao Reino Unido em duas levas.
A primeira vem do Paraná e foi coletada por um pesquisador chamado J. A. Cartwright em 1979.
A segunda é da região do Ceará, e foi descoberta durante uma escavação do geólogo Philip Powell em 1993.
Os espécimes são bem variados: vão desde peixes encapsulados numa rocha, com todas as estruturas preservadas em três dimensões, até insetos, algas e rastros de animais que foram extintos há muito tempo.
Alguns fósseis têm mais de 400 milhões de anos — e são mais antigos que os dinossauros.
Nicholls detalha que os espécimes estão num excelente estado de conservação e poderão ajudar a fazer muitas pesquisas sobre o passado dos lugares onde esses seres viveram.
Eles estão sendo preparados e serão enviados ao Brasil "assim que possível", segundo ela.
Critérios para doar fósseis
Feito o levantamento dos fósseis brasileiros em Oxford, surgiu a questão: quais espécimes manter no Reino Unido e quais mandar para o Rio de Janeiro?
Nicholls explica que eles usaram dois critérios principais para decidir quais ficariam no museu inglês.
Primeiro, os fósseis que estão sendo usados para fazer pesquisas neste momento.
Segundo, aqueles considerados "espécimes-tipo", que estão formalmente vinculados à coleção de Oxford e serviram de referência para descrições científicas.
Nesses casos, de acordo com a paleontóloga, se um outro pesquisador quiser replicar o estudo original, é importante que seja possível rastrear a peça, de modo que ela esteja no mesmo lugar onde foi descrita no artigo acadêmico, para evitar confusões e problemas burocráticos.
Depois de fazer essa peneira, os curadores decidiram enviar ao Museu Nacional um total de 62 fósseis.
"O que nós queremos é ajudar o Museu Nacional do Brasil, de uma forma singela e humilde", diz Nicholls.
"Nós, do Museu de História Natural aqui de Oxford, somos uma parte infinitesimalmente pequena de todo esse projeto."
"As atenções devem estar voltadas para o Museu Nacional, e tudo que queremos é apoiá-los e fazer tudo o que está ao nosso alcance para recuperar parte das coleções", complementa ela.
Solidariedade no Brasil e no mundo
O zoólogo Ronaldo Fernandes, atual diretor do Museu Nacional, também tem a memória viva de tudo o que aconteceu no dia 2 de setembro de 2018.
"Nós perdemos a coleção de insetos, que tinha milhões de exemplares. Perdemos as coleções de etnologia. Perdemos parte significativa da colecão egípcia, que era uma das maiores do Hemisfério Sul", exemplifica ele.
Fernandes estima que cerca de 85% do acervo do museu foi destruído durante o incêndio.
A perda se deu por duas vias principais: primeiro, as chamas, que reduziram a pó boa parte do que era feito de madeira, pena e outros materiais sensíveis; segundo, o colapso da estrutura do prédio (o Paço de São Cristóvão, que abrigava boa parte das coleções, tem três andares), que estilhaçou as peças de cerâmica e outros materiais que poderiam até resistir ao fogo.
"Lembro de ter ligado a televisão e estava passando as cenas do incêndio. Eu fiquei paralisado", relata o pesquisador.
Ele saiu do estado catatônico ao receber uma ligação da parceira do paleontólogo Alexander Kellner, que era o então diretor do Museu Nacional.
Kellner estava num avião a caminho do Rio de Janeiro, e não sabia do desastre que ganhou as manchetes do Brasil e do mundo.
Coube a Fernandes encontrá-lo no aeroporto e dar a notícia.
O zoólogo destaca que as tentativas de ajuda não demoraram a aparecer.
"No dia seguinte, o Ministério da Educação disponibilizou o dinheiro necessário para a estabilização do prédio e a construção de um telhado para proteger a parte interna. Na mesma semana, o governo da Alemanha nos ofereceu 1 milhão de euros para a reconstrução", conta ele.
Diversas pessoas e instituições começaram a doar coleções próprias — a exemplo do que o Museu de História Natural da Universidade de Oxford está fazendo agora.
"Tivemos o caso de uma família de alemães que doou mil fósseis, que chegaram há dois anos", destaca Fernandes.
"O pai do cantor Nando Reis coletava conchas e moluscos, uma coleção bastante preciosa, que também foi doada ao Museu Nacional."
"Uma instituição da Áustria nos enviou objetos de um explorador que esteve no Xingu no final do século 19, um médico brasileiro que trabalhou na África também doou materiais", segue o zoólogo.
Fernandes lista também os esforços diplomáticos brasileiros para resgatar alguns objetos importantes guardados no exterior.
É o caso, por exemplo, de um dos famosos mantos tupinambá, que estava sob a guarda do Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhague, e voltou recentemente ao país.
A Polícia Federal investigou as causas do incêndio do Museu Nacional e concluiu que não houve crime.
A hipótese mais provável para o início do fogo foi uma falha elétrica relacionada a um aparelho de ar-condicionado.
Ninguém foi responsabilizado criminalmente, porque a investigação não identificou condutas criminosas ou uma pessoa culpada pelo acidente.
O incêndio aconteceu depois de anos de problemas de manutenção, falta de recursos e alertas sobre as condições precárias do prédio.
Uma nova vida ao Museu Nacional
Fernandes lembra que o Museu Nacional recebia cerca de 350 mil visitantes todos os anos.
"E nós tínhamos uma necessidade de, durante o processo de reconstrução depois do incêndio, manter o museu vivo no imaginário popular", detalha ele.
"Então fizemos um esforço para conseguir abrir pelo menos um pedaço do paço."
Atualmente, o Museu Nacional mantém algumas salas abertas ao público — inclusive uma que abriga o Bendegó, um famoso meteorito que virou nome de penteado, crônica de Machado de Assis e símbolo de sobrevivência da instituição.
Há ainda uma sala com instrumentos musicais — violão, cavaquinho, bandolim e violino — construídos com madeiras que sobreviveram ao incêndio e foram moldados por um bombeiro que ajudou a combater as chamas.
Esses mesmos instrumentos já foram usados por grandes artistas brasileiros, como Gilberto Gil e Paulinho da Viola.
Em 2024, a fachada principal do Paço de São Cristóvão foi completamente recuperada, inclusive com as cores originais — o local serviu de residência dos antigos imperadores brasileiros durante o século 19.
A expectativa é que o museu esteja em pleno funcionamento até o final de 2029.
Mesmo assim, o esforço de restauração das mais de 5 mil peças que foram resgatadas das cinzas após o incêndio é algo que vai demorar muitos anos.
"Esse é um trabalho que vai levar décadas, algo a ser concluído pelas próximas gerações", antevê Fernandes.
Entre processos de restaurações e doações, Fernandes se diz grato e feliz com o movimento que resolveu abraçar, de diferentes maneiras, a reconstrução do Museu Nacional.
"É a solidariedade, é a noção de que o museu é uma coisa importante, essencial para compreender o país e educar o povo", avalia ele.
"E vejo que colegas mundo afora entenderam isso e, dentro do possível, estão fazendo o que podem para nos ajudar."
"'Nós somos muito gratos por isso", conclui ele.
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