O relógio está correndo para a ameaça do presidente Donald Trump de destruir grande parte da infraestrutura civil do Irã se o país não fechar um acordo até a noite de terça-feira (7/4) nos Estados Unidos.
Mas Trump se colocou numa situação difícil com ameaças que os militares americanos não conseguem executar de forma viável de uma só vez, disseram à BBC especialistas e analistas militares. E eles alertam que uma nova rodada de ataques, por maior que seja, dificilmente forçará o regime iraniano a concordar rapidamente com um cessar-fogo.
Trump prometeu na segunda-feira (6/4) destruir "todas as pontes" e usinas de energia do Irã em apenas quatro horas se um acordo não for alcançado até 21h (horário de Brasília).
Ele intensificou ainda mais o tom na manhã desta terça, advertindo que "toda uma civilização morrerá" se o Irã não concordar com um acordo até seu prazo.
Em conjunto, os avisos equivaleram a uma ameaça sem precedentes de um presidente dos EUA. Atacar infraestrutura civil pode constituir um crime de guerra, segundo especialistas em direito internacional. Mas Trump descartou essas preocupações em uma coletiva de imprensa na segunda.
Além do impacto sobre os civis iranianos, ex-funcionários do setor de defesa dos EUA e outros analistas disseram que os EUA simplesmente não conseguem destruir todas as pontes de um país do tamanho do Irã em apenas algumas horas, como Trump ameaçou fazer.
O Irã tem aproximadamente um terço do tamanho do território continental dos EUA. Os EUA conhecem a localização exata das principais instalações nucleares do Irã e de outras infraestruturas-chave, mas provavelmente não conseguem identificar milhares de outros alvos em todo o país e destruí-los em um intervalo de tempo tão curto, disseram especialistas.
"Cumprir essa ameaça literalmente exigiria um esforço extremamente difícil. E isso teria o efeito estratégico desejado?", disse um ex-alto funcionário do setor de defesa dos EUA que pediu para não ser identificado. "Trump parece quase lutar para encontrar um novo nível ou ameaça que consiga expressar em palavras e que mova a agulha estratégica mais a favor dos EUA aqui."
Um ataque em grande escala ao setor elétrico do Irã é mais viável do que eliminar cada ponte do país, disseram especialistas.
A maioria das usinas de energia e refinarias do Irã está localizada em três províncias costeiras — Bushehr, Khuzestan e Hormozgan — no Golfo Pérsico. Atacar usinas de energia na região poderia representar um golpe significativo ao regime iraniano, disse Miad Maleki, ex-alto funcionário do Tesouro dos EUA que liderou sanções contra o Irã.
"Se você fizer qualquer coisa nessas três províncias, você corta o acesso do regime à receita do petróleo [e] seu acesso ao Golfo Pérsico e ao Estreito de Ormuz", disse Maleki, pesquisador sênior da Foundation for Defense of Democracies [Fundação para a Defesa das Democracias, em português].
O vice-presidente JD Vance disse que os EUA realizaram ataques aéreos contra alvos militares na Ilha Kharg, uma ilha-chave no Golfo Pérsico que responde por cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã.
Em uma coletiva de imprensa em Budapeste nesta terça, Vance disse que esses ataques não representavam uma mudança na estratégia de Trump. Ele afirmou que as negociações com o Irã continuariam até o prazo de Trump, mas advertiu que os EUA poderiam infligir "dor muito maior" à economia do país.
"Então eles precisam saber que temos ferramentas no nosso kit que até agora não decidimos usar. O presidente dos Estados Unidos pode decidir usá-las e decidirá usá-las se os iranianos não mudarem sua conduta."
A Casa Branca descartou relatos de que os comentários de Vance contivessem qualquer sugestão de um ataque nuclear dos EUA contra a república islâmica.
Parte da infraestrutura civil já foi alvo de ataques. A mídia estatal do Irã informou que ataques aéreos dos EUA e de Israel atingiram uma ponte na cidade de Qom. Na semana passada, Trump disse que os EUA bombardearam a maior ponte do Irã.
Não está claro se a nova onda de ataques que Trump ameaçou seria suficiente para forçar Teerã a voltar à mesa de negociações. Autoridades dos EUA e do Irã teriam conversado diretamente depois que semanas de negociações indiretas não conseguiram aproximar os lados de um acordo.
Ainda assim, os países permanecem distantes em questões importantes, incluindo o futuro do setor petrolífero do Irã, o programa nuclear e o controle do Estreito de Ormuz.
Trump disse na segunda que seu enviado especial Steve Witkoff, o genro Jared Kushner e Vance estavam liderando as negociações. Mas um funcionário dos EUA que falou sob condição de anonimato disse que Witkoff e Kushner lideram os esforços do dia a dia e que Vance só seria envolvido se um acordo estivesse próximo.
"O vice-presidente pode ser acionado de forma mais direta se houver progresso suficiente feito por Witkoff e Jared", disse o funcionário dos EUA.
Trump pode estar apostando que o regime sentirá a pressão da população do Irã para fechar um acordo se o país for mergulhado na escuridão por um ataque generalizado à rede elétrica.
Mas os iranianos já viviam com quedas de energia antes do início da guerra no fim de fevereiro. O regime provavelmente não veria mais apagões como um incentivo para negociar com os EUA, disse Maleki.
"Isso não é uma questão de tempo de guerra", disse ele. "O povo iraniano já está lidando com um setor de energia e eletricidade completamente disfuncional."
Além disso, atacar o setor elétrico do Irã poderia complicar o esforço de Trump para reabrir totalmente o Estreito de Ormuz. O Irã levou a maior parte do tráfego de petroleiros na via marítima a um impasse, agitando o mercado global de petróleo e fazendo os preços dispararem.
Trump não apresentou um argumento forte de que os EUA vão conseguir o que querem ao escalar a guerra, disse Jason Campbell, ex-funcionário do Departamento de Defesa durante os governos do ex-presidente Joe Biden e de Trump.
Quase seis semanas após o início da guerra, o regime iraniano mostrou ter um alto limiar de dor e que não cederá facilmente às exigências dos EUA, disse Campbell, pesquisador sênior do Middle East Institute.
Para a liderança do Irã, disse Campbell, a guerra "é uma luta existencial não apenas para o país, mas para o regime".
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