Publicado em 8 de janeiro de 2025 às 18:44
Em um vídeo publicado no blog da Meta na terça-feira (7/1), o presidente-executivo da empresa de tecnologia, Mark Zuckerberg, anunciou que está abandonando o uso de checagem independente de fatos no Facebook e no Instagram.>
A checagem de fatos conduzida por especialistas e jornalistas nas plataformas será substituído por "notas da comunidade", um sistema aberto aos usuários, em um modelo semelhante ao do X.>
O anúncio foi celebrado por defensores da liberdade de expressão absoluta e por apoiadores do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, que classificaram a medida como um esforço para "reduzir a censura" no Facebook e Instagram.>
Em sua declaração, Zuckerberg disse que os moderadores profissionais utilizados até agora são "muito tendenciosos politicamente" e que era "hora de voltar às nossas raízes, em torno da liberdade de expressão".>
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Ao mesmo tempo, ativistas contra o discurso de ódio na internet e organizações de jornalismo e checagem de fatos receberam as mudanças com grande preocupação.>
Analistas políticos e especialistas na área de tecnologia também viram na medida motivações políticas no momento em que as empresas de tecnologia e seus executivos se preparam para a posse de Trump, marcada para 20 de janeiro.>
Entre os críticos da mudança, muitos sugeriram que ela seria motivada justamente pela intenção de Zuckerberg de se aproximar do próximo presidente americano.>
"O anúncio de Zuckerberg é uma tentativa flagrante de agradar a próxima administração Trump — com implicações prejudiciais", disse Ava Lee, do Global Witness, grupo que se descreve como dedicado a cobrar a responsabilização das grandes empresas de tecnologia por seus atos.>
Já Kate Klonick, professora associada da Faculdade de Direito da Universidade de St John, afirmou à BBC que as mudanças refletem uma tendência "que parecia inevitável nos últimos anos, especialmente desde a aquisição do X por [Elon] Musk".>
"A gestão privada do discurso nestas plataformas tornou-se cada vez mais um ponto político", .>
Donald MacKenzie, sociólogo da Ciência e Tecnologia e professor da Universidade de Edimburgo, afirma que o momento é de readequação, com as grandes corporações americanas se preparando para o segundo mandato de Trump, que promete ser um período de transformação ainda maior do que o primeiro. >
"As corporações americanas sabem que esse é um momento de grande mudança - e que é muito melhor para elas ficaram do lado dessa mudança do que se opor a ela", disse à BBC News Brasil. >
Trump já foi um crítico voraz da Meta e de sua abordagem à moderação de conteúdo, chamando o Facebook de "um inimigo do povo" em março de 2024.>
Mas as relações entre ele e Zuckerberg melhoraram desde então: o CEO da Meta jantou na casa de Trump na Flórida, em Mar-a-Lago, no último mês de novembro e a empresa doou US$ 1 milhão (cerca de R$ 6,2 milhões) para um fundo para o evento de posse de Trump.>
Em mais um gesto de aproximação, Zuckerberg anunciou na segunda-feira (6/1) que Dana White, presidente-executivo do Ultimate Fighting Championship (UFC) e apoiador de longa data de Trump, passaria a fazer parte do conselho administrativo da Meta.>
"As eleições mais recentes parecem sinalizar um ponto de virada cultural para, mais uma vez, dar prioridade à liberdade de expressão", disse Zuckerberg no vídeo que publicou nesta terça-feira.>
A substituição de Nick Clegg — um liberal-democrata britânico que ocupava o cargo de principal executivo de políticas globais da Meta — por Joel Kaplan também foi interpretada como um sinal da mudança da empresa em relação à moderação e de realinhamento de suas prioridades.>
Kaplan atuou como vice-chefe de gabinete na Casa Branca durante o governo do presidente George W. Bush e é conhecido por chefiar as relações da empresa com os republicanos nos EUA.>
O novo executivo da Meta anunciou as mudanças na política de checagem do Facebook e Instagram em uma entrevista exclusiva ao Fox & Friends, um dos programas de TV favoritos de Donald Trump.>
Para Vivian Schiller, vice-presidente e diretora executiva da Aspen Digital, da organização internacional sem fins lucrativos Instituto Aspen, tudo isso parece muito com um "movimento político" por parte da Meta e de Zuckerberg.>
"É muito difícil olhar para esse momento e para essa mudança de 180 graus e não interpretar sob uma ótica que não seja a de Donald Trump voltando ao poder, assim como os riscos e as ameaças que ele representa para as empresas de redes sociais", disse Schiller, que também é ex-chefe da área de notícias do Twitter (agora X), ao podcast Newscast da BBC.>
A Justiça americana conduz atualmente uma série de ações antitruste contra grandes empresas de tecnologia, incluindo Amazon, Apple, Google e Meta.>
A empresa de Zuckerberg enfrenta um processo movido pela Comissão Federal de Comércio (FTC), que alega que as aquisições do Instagram em 2012 e do WhatsApp em 2014 foram realizadas para eliminar concorrentes emergentes, consolidando o monopólio da Meta no mercado de redes sociais.>
A companhia argumenta que as aquisições beneficiaram os consumidores, permitindo o crescimento e a inovação das plataformas adquiridas. A empresa também contesta a definição de mercado utilizada pela FTC, afirmando que não considera concorrentes significativos, como o TikTok, YouTube e LinkedIn.>
Em novembro de 2024, o juiz responsável pelo caso negou o pedido da Meta para encerrar o processo, movido em 2020, durante o primeiro governo de Trump. Uma data para o julgamento ainda não foi marcada.>
Para Donald MacKenzie, da Universidade de Edimburgo, a Meta e as demais empresas de tecnologia estão cientes de que "o presidente dos EUA tem muitas ferramentas para tornar sua vida muito difícil".>
"Trump poderia agir para barrar esses casos ou então fazê-los prosseguir a todo vapor", explica MacKenzie.>
Em um caso semelhante ao da Meta, a Alphabet, controladora do Google, foi considerada culpada de violar a lei antitruste dos EUA para manter o monopólio nos serviços de busca e publicidade. >
Como consequência, o Departamento de Justiça dos EUA emitiu, em novembro de 2024, uma decisão que forçava a empresa a desativar ou vender o seu navegador próprio, o Chrome. O processo continua correndo e, até o momento, a ferramenta está no ar sob a gestão da Alphabet.>
Donald MacKenzie afirma que esse e os demais casos contra outras grandes empresas de tecnologia certamente tiveram impacto na estratégia da Meta, que tenta se aproximar de Trump. >
"Qualquer grande empresa sabe o perigo potencial que é ter um presidente correndo atrás dela.">
Em entrevista ao canal de notícias CNBC, Lina Khan, presidente do FTC indicada por Joe Biden para o cargo, sugeriu que a Meta e outras empresas que enfrentam os processos antitruste da agência podem estar buscando "acordos favoráveis" com a administração Trump.>
"É verdade que a FTC tem sido muito bem-sucedida, inclusive em seus litígios em andamento contra a Amazon e o Facebook. E então, é natural que essas empresas queiram entrar e ver se conseguem algum tipo de acordo favorável", disse Khan, que será substituída no cargo de liderança do órgão pelo comissário da FTC Andrew Ferguson, indicado por Trump.>
Na entrevista, Lina Khan ainda questionou se as empresas poderiam "obter algum tipo de acordo que seja barato" e que "os deixe escapar de uma descoberta de responsabilidade no tribunal" por meio de uma aliança com o novo governo.>
Em seu anúncio sobre as mudanças na política de checagem de fatos, Mark Zuckerberg afirmou ainda que a Meta vai se aliar ao governo de Donald Trump para pressionar outros países que buscam regular o ambiente digital.>
"Vamos trabalhar com o presidente Trump para pressionar os governos ao redor do mundo que estão perseguindo empresas americanas e pressionando para censurar mais", afirmou o dono da Meta, Mark Zuckerberg. >
Segundo o empresário, "a única maneira de resistir a essa tendência global é com o apoio do governo dos EUA".>
O bilionário argumentou ainda que a Europa está "institucionalizando a censura", que os países latino-americanos têm "tribunais secretos que podem ordenar que empresas retirem coisas discretamente [do ar]" e que a China "censurou nossos aplicativos".>
Para Vivian Schiller, da Aspen Digital, há uma correlação entre essas declarações e o fato de que manter seus negócios e uma presença robusta nesses mercados é importante para a Meta e seus acionistas.>
"Expressões como 'censura' e 'liberdade de expressão' têm sido usadas por vários atores com diferentes significados", diz. >
"E cada país tem um conjunto muito diferente de políticas nessa área. Europa e partes da América Latina têm abordagens diferentes dos Estados Unidos.">
Defensores da liberdade de expressão absoluta e conservadores, porém, viram nas medidas anunciadas por Zuckerberg uma resposta às demandas por mais imparcialidade na moderação das redes sociais.>
A Fundação para os Direitos Individuais e Expressão (FIRE) - uma organização conservadora e sem fins lucrativos dos Estados Unidos dedicada à defesa da liberdade de expressão - afirmou que os usuários do Facebook e do Instagram "querem uma plataforma de mídia social que não suprima conteúdo político" ou use um sistema de checagem de informações que siga apenas decisões tomadas pela liderança da empresa.>
"A empresa [Meta] admite que suas práticas de moderação anteriores introduziram viés e não funcionaram, notando uma taxa de erro provável de 10% a 20% no conteúdo que remove. Essas mudanças devem resultar em decisões de moderação menos arbitrárias e discurso mais livre nas plataformas da Meta", disse a fundação em nota.>
Elon Musk, dono do X, também aprovou as mudanças anunciadas pela Meta. "Legal", reagiu em sua rede social.>
Já a CEO do X, Linda Yaccarino, afirmou que o sistema de "notas da comunidade" usado pela plataforma tem sido "profundamente bem-sucedido ao manter a liberdade de expressão sagrada".>
"É uma jogada inteligente do Zuck e algo que espero que outras plataformas sigam, agora que o X mostrou o quão poderoso ela é. Bravo!", escreveu no X, se referindo ao presidente-executivo da Meta.>
Em editorial nesta quarta-feira (8/1), o jornal Wall Street Journal também elogiou a decisão de Zuckerberg.>
"Um resultado da vitória de Donald Trump é que os CEOs das empresas estão repensando sua obediência à esquerda democrata. O exemplo mais recente é a decisão bem-vinda da Meta esta semana de abandonar seu regime de censura", afirma o jornal no editorial intitulado "O mea culpa sobre liberdade de expressão de Mark Zuckerberg".>
O Wall Street Journal afirma que, nos últimos anos, a Meta adotou políticas de checagem de informação para agradar políticos democratas.>
"Essas mudanças podem ser motivadas em parte pelo desejo da Meta de reparar a relação com os republicanos que em breve controlarão Washington e evitar mais regulamentação [das Big Techs]. Mas Zuckerberg sem dúvida também está respondendo à mensagem que os eleitores enviaram ao eleger Trump: interrompam o imperialismo progressista", diz o editorial.>
"Alguns conservadores pediram maior regulamentação das plataformas de mídia social sob a justificativa de que elas são praças públicas de fato. Mas Musk e Zuckerberg estão mostrando como os mercados, incluindo os mercados políticos, estão resolvendo o problema da censura. Mais controle do discurso do governo tornaria isso pior.">
Mas muitos também criticaram a medida e demonstraram preocupação com as suas consequências para a segurança do ambiente online e a disseminação de desinformação.>
"Alegar evitar a 'censura' é uma manobra política para evitar assumir a responsabilidade pelo ódio e pela desinformação que as plataformas encorajam e facilitam", disse Ava Lee, do Global Witness.>
A Fundação Molly Rose, do Reino Unido, descreveu o anúncio como uma "grande preocupação com a segurança online".>
"Estamos esclarecendo urgentemente o âmbito dessas medidas, incluindo se elas se aplicarão ao suicídio, à automutilação e ao conteúdo depressivo", disse o seu presidente, Ian Russell.>
"Essas medidas podem ter consequências terríveis para muitas crianças e jovens.">
A organização de checagem de fatos Full Fact — que participa do programa do Facebook para verificação de publicações na Europa — afirmou ainda que "refuta as alegações de parcialidade" feitas pela empresa.>
O presidente-executivo do órgão, Chris Morris, descreveu a mudança como "decepcionante e um retrocesso que corre o risco de ter um efeito inibidor em todo o mundo".>
Vivian Schiller, da Aspen Digital, disse à BBC que é importante ressaltar que os checadores de informações independentes utilizados pela Meta "não são atores desonestos quaisquer", como as palavras de Zuckerberg fizeram parecer.>
"Eles incluem organizações de notícias sérias e muito legítimas, como Associated Press, ABC News, USA Today e muitas outras organizações de notícias nas quais milhões e milhões de pessoas confiam para obter informações confiáveis e baseadas em evidências", explica.>
Para Schiller, a checagem de fatos nem sempre funciona para dissuadir leitores e usuários das redes sociais em relação à desinformação que circula. >
"As pessoas não gostam de ouvir que estão erradas, mesmo quando são confrontadas com evidências", diz. >
"Mas não é isso que Zuckerberg está argumentando, o que ele está dizendo é que a checagem de fatos é parcial.">
"Os checadores cometem erros, mas eu rejeito a noção de que eles não têm qualquer compromisso com a verdade.">
No Brasil, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) disse estar preocupada com as consequências do anúncio da Meta.>
"A ação voluntária de usuários das redes não é capaz de substituir a checagem profissional de fatos, principalmente em um cenário em que a poluição do ambiente informativo provoca danos evidentes à democracia, especialmente com o avanço de ferramentas como a inteligência artificial", afirmou a organização em nota.>
O secretário de Políticas Digitais da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, João Brant, também criticou o fim da checagem profissional em um post no LinkedIn: "Significa um convite para o ativismo da extrema direita reforçar a utilização dessas redes como plataformas de sua ação política.">
"Facebook e Instagram vão se tornar plataformas que vão dar total peso à liberdade de expressão individual e deixar de proteger outros direitos individuais e coletivos", completou o integrante do governo Lula.>
Ele também comentou sobre o fato de Zuckerberg ter feito referência, no vídeo em que postou detalhando as medidas, a "cortes secretas" na América Latina. Para ele, o CEO da Meta fez tacitamente referência ao Supremo Tribunal Federal (STF).>
Em resposta às mudanças anunciadas, o Ministério Público Federal (MPF) também comunicou que irá cobrar explicações.>
O órgão quer compreender como será o impacto dessas alterações no Brasil e se elas estarão de acordo com a legislação nacional, segundo disse um representante do MPF ao jornal O Globo.>
*Com reportagem de Liv McMahon, Zoe Kleinman e Courtney Subramanian, da BBC News em Glasgow e Washington. >
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