Publicado em 4 de setembro de 2025 às 09:25
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse nesta quarta-feira (3/9) que as tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, às exportações brasileiras, refletem problemas do governo americano com questões internas do Brasil, incluindo as relações entre autoridades e o ex-presidente Jair Bolsonaro, e não um desequilíbrio na balança comercial ou uma reação à guerra na Ucrânia.>
Putin respondia perguntas de jornalistas em uma coletiva de imprensa durante sua viagem à China quando foi questionado sobre uma possível imposição de novas sanções pela Europa contra parceiros comerciais da Rússia. "Como podemos reagir a isso e quem, na sua opinião, sofrerá mais com isso?", perguntou o repórter.>
Em resposta, o líder russo disse que praticamente não discutiu o tópico com seus contrapartes chineses durante sua passagem por Pequim porque "francamente falando, isso realmente não nos diz respeito".>
"Este evento na Ucrânia é apenas um pretexto, sim, uma solução, para questões de natureza econômica em relação a vários países… laços econômicos com os quais alguém não está feliz", disse Putin, se referindo à guerra em território ucraniano.>
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O presidente russo então começa a falar das tarifas impostas pelos Estados Unidos a diversos países e afirma que, diferentemente da Índia, também alvo de uma sobretaxa de 50% de Washington, as sanções sobre o Brasil têm relação com "problemas na situação política doméstica".>
"Por exemplo, sim, há um desequilíbrio na balança comercial entre os EUA e a Índia. Mas não há um desequilíbrio nas relações comerciais entre Brasil e EUA", disse.>
"Em segundo lugar, a data [para o início das taxações] era 8 de agosto, e taxas adicionais foram impostas ao Brasil no dia 6 de agosto. O que a Ucrânia tem a ver com isso? Embora houvesse referências à Ucrânia, o que uma coisa tem a ver com a outra? Nada.">
Segundo Putin, a taxação às importações brasileiras pelos EUA tem relação com problemas de alinhamentos políticos internos, "inclusive relacionados à relação entre as autoridades americanas e o ex-presidente Bolsonaro".>
No início de julho, Trump anunciou a imposição de tarifas de 50% sobre produtos importados pelos EUA do Brasil e pediu o fim do julgamento de Jair Bolsonaro.>
O ex-presidente brasileiro é julgado atualmente pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por suposto envolvimento em uma trama golpista para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após as eleições de 2022.>
A medida americana foi comunicada ao governo brasileiro por meio de uma carta assinada por Trump e endereçada ao presidente Lula. Na mensagem, o republicano afirma que o "julgamento não deveria estar ocorrendo" e que é uma "caça às bruxas" contra Bolsonaro.>
Trump também citou como motivos para a imposição da tarifa elevada uma relação comercial "injusta" causada pelo protecionismo brasileiro e as decisões do STF que obrigaram plataformas de mídias sociais a bloquear usuários investigados ou acusados por cometer crimes como ameaça e apologia a golpe de Estado — segundo o líder americano, tais decisões seriam "ordens de censura secretas e ilegais".>
O governo brasileiro refuta a ideia de que as barreiras comerciais adotadas pelo Brasil contra os EUA estariam desequilibrando o comércio entre os dois países, já que a balança comercial tem sido favorável aos Estados Unidos. O lado americano acumulou saldo positivo de US$ 43 bilhões nos últimos dez anos, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.>
O presidente Lula também classificou as tarifa dos EUA como uma tentativa de interferência no Judiciário brasileiro. "O Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém", disse.>
Praticamente todos os parceiros comerciais americanos foram atingidos pelo tarifaço de Donald Trump. Mas Brasil e Índia são os únicos países que enfrentam uma sobretaxa de 50%.>
No caso indiano, os EUA justificaram a imposição de uma taxa maior com a compra petróleo pelo país da Rússia. O governo americano também chegou a ameaçar com "possível imposição de tarifas semelhantes a outros países que importam, direta ou indiretamente, petróleo da Federação Russa".>
Esse é o caso do Brasil: nos últimos quatro anos, 60% de todo o diesel importado pelo mercado brasileiro veio da Rússia, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC)>
A ameaça de Trump em relação à compra de combustível de Moscou, porém, foi feita após a entrada em vigor da tarifa de 50% contra o Brasil. O presidente americano também nunca relacionou diretamente a sobretaxação às importações brasileiras com os laços com a Rússia.>
Vladimir Putin foi à China nesta semana para participar de um desfile militar realizado em Pequim para marcar o 80º aniversário da vitória chinesa contra o Japão na Segunda Guerra Mundial.>
Outros líderes internacionais, como o norte-coreano Kim Jong Un, também participaram do evento. O Brasil foi representado pelo assessor especial da presidência para assuntos internacionais Celso Amorim. A ex-presidente Dilma Rousseff também estava presente, como presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), conhecido como Banco do Brics.>
Em sua passagem pela China, Putin também participou da reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês) e teve conversas com Xi Jinping.>
Havia grande expectativa entre a comunidade internacional de que o encontro entre Moscou e Pequim pudesse ser usado para discutir posições sobre a guerra na Ucrânia — o que explica os questionamentos feitos pela imprensa à Putin sobre negociações e discussões em torno de possíveis sanções contra parceiros comerciais russos.>
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