Publicado em 28 de março de 2026 às 06:34
Não se trata apenas do Estreito de Ormuz. Há um outro ponto estratégico no Oriente Médio — igualmente vital para os mercados globais de energia — que o Irã ameaça bloquear caso Donald Trump não ponha fim à guerra: o Estreito de Bab el-Mandeb.>
Situado entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia, no Mar Vermelho, o estreito controla o tráfego marítimo em direção ao Canal de Suez e transporta cerca de 12% do petróleo comercializado por via marítima no mundo.>
No último mês, a rota ganhou ainda mais importância ao se tornar uma alternativa para o escoamento de petróleo do Oriente Médio, diante do fechamento do Estreito de Ormuz.>
Na quinta-feira (26/3), a agência semioficial iraniana Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, informou que os houthis — grupo armado do Iêmen apoiado pelo Irã— estariam prontos para assumir o controle do estreito como parte do que chamam de "forças de resistência". >
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"Se houver necessidade de controlar o Estreito de Bab el-Mandeb para punir ainda mais o inimigo, os heróis do Ansar Allah do Iêmen estão totalmente preparados para desempenhar um papel fundamental", disse uma fonte militar iraniana à agência, acrescentando que os houthis já provaram que fechar a rota "é uma tarefa fácil para eles".>
No dia anterior, a mesma Tasnim já havia publicado uma advertência feita por uma fonte: "Se os americanos quiserem pensar em uma solução para o Estreito de Ormuz com medidas imprudentes, devem ter cuidado para não adicionar outro estreito aos seus problemas", disse a fonte, em referência à movimentação de tropas americanas na região. >
Neste sábado (28/03), os houthis lançaram um ataque com mísseis contra Israel pela primeira vez desde o início da guerra.>
Segundo o grupo, o objetivo era atingir "alvos militares israelenses sensíveis". Israel confirmou ter interceptado um míssil lançado do Iêmen.>
Antes mesmo do ataque deste sábado, o líder houthi Abdul Malik Al-Houthi já havia reforçado as ameaças sobre uma escalda, dizendo que o grupo responderia militarmente a ataques dos EUA e de Israel caso os desdobramentos da guerra exigissem, segundo noticiou a Bloomberg. >
À Reuters, um outro dirigente houthi, em anonimato, afirmou que eles estão "militarmente prontos" para atacar o Estreito de Bab el-Mandab em apoio a Teerã. >
"Estamos com todas as opções à nossa disposição. A decisão sobre o momento cabe à liderança, que acompanha os desdobramentos e definirá a hora certa de agir", declarou.>
Após as ameaças, os Estados Unidos emitiram um alerta sobre a possibilidade de ataques de houthis no Estreito de Bab el-Mandab.>
"Embora o grupo terrorista houthi não tenha atacado navios comerciais desde o acordo de cessar-fogo entre Israel e Gaza em outubro de 2025, os houthis continuam a representar uma ameaça aos ativos dos EUA, incluindo embarcações comerciais, nesta região", disse um aviso publicado pela Administração Marítima do Departamento de Transportes dos EUA na quinta-feira.>
Em outros momentos, como durante a Guerra em Gaza, o Estreito de Bab el-Mandeb já foi alvo dos houthis, que bloquearam a rota atacando navios, usando drones e mísseis.>
Mas um eventual bloqueio da passagem hoje agravaria a crise no mercado de energia, já pressionado pela situação no Estreito de Ormuz. >
Ormuz se tornou um dos epicentros da guerra. A rota, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo, está fechada, dificultando a passagem de navios na região.>
A interrupção do transporte marítimo no Golfo fez os preços do petróleo Brent saltarem de cerca de US$ 70 (cerca de R$ 350) por barril antes do início da crise para mais de US$ 100 (aproximadamente R$ 500).>
O comércio global de uma ampla gama de produtos — de bens de consumo a matérias-primas agrícolas — também está sendo afetado.>
Por isso, a interrupção de mais uma rota marítima poderia elevar ainda mais os preços e intensificar o impacto econômico do conflito com o Irã.>
Não é por acaso que Bab el-Mandeb significa "o portão das lágrimas" ou "o portão da dor" em árabe.>
É uma referência aos perigos — desde correntes e ventos à pirataria e conflitos — que durante milênios perturbaram os marinheiros que transitavam pela entrada do Mar Vermelho vindos do Oceano Índico entre o Iêmen, o Djibuti e a Eritreia.>
Alguns desses perigos permanecem até hoje.>
Entre 2023 e 2025, navios comerciais de diversos países foram atacados no estreito pelo grupo houthi no Iêmen em resposta à guerra de Israel contra o Hamas em Gaza. Os ataques forçaram muitas empresas a desviar rotas pelo sul da África e só cessaram após um cessar-fogo mediado pelos EUA entre Israel e o Hamas em outubro de 2025.>
Com 115 km de extensão e 36 km de largura, o Estreito de Bab el-Mandeb está em uma posição estratégica: ele liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden — e, por extensão, ao Oceano Índico.>
Esta extensão de água ocupa um espaço fundamental no comércio, na cultura e também nos conflitos durante grande parte da história da civilização humana.>
Seu valor comercial foi reconhecido desde o antigo Egito com expedições em busca de bens preciosos como incenso, ouro e animais exóticos, enquanto os romanos dependiam desta passagem para o comércio com a Índia e o Oriente.>
E a partir da Idade Média, o Estreito de Mandeb consolidou-se como uma importante rota comercial de especiarias, têxteis e outros produtos, enriquecendo os impérios da época e posteriormente potências europeias como Portugal, Espanha e mais tarde o Império Britânico.>
No entanto, foi a abertura do Canal de Suez em 1869 que fez de Bab el-Mandeb um local essencial para completar a rota marítima mais curta entre a Europa e a Ásia.>
O corredor do Mar Vermelho é um dos mais movimentados do mundo, transportando aproximadamente um quarto de todo o comércio marítimo do planeta.>
Entre os bilhões de toneladas de carga que atravessam esta rota, passam diariamente cerca de 4,5 milhões de barris de petróleo com origem em países do Médio Oriente e da Ásia e com destino ao Ocidente, segundo a Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos.>
Além disso, remessas globais de gás natural liquefeito (GNL) transitam por este estreito, tornando-o uma artéria vital para o fornecimento global de energia.>
Desde o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, a rota ganhou ainda mais importância. >
A Arábia Saudita passou a usar Bab el-Mandeb como passagem para o escoamento do petróleo saudita proveniente do porto de Yanbu. Riade envia milhões de barris de petróleo bruto por dia de seus campos orientais para lá através de um oleoduto.>
Pelo estreito também passa parte significativa das exportações russas de petróleo com destino à Ásia.>
Além do petróleo bruto e do gás, o Estreito de el-Mandeb faz parte da principal rota entre o Oriente e o Ocidente, com várias dezenas de navios de carga passando pelas suas águas todos os dias.>
Por isso, caso a Irã bloqueie a via, isso pode ter efeitos imediatos nos preços mundiais destes recursos vitais.>
Essa, contudo, não seria a primeira vez que um incidente nesta área afetaria o tráfego marítimo, gerando implicações importantes para o comércio mundial.>
Por exemplo, em 2021, o navio cargueiro Ever Given, com bandeira do Panamá, encalhou no Canal de Suez, causando um bloqueio no corredor e criando estrangulamentos nas cadeias de abastecimento globais, com aumento de custos e atrasos na entrega de petróleo e produtos de todos os tipos.>
Anteriormente, especialmente entre 2008 e 2012, o Estreito de Mandeb e seus arredores foram palco de numerosos ataques de piratas, principalmente da Somália, que sequestraram a tripulação dos navios para exigir dinheiro em troca da sua libertação, o que já levou a comunidade internacional, bem como as companhias marítimas, a reforçar a segurança.>
Mais de uma década depois, a principal ameaça no estreito veio do extremo oposto, com ataques dos rebeldes houthis.>
Após a invasão israelense de Gaza, em outubro de 2023, os houthis passaram a atacar embarcações no Mar Vermelho e no Golfo de Aden, alegando solidariedade ao povo palestino e com o objetivo de pressionar Israel a aceitar um cessar-fogo. >
De novembro de 2023 a janeiro de 2024, o grupo, sozinho, atacou mais de 100 navios comerciais com mísseis e drones, afundando duas embarcações e matando quatro marinheiros. >
Embora os houthis alegassem mirar apenas navios com vínculos israelenses, os ataques foram amplamente descritos como indiscriminados, forçando algumas das maiores companhias marítimas e petrolíferas do mundo a suspender o trânsito pela rota. >
No final de 2025, os incidentes praticamente cessaram em meio às negociações para o cessar-fogo entre Israel e o Hamas em Gaza — embora os houthis jamais tenham anunciado formalmente uma paralisação ou suspensão das operações.>
Agora, com a guerra entre EUA, Israel e Irã, o grupo volta a ameaçar fechar o estreito — desta vez em um contexto ainda mais preocupante. >
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