Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 11:11
A estabilidade de um trabalho concursado e o prestígio de uma carreira acadêmica consolidada e internacional não foram suficientes para manter o veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca no cargo de professor e pesquisador na Universidade de São Paulo (USP).>
A distância entre a teoria científica e a realidade do desmatamento da Amazônia era tão incômoda que ele decidiu, em 2002, pedir demissão do cargo.>
Fonseca tinha 35 anos quando se mudou com a esposa e um filho de apenas seis meses para Alta Floresta, uma pequena cidade no interior do Mato Grosso, na linha de frente do desmatamento.>
Hoje com 58 anos e de volta a São Paulo (SP), Fonseca lembra daquele momento como uma "guinada radical" em sua vida.>
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"Minha leitura era de que precisaríamos desenvolver negócios que estivessem associados à conservação florestal. Se não conseguíssemos gerar bons negócios que valorizassem a floresta em pé, seria difícil reduzir drasticamente o desmatamento", lembra Fonseca.>
A imersão na Amazônia durou seis anos, período em que seu segundo filho nasceu e em que ele trabalhou diretamente com comunidades na extração da castanha-do-pará na sua primeira empresa na região, a Ouro Verde.>
Embora o negócio da castanha tenha dado certo, Fonseca percebeu que o efeito, em escala macro, ainda era pequeno diante da magnitude da destruição florestal.>
Então, ele fundou a Kaeté Investimentos, uma gestora focada em mobilizar fundos para negócios de impacto na região amazônica.>
Em 2019, criou a Caaporã, uma holding (empresa que controla a participação em várias companhias) que hoje administra 20 mil hectares em seis fazendas no Mato Grosso, Tocantins e Bahia.>
Fonseca retornou à capital paulista para ser coordenador do Programa de Agricultura e Meio Ambiente da ONG WWF-Brasil e hoje trabalha viajando entre o escritório da sua holding em Piracicaba (SP) e as fazendas que administra.>
Nascido em São Borja (RS), o veterinário tem doutorado em Reprodução Animal e pós-doutorado pela University of Kentucky (EUA)>
Com a Caaporã, ele tem experimentado formas de tornar a produção de carne bovina mais sustentável.>
Seu método começa com a recuperação de pastagens degradadas, áreas que já foram desmatadas e perderam sua fertilidade.>
Nessas pastagens, o capim é pobre em nutrientes. Assim, o gado demora mais para engordar, permanecendo no pasto por cerca de quatro anos antes do abate.>
Com a recuperação do solo preconizada por Fonseca, árvores são plantadas e o capim é misturado com leguminosas, como o amendoim forrageiro.>
Essas plantas têm a capacidade natural de fixar nitrogênio da atmosfera na terra. Isso reduz a dependência de fertilizantes químicos nitrogenados (como a ureia), cuja produção e aplicação também emitem gases de efeito estufa.>
Além de reduzir a dependência do Brasil de ureia da Rússia, o pasto adubado é uma alternativa mais saudável e sustenta mais gado por metro quadrado.>
Com o plantio de árvores, a sombra destas reduz o estresse térmico do gado no calor tropical, o que também contribui para que o animal ganhe peso mais rápido — diferente do gado exposto ao sol escaldante.>
O grupo utiliza espécies de árvores exóticas, como o eucalipto; e nativas, como o paricá, madeira amazônica destinada à indústria de móveis.>
Com as melhoras no solo e na alimentação, o gado atinge o peso de abate em cerca de dois anos — a metade do tempo convencional.>
Menos tempo de vida significa, matematicamente, menos tempo emitindo metano na atmosfera.>
Na produção de gado, esse gás poluente é gerado com a chamada fermentação entérica — o processo digestivo dos bois que transforma capim em gás.>
"Se você tem um boi que engorda com quatro anos, ele fica quatro anos literalmente arrotando metano", resume Fonseca.>
O Brasil é o quinto maior emissor de metano (CH4) do mundo, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), e o agronegócio respondeu por 75,6% dessas emissões em 2023 — sendo que 98% delas vieram da pecuária.>
O país tem o segundo maior rebanho bovino do mundo e lidera as exportações, mas essa liderança tem um custo territorial.>
Dados do MapBiomas indicam que a área dedicada à pastagem foi o uso da terra que mais se expandiu na Amazônia entre 1985 e 2023: um aumento de mais de 363%, saltando de 12,7 milhões de hectares para 59 milhões, equivalente ao território da Espanha.>
O cenário encontrado por Fonseca na Amazônia é dominado pelo que se chama de pecuária extensiva.>
Neste modelo tradicional, o gado é criado solto em grandes áreas de pasto, com baixo investimento em tecnologia ou manejo do solo. Esse é um dos motivos pelos quais a produtividade da pecuária na Amazônia é baixa (0,73 animal por hectare) e pressiona pelo desmatamento, de forma a manter ou aumentar a produção.>
Já a pecuária intensiva, abordagem adotada por Fonseca e sua empresa, ocupa áreas menores, busca alto rendimento produtivo e maiores investimentos em tecnologia e conhecimento técnico — um custo do qual os produtores tradicionais querem fugir.>
Nesse modelo, os animais são confinados e alimentados com dietas controladas para acompanhar sua saúde e crescimento, que é mais rápido.>
"Se replico em larga escala, esse modelo intensivo permitiria liberar milhões de hectares de pastagens de baixa produtividade", defende o veterinário.>
Essas áreas ociosas poderiam ser destinadas ao restauro florestal, ajudando o Brasil a cumprir sua meta de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa, um compromisso assumido no Acordo de Paris que, segundo dados atuais do SEEG, está longe de ser atingido.>
Segundo ele, a abordagem reduz significativamente a pegada de carbono: enquanto cada quilo da carcaça no método tradicional emite cerca de 35 kg de CO2, no método da Caaporã, a emissão é de cerca de 20 kg — uma redução superior a 40%.>
O trabalho de Fonseca é acompanhado há duas décadas por acadêmicos como André Pereira de Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces/FGV).>
"O negócio do Luiz trabalha dentro de um campo da agricultura regenerativa: produz um alimento que contribui para a segurança alimentar e, ao mesmo tempo, tem uma contribuição com serviços ambientais", diz Carvalho, apontando para os impactos positivos do método na biodiversidade e na preservação da água, além da redução da emissão de poluentes.>
Silvia Ferraz Nogueira De Tommaso, professora no doutorado profissional em Gestão de Negócios da faculdade FIA Business School, destaca a visão sistêmica do projeto.>
"De um lado, temos a pecuária como vilã do desmatamento; do outro, como um setor que traz riqueza. Se quisermos resolver o problema pensando unicamente em eliminar a pecuária, criaremos um problema social e econômico", avalia a professora.>
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Para Fonseca, não é realista esperar que o mundo pare de comer carne.>
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) projetam um aumento de 10% no consumo mundial de carne bovina até 2033.>
"O mundo irá consumir muito mais carne na próxima década. Isso é um fato. Alguém vai ter que suprir essa carne", afirma o empresário, para quem essa demanda, nos moldes atuais de produção, pode ser um desastre para a Amazônia.>
Ao mesmo tempo, o cientista é cético com alternativas como a criação de carne de laboratório, cultivada a partir de células.>
"No curto prazo, nos próximos 10 anos, não temos sinalização de que essas carnes vão ocupar espaço significativo", avalia, citando o alto custo desses experimentos e o tempo demandado para que o consumidor se adapte a esse novo tipo de produto.>
Para Fonseca, se a demanda por carne bovina existe e a tecnologia celular ainda é distante, a única saída imediata é transformar o modo como o boi é criado hoje.>
Mas o veterinário reconhece que há muitos obstáculos estruturais para isso.>
Um deles é o acesso ao conhecimento: o método que ele propõe exige uma gestão técnica apurada, muito diferente de apenas "soltar o boi no pasto".>
Além disso, recuperar o solo degradado custa caro. Para isso, linhas de crédito voltadas para a agricultura mais sustentável poderiam ser úteis, mas Fonseca diz que o acesso a elas no Brasil é burocrático e limitado.>
Outro obstáculo, talvez o mais difícil, é o cultural.>
"O produtor fala: 'Eu sei fazer? Sei. Dinheiro eu tenho? Tenho. Mas não quero fazer'", diz Fonseca sobre a resistência em abandonar o modelo extensivo.>
O empresário aposta no incentivo econômico.>
Como o mercado de carne ainda paga praticamente o mesmo valor por um boi "verde" ou um convencional, Fonseca tem estudado fechar a conta através da venda de créditos de carbono.>
Sua empresa está desenvolvendo uma metodologia própria junto à Verra, maior certificadora global deste tipo de mercado.>
Enquanto isso, a Minerva Foods, uma das maiores exportadoras de carne do país, já compra parte da produção da Caaporã e informa que tem buscado promover essas práticas de pecuária regenerativa entre seus fornecedores.>
"Esse tipo de manejo está totalmente alinhado à estratégia da empresa para uma pecuária de baixa emissão de carbono", afirma Marta Giannichi, diretora global de Sustentabilidade da Minerva, ressaltando que o modelo prova ser economicamente viável e replicável.>
"Esses modelos ajudam a restaurar o solo, conservar a biodiversidade e aumentar a eficiência produtiva", comenta a executiva sobre a tendência que, segundo ela, vem crescendo não só na Amazônia, mas em outros biomas.>
Durante a COP30, cúpula ambiental realizada no ano passado em Belém do Pará, as tensões e incógnitas em torno da pecuária ficaram evidentes.>
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) organizaram a Agrizone, um pavilhão a menos de 2 km da Blue Zone (onde aconteciam as negociações sobre o clima) patrocinado por grandes empresas e entidades de classe, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Nestlé e Bayer.>
O pavilhão foi alvo de protestos de ativistas que não têm simpatia por um setor apontado por dados como um dos principais responsáveis pelo avanço do desmatamento na Amazônia.>
Na Agrizone, a Embrapa e algumas das maiores produtoras de carne do Brasil apresentaram propostas de baixo carbono — sinalizando um movimento crescente, mas ainda incipiente, em busca de alternativas inovadoras, mais sustentáveis e produtivas.>
Mas a falta de controle dos supermercados sobre dados de desmatamento na cadeia de produção é um dos elos frágeis dessa indústria que alimenta a desconfiança dos consumidores.>
O aplicativo Do Pasto ao Prato, iniciativa de organizações internacionais e financiada pelo governo da Noruega, mostra que cerca 40% do rebanho bovino brasileiro é criado na Amazônia. Três quartos (76%) dessa carne é destinada ao mercado interno.>
Segundo o portal, apesar dos compromissos públicos de sustentabilidade dos principais frigoríficos, só 54% da carne bovina proveniente da Amazônia e vendida no Brasil tem em sua produção um desempenho de sustentabilidade adequado — o resto viria de práticas de produção ilegais.>
No caso das exportações, 80% do volume cumpre adequadamente protocolos contra o desmatamento, em função da maior cobrança disso por compradores estrangeiros, especialmente da União Europeia.>
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