Publicado em 18 de março de 2026 às 17:36
Em certas ocasiões, os eventos que se desenrolam à nossa volta podem nos sufocar.>
Seja o ciclo sem fim de más notícias e as intensas mudanças que estão ocorrendo no mundo, uma tragédia familiar ou a pressão diária para sobreviver, a incerteza decorrente desses momentos pode nos deixar estressados e ansiosos.>
Para ajudar a atravessar essas fases, a equipe de jornalistas de ciências da BBC buscou algumas das dicas que aprendemos nos últimos anos para enfrentar as adversidades.>
Aqui estão nove formas de encontrar calma e resiliência em meio às turbulências, desde passar a se preocupar de forma construtiva até assistir a filmes de terror.>
>
As palavras que você fala podem ter influência poderosa sobre sua vida interior.>
Diversos estudos concluíram que usar termos mais precisos para descrever sentimentos pode nos ajudar a enfrentar a vida.>
Em vez de dizer simplesmente que você está "estressado", por exemplo, tente identificar frustração, ansiedade, preocupação ou desespero existencial.>
Esta capacidade de diferenciar sentimentos distintos é conhecida como "granularidade das emoções" e pode trazer benefícios para a saúde física e mental.>
Cientistas acreditam que podemos nos beneficiar até aprendendo como outras culturas identificam seus sentimentos, muitos sem tradução específica. Um exemplo é o conceito finlandês de sisu, que é uma espécie de "determinação extraordinária frente às adversidades".>
"Você pode pensar nas palavras e conceitos associados como ferramentas para a vida", segundo a neurocientista Lisa Feldman Barrett, da Universidade Northeastern em Boston, nos Estados Unidos.>
Leia mais sobre as emoções "intraduzíveis" que você nunca soube que sentia nesta reportagem de David Robson.>
A palavra "ansiedade" tem origem nas antigas palavras em latim e grego para "sufocado" e "inquieto". E qualquer pessoa que já tenha sofrido um ataque de ansiedade pode facilmente concluir por quê.>
Por isso, pode parecer inoportuno pensar que esta pode ser uma experiência benéfica. Mas é exatamente o que as pesquisas parecem indicar.>
Quando não atingimos o estado extremo e debilitador que acompanha os transtornos de ansiedade (reconhecidos como condições de saúde mental), esta emoção pode servir de fonte de motivação, ativando nossos impulsos em busca de recompensas e conexão social.>
Quando estamos ansiosos, somos mais criativos e inovadores. O nosso cérebro reage com mais concentração e eficiência e pode nos deixar mais produtivos.>
Que tal explorar este lado positivo da ansiedade? Para isso, é necessária uma mudança de mentalidade.>
As emoções "negativas", muitas vezes, são reações naturais a eventos difíceis e as pessoas que conseguem encontrar significado no complexo espectro das sensações humanas costumam ter melhor saúde mental.>
Em vez de considerar a ansiedade como um sinal de alerta que precisa ser eliminado, tente observá-la comunicando informações importantes e como um meio de preparação.>
As pessoas que aprendem a pensar na ansiedade como um sinal de que estão prontas para enfrentar um desafio, em vez de um chamado de emergência, apresentam melhor desempenho sob pressão.>
Algumas técnicas para ajudar a transformar a ansiedade em uma força positiva incluem abordar a sua fonte com curiosidade e empregá-la para atingir objetivos úteis.>
Os atores, por exemplo, usam esta técnica para ajudá-los a lidar com os nervos. E pesquisas também indicam que ela pode ajudar em exames difíceis ou ao falar em público.>
A longo prazo, ela também pode reduzir o risco de burnout.>
Leia mais sobre as formas surpreendentes em que a ansiedade pode nos ajudar nesta reportagem de Tracy Dennis-Tiwary e descubra o lado positivo das nossas emoções negativas nesta reportagem de David Robson.>
Como as nossas preocupações tendem a se fixar no futuro, não no passado, elas também podem ser usadas para concentrar nossa atenção na preparação e na solução de problemas. E também podem nos motivar a entrar em ação.>
Pesquisas demonstram que as preocupações podem nos ajudar com tudo, desde nos preparar para enfrentar incêndios florestais até tentar parar de fumar.>
E, quando o objeto da preocupação é algo sobre o que não se possa fazer muito, compreender esta falta de opções pode nos ajudar a aliviá-la.>
Segundo a psicóloga de saúde Kate Sweeny, da Universidade da Califórnia em Riverside, nos Estados Unidos, um bom processo de canalização e redirecionamento das preocupações, se necessário, é este:>
Leia mais sobre como canalizar a preocupação pode ajudar a tomar ações efetivas e reduzir o estresse nesta reportagem de Christine Ro.>
O livro certo pode mudar sua vida para melhor.>
Quando abrimos suas páginas, ele pode levar você para um lugar totalmente diferente — para outros países ou até mesmo para outros mundos.>
As pessoas que leem por prazer regularmente tendem a ser menos estressadas, deprimidas e solitárias. Elas também são mais confiantes e socialmente conectadas, segundo pesquisas.>
A prática cada vez maior da "biblioterapia" envolve a recomendação personalizada de livros, de acordo com o humor ou as preocupações de saúde mental de cada pessoa.>
Seu objetivo é "ajudar a amenizar, restaurar e revigorar as mentes preocupadas — e pode auxiliar na liberação do estresse e da ansiedade", segundo um estudo sobre o tema.>
Mas o livro não é uma panaceia. Ele costuma funcionar melhor em conjunto com outras terapias, segundo os profissionais.>
E também é importante escolher a obra cuidadosamente, pois ler o livro errado, no momento errado, pode acabar fazendo você se sentir pior.>
Se você não tiver tempo de abrir um livro, tente tocar uma das suas canções favoritas. A música tem a capacidade de afastar as emoções e pode trazer impacto instantâneo sobre o humor.>
Também aqui, tenha cuidado, pois o tipo certo de música pode fazer você se sentir melhor, mas a canção errada pode até levar você a cometer más ações. Procure o que funciona para você.>
Já se demonstrou que selecionar cuidadosamente o seu ambiente, se rodear de plantas ou mesmo imagens de espaços verdes e observar fotos de entes queridos faz diferença para o nosso estado mental.>
Leia mais sobre como controlar as emoções nesta reportagem de David Robson e saiba mais sobre os benefícios e armadilhas da biblioterapia nesta reportagem de Katya Zimmer.>
Sustos repentinos, zumbis pálidos e figuras fantasmagóricas se espreitando nas sombras podem não parecer o antídoto certo quando você já se sente à beira do precipício.>
Mas um filme de terror pode ser "um bálsamo para suas preocupações". >
Assistir a um filme assustador na segurança do sofá serve como um tipo de brincadeira. É uma forma de explorar situações perigosas, nos preparando mentalmente para ameaças que poderemos encontrar no mundo real.>
Pesquisas indicam que os fãs de histórias de terror se dão melhor em tempos difíceis e vivenciam menos ansiedade no seu dia a dia.>
Por isso, quer você goste da agitação de um terror de arrepiar a espinha ou prefira se esconder atrás de uma almofada, lembre-se de que este tipo de filme é um exercício para a parte do seu cérebro que controla a tensão em tempos estressantes.>
Leia mais sobre como os filmes de terror podem reduzir sua ansiedade nesta reportagem de David Robson.>
Alguns dos melhores conselhos se tornam tão comuns que se acabam se transformando em frases até desgastadas. "Conte suas bênçãos" é uma delas.>
Você também pode pensar em "três coisas boas" ou "lista de gratidão", mas o conceito é o mesmo: reservar um momento à noite para escrever três coisas boas que aconteceram com você ao longo do dia.>
É uma medida pequena, mas positiva, que pode trazer efeitos poderosos. E a ciência apoia esta recomendação.>
Um estudo de 2005 demonstrou que pessoas que escrevem as listas de três coisas boas demonstraram sinais de maior felicidade e menos episódios depressivos depois de apenas um mês. Estes efeitos positivos duraram por todo o período do estudo, que durou seis meses.>
Já o grupo placebo, que teve medida apenas a sua felicidade, observou um pequeno pico dos níveis de felicidade, que não durou muito.>
Estas listas não precisam nem mesmo ser eventos revolucionários, como uma promoção ou a aprovação em um exame. Poderá ser algo do dia a dia, como encontrar um bom amigo.>
Leia mais sobre como este simples exercício pode ser poderoso para melhorar seu humor nesta reportagem de Claudia Hammond.>
Quando vivemos em tempos incertos, podemos recorrer a filósofos antigos em busca de conselhos, que ainda parecem úteis e relevantes hoje em dia.>
Epicteto (c.55-135) viveu uma vida de adversidade e vivenciou perturbações políticas. Estas experiências moldaram seus ensinamentos posteriores, na escola filosófica do estoicismo.>
Ele afirmava que nossa principal tarefa na vida é diferenciar o que podemos controlar (nossos pensamentos, escolhas e ações) e que não podemos.>
Os estoicos defendiam que grande parte das nossas angústias vem de resistir ao inevitável ou depositar nossa esperança em resultados que nunca estão totalmente ao nosso controle.>
Epicteto aconselhava a praticar esta distinção, mesmo com as coisas pequenas. Assim, estaríamos mais preparados quando vivenciássemos turbulência nas nossas vidas.>
Também vale apenas relembrar que ele teria dito que "não são os eventos que perturbam as pessoas, mas os seus julgamentos em torno deles".>
Se reconhecermos que as mudanças e adversidades são esperadas e pudermos aprender de cada evento difícil que vivenciarmos (como uma guerra, pandemia e dificuldades financeiras ou de saúde), ficaremos mais fortes.>
Leia o nosso guia da Antiguidade para tempos de turbulência nesta reportagem de Amanda Ruggeri.>
Especialistas acreditam que manter a esperança de que tudo irá melhorar oferece às pessoas desculpas para se refugiar das incertezas e temores à sua volta sem fazer nada a respeito.>
Mas, depois de pesquisar sobre a esperança frente ao aquecimento global, o jornalista da BBC Diego Arguedas Ortiz concluiu que é importante descobrir o tipo certo de esperança.>
Em vez de depositar nossas esperanças nos outros ou esperar por notícias positivas, a esperança é mais eficaz quando estiver relacionada às nossas ações, isoladamente e ao lado dos demais.>
"A esperança é uma forma de enfrentamento com base no significado", segundo a psicóloga Maria Ojala, da Universidade de Örebro, na Suécia. Ela pode ajudar as pessoas a encontrar sentido nas dificuldades do mundo e oferecer um caminho adiante.>
De fato, os psicólogos acreditam que a esperança surja de objetivos pessoais determinados e da jornada para atingi-los.>
Conheça 10 formas de colaborar com o combate ao aquecimento global nesta reportagem de Diego Arguedas Ortiz e saiba mais sobre como usar a esperança para arregaçar as mangas neste link (em inglês).>
Os tempos sombrios não afetam apenas a nós. Eles podem também trazer impactos para os nossos entes queridos, principalmente as crianças.>
Pesquisas demonstram que pode ser difícil conversar com as crianças sobre experiências traumáticas e a forma como falamos pode fazer enorme diferença para o seu bem-estar.>
A forma como os responsáveis falam com suas crianças pode até mesmo definir suas lembranças e seu comportamento, o que poderá ajudá-los a planejar mais suas ações, sem descontar suas frustrações nos demais.>
Um estudo concluiu que os pais que fizeram mais perguntas sobre a experiência dos seus filhos durante suas conversas ajudaram a melhorar a atenção e o autocontrole das crianças. >
Explorar sentimentos difíceis parece particularmente poderoso, ajudando as crianças a aprender a compreender e regular suas emoções.>
Este processo é conhecido como "coaching emocional". Ele envolve a identificação e avalidação de sentimentos, discussões abertas e orientação das crianças rumo a estratégias saudáveis de enfrentamento.>
Este mesmo processo ajudou a amortecer os efeitos do estresse durante a pandemia.>
Reconhecer o que a criança atravessou também é importante e poderá ajudá-la a lidar melhor com tempos estressantes e oferecer habilidades emocionais mais amplas.>
Saiba mais sobre como ajudar as crianças a lidar com traumas nesta reportagem de David Robson.>
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Health.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta