Publicado em 2 de outubro de 2023 às 08:17
O Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2023 foi dado aos cientistas Katalin Karikó e Drew Weissman.>
Segundo o comitê organizador, a premiação tem a ver com as "descobertas relacionadas às modificações nas bases nucleotídicas que permitiram o desenvolvimento das vacinas de mRNA contra a covid-19".>
Karikó nasceu na Hungria em 1955 e se especializou em bioquímica. Ela trabalha na farmacêutica BioNTech e é professora da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.>
Weissman também atua na Universidade da Pensilvânia. Natural dos EUA, ele estudou imunologia e microbiologia durante a formação.>
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Entenda a seguir como o trabalho de pesquisa deles serviu de base para as vacinas de mRNA, que fizeram a estreia mundial durante a pandemia de covid-19.>
Com exceção de óvulos e espermatozoides, todas as células do nosso corpo carregam dentro do núcleo o genoma completo, o DNA.>
Nesse conjunto de cromossomos, estão "escritas" muitas das informações que definem os processos orgânicos, as características físicas e a propensão a determinadas doenças de cada um de nós.>
Mas o DNA sozinho não faz nada: quando ele precisa enviar algum comando à célula, essa fita em dupla hélice gera uma cópia simples de determinado trecho do código genético.>
Esse "xerox" genético vem numa fita simples e é o que conhecemos como RNA mensageiro, ou mRNA.>
Esse material então sai do núcleo e viaja até os ribossomos, no citoplasma da célula. Essa estrutura lê a "receita" genética do mRNA e fabrica uma proteína específica relacionada àquele comando escrito no DNA.>
Desde que esse mecanismo foi conhecido, a partir dos anos 1960, os cientistas começaram a se perguntar: será que é possível aproveitar essas "mini-impressoras" que carregamos dentro das células para produzir proteínas específicas?>
O objetivo era que essas proteínas tivessem algum fim terapêutico, e pudessem servir para gerar uma resposta do sistema imunológico — o que permitiria combater o crescimento de um tumor ou a invasão de um vírus mortal, por exemplo.>
Mas é claro que a ideia não funcionou logo de cara. A principal barreira a ser superada tinha a ver com o fato de o mRNA ser uma molécula muito frágil — como se trata apenas de uma mensageira, ela logo se degrada no organismo.>
Nos primeiros experimentos, os mRNAs sintetizados em laboratório sequer conseguiam chegar perto das células. Eles estragavam pelo caminho, antes de cumprir a missão para o qual foram projetados.>
Além disso, esses compostos se mostraram altamente inflamatórios. Eles geraram uma reação imunológica forte, que colocava em risco o próprio uso desse princípio na medicina.>
Essas dificuldades foram superadas graças a dois trabalhos distintos. O primeiro deles, comandado pelo justamente médico americano Drew Weissman e pela bioquímica húngara Katalin Karikó, descobriu que algumas modificações básicas na estrutura do mRNA poderiam deixá-lo menos inflamatório.>
Esse esforço, aliás, rendeu à dupla o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2023.>
O segundo, que envolveu vários grupos de pesquisa, como o comandado pelo bioquímico canadense Pieter Cullis, descobriu que "embrulhar" a fita de mRNA numa nanopartícula de lipídios (ou gordura) é uma forma eficaz de protegê-lo da degradação. Assim, essa molécula pode ser injetada, viajar pelo organismo e chegar às células onde cumprirá a função para a qual foi projetada.>
"Com essas modificações, a ciência estava diante de uma ferramenta potente e poderosa", disse o biomédico Joel Rurik, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, numa entrevista à BBC News Brasil em maio de 2023.>
"Trabalhar com o mRNA é algo relativamente simples e rápido. Basta fazer o download da sequência genética no computador e pedir para uma bioimpressora imprimir este material. Você consegue produzir toneladas dele sem a necessidade de usar uma única célula", complementou o cientista.>
"Falamos, portanto, de uma estratégia eficaz do ponto de vista dos custos, estável, com facilidade de distribuição e que pode ser usada de forma mais ampla ou fácil que muitas ferramentas terapêuticas ou de engenharia imunológica", resumiu.>
Ainda que os testes clínicos com as primeiras vacinas de mRNA tenham começado no início dos anos 2000, a comunidade científica esperava que as primeiras versões comercialmente disponíveis, aprovadas pelas agências regulatórias, só chegassem ao mercado em meados de 2025.>
Até que veio a covid-19 e tudo mudou. A emergência da pior pandemia em um século exigiu que muitos especialistas mudassem os planos e começassem a estudar um vírus absolutamente novo: o Sars-CoV-2.>
Assim que o sequenciamento genético do causador da covid foi concluído, ainda em janeiro de 2020, os grupos que já trabalhavam com imunizantes de mRNA para outros patógenos (como o vírus sincicial respiratório) direcionaram os esforços para o novo coronavírus.>
Em março daquele mesmo ano, os primeiros estudos clínicos dessas vacinas começaram a acontecer. Dez meses depois, em dezembro, a Food and Drug Administration (FDA), a agência regulatória dos EUA, aprovou os dois produtos com a tecnologia mRNA desenvolvidos e testados pelas farmacêuticas Moderna e Pfizer/BioNTech.>
Pouco depois, eles também foram liberados em outras partes do mundo — no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu sinal verde para o uso do imunizante da Pfizer em 23 de fevereiro de 2021.>
Essa foi a primeira vez na história que uma vacina de mRNA — baseada nos trabalhos pioneiros de Karikó e Weissman — chegou ao braço das pessoas fora do ambiente das pesquisas científicas.>
Ela se baseia naquele princípio explicado no início desta reportagem: cada dose do produto traz uma fita de RNA mensageiro (mRNA), que instrui as células do nosso próprio organismo a fabricar a proteína S (de Spike, ou espícula em português) presente na superfície do coronavírus.>
A partir daí, o sistema imunológico reconhece esse material e gera uma resposta, capaz de proteger caso o agente infeccioso de verdade tente invadir o corpo.>
Logo após a experiência com a covid-19, o próximo "passo natural" para o mRNA é que ele seja usado para desenvolver vacinas contra outras doenças infecciosas.>
Inclusive, laboratórios já estão realizando testes de imunizantes contra todos os tipos de coronavírus, o influenza, o zika, o chikungunya, a dengue, a malária, o HIV, entre outros.>
Segundo o ClinicalTrials.Gov, site que registra todos os testes clínicos em andamento nos Estados Unidos, existem cerca de 800 estudos do tipo em andamento que avaliam algum aspecto dessa plataforma tecnológica.>
Rurik classificou esse campo da ciência como "empolgante".>
"As vacinas de mRNA usadas contra a covid-19 lançaram um enorme holofote na área. Com isso, vieram os investimentos privados e os programas governamentais de incentivo", contextualizou.>
O próprio trabalho do biomédico é um exemplo disso. Nos últimos anos, ele investiga se o mRNA pode servir como uma ferramenta para que as células de defesa reconheçam e destruam fibroblastos "doentes" no coração.>
Os fibroblastos são um tipo de célula que forma a estrutura do músculo cardíaco. Quando essas unidades apresentam algum tipo de defeito, isso pode representar a origem de uma doença crônica (como a insuficiência cardíaca) ou aguda (como o infarto).>
"Treinar" as células imunológicas para identificar os fibroblastos defeituosos, portanto, pode se tornar, no futuro, um caminho para prevenir as condições que afetam o coração.>
Ainda no mundo da cardiologia, outros grupos trabalham com o mRNA como uma forma de baixar o LDL, o colesterol ruim. Essa molécula está diretamente relacionada com uma série de desfechos perigosos, como o próprio infarto e o Acidente Vascular Cerebral (AVC).>
Isso porque algumas pessoas possuem um gene que faz elas expressarem demais uma proteína chamada PCSK9, o que leva o colesterol às alturas. Inibir essa fabricação excessiva por meio do mRNA poderia ser um caminho para lidar de forma definitiva com esse fator de risco para tantas doenças cardiovasculares.>
Aos poucos, a tecnologia do mRNA também volta às suas origens: as pesquisas sobre o uso dessas vacinas contra tumores começaram a ganhar mais fôlego nos últimos meses.>
Afinal, o câncer é uma fonte de muitas mutações genéticas. Além disso, ele tem a característica de produzir certas moléculas capazes de suprimir o sistema imunológico.>
Em outras palavras, as células cancerosas são capazes de produzir determinadas substâncias que bloqueiam a imunidade. Com isso, as unidades de defesa não reconhecem a ameaça — e o tumor cresce no corpo sem encontrar resistência.>
Já existem atualmente tratamentos que tiram essa "venda" das unidades de defesa e permitem que o próprio sistema imunológico passe a atacar o câncer. Esse grupo de fármacos é conhecido como imunoterapia, e está disponível contra o melanoma e outros tipos da doença.>
Mas e se fosse possível aplicar uma vacina de mRNA para que o organismo do paciente identificasse certas mutações tumorais mais comuns? Ou ainda criar um produto farmacêutico totalmente personalizado, baseado nas alterações genéticas que aparecem em cada indivíduo com câncer?>
Além disso, um dos grandes sonhos da oncologia sempre foi desenvolver uma espécie de ‘memória imunológica’ contra o câncer, de modo que o sistema imune saiba quando o tumor retornou ou está se espalhando para outros tecidos.>
Todas essas possibilidades estão sendo testadas agora por grupos de pesquisas e farmacêuticas.>
Vale ponderar, no entanto, que o produto ainda está em desenvolvimento e precisa passar por novas etapas de estudo antes de chegar às clínicas e aos hospitais.>
Por fim, Rurik apontou que o mRNA não é mais uma plataforma exclusiva para doenças infecciosas, cardíacas ou oncológicas.>
"Também já vemos estudos em andamento para tratar lúpus e outras doenças autoimunes", exemplifica.>
Mas, para que isso realmente aconteça, os cientistas precisarão ainda trabalhar bastante para provar a segurança e a eficácia de tantas novidades.>
O principal desafio será demonstrar que todas essas terapias não geram problemas no sistema imunológico ou prejudicam o funcionamento de órgãos vitais, como o fígado.>
"Mas é inegável que há muita coisa acontecendo agora com o mRNA, e tenho certeza que ideias ‘malucas’, que imaginávamos impossíveis, virarão realidade nos próximos cinco anos", concluiu o biomédico.>
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