Publicado em 24 de outubro de 2025 às 16:33
Há dois meses, o Exército americano vem reunindo uma força de navios de guerra, caças, bombardeiros, fuzileiros navais, drones e aviões espiões no Mar do Caribe. Trata-se do maior destacamento militar para a região em décadas.>
Aviões bombardeiros de longo alcance, B-52, realizaram "demonstrações de ataques com bombardeiros" na costa da Venezuela. Donald Trump também autorizou operações da CIA na Venezuela, à medida que as tensões aumentam.>
Os EUA afirmam ter matado dezenas de pessoas em ataques a pequenas embarcações venezuelanas que, segundo eles, transportam "narcóticos" e "narcoterroristas", sem fornecer provas ou detalhes sobre as pessoas a bordo.>
Os ataques foram condenados na região e especialistas questionaram sua legalidade. Os EUA os vendem como uma guerra contra o narcotráfico, mas todos os sinais sugerem que se trata, na verdade, de uma campanha de intimidação que busca remover o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, do poder.>
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"Trata-se de uma mudança de regime. Provavelmente não vão invadir, a esperança é que se trate de uma sinalização", afirma Christopher Sabatini, pesquisador sênior para a América Latina no think tank Chatham House.>
Ele argumenta que o aumento de efetivo militar é uma demonstração de força com o objetivo de "incutir medo" nos militares venezuelanos e no círculo íntimo de Maduro, para que se voltem contra ele.>
A BBC Verify vem monitorando informações de rastreamento publicamente disponíveis de navios e aviões americanos na região – juntamente com imagens de satélite e imagens em redes sociais – para tentar entender onde as forças de Trump estão localizadas.>
A mobilização tem mudado, por isso monitoramos a região regularmente para atualizações.>
Em 23 de outubro, identificamos 10 navios militares americanos na região, incluindo contratorpedeiros de mísseis guiados, navios de assalto anfíbio e petroleiros para reabastecimento de embarcações no mar.>
Não é segredo que o governo dos EUA, em particular o Secretário de Estado Marco Rubio, gostaria de ver Maduro deposto.>
No início deste ano, ele disse à Fox News que Maduro era um "ditador horrível" e, quando questionado se estava exigindo a saída de Maduro, acrescentou: "Vamos trabalhar nessa política".>
Mas, mesmo para críticos declarados de Maduro como Rubio, é difícil pedir explicitamente uma mudança de regime apoiada pelos militares – algo que a oposição venezuelana há muito tempo reivindica.>
Donald Trump fez campanha contra a mudança de regime em 2016, prometendo "parar de correr para derrubar regimes estrangeiros". Mais recentemente, condenou o envolvimento dos EUA em "guerras eternas" no exterior.>
Os EUA não reconhecem Maduro como presidente da Venezuela, depois que a última eleição, em 2024, foi amplamente rejeitada internacionalmente por não ter sido nem livre nem justa. A embaixada dos EUA em Caracas foi fechada durante a primeira presidência de Trump, em 2019.>
Os EUA aumentaram a recompensa por informações que levem à prisão de Maduro para US$ 50 milhões, um incentivo para que aqueles dentro de seu círculo íntimo e leal o entreguem. Mas não houve deserções.>
O professor de Direito e associado sênior do think tank de segurança nacional CSIS, José Ignacio Hernández, afirma que US$ 50 milhões "não são nada" para as elites venezuelanas.>
Há muito dinheiro a ser ganho com corrupção em um Estado rico em petróleo como a Venezuela. O ex-chefe do Tesouro, Alejandro Andrade, recebeu US$ 1 bilhão em propinas antes de ser condenado.>
Muitos analistas concordam que os militares venezuelanos seriam fundamentais para qualquer mudança de regime, mas para se voltarem contra Maduro e o expulsarem, provavelmente também exigiriam promessas de imunidade judicial.>
"Eles pensarão que, de uma forma ou de outra, também estão envolvidos em atividades criminosas", acrescenta Hernández. >
Michael Albertus, professor de Ciência Política da Universidade de Chicago, com extensas publicações sobre a América Latina, não está convencido de que mesmo uma recompensa de US$ 500 milhões persuadiria o círculo íntimo de Maduro a entregá-lo.>
"Líderes autoritários sempre desconfiam até mesmo de seu círculo íntimo e, por isso, criam mecanismos para monitorá-los e garantir lealdade", diz ele.>
As sanções econômicas à Venezuela agravaram a já grave crise econômica, mas não conseguiram persuadir figuras importantes a se voltarem contra seu presidente.>
Donald Trump declarou que esta é uma guerra contra os narcotraficantes e disse que um navio atingido pelos EUA, em 16 de outubro, estava "carregado principalmente com fentanil".>
Mas o fentanil é produzido principalmente no México – não na América do Sul – e entra nos EUA pela fronteira sul.>
"Não se trata de drogas", diz Sabatini. "Mas ele se apropriou da linguagem da oposição venezuelana de que esta não é apenas uma ditadura – é um regime criminoso.">
Desde 2020, o Departamento de Justiça dos EUA acusa o presidente Maduro de liderar uma organização de tráfico de drogas e narcoterrorismo, o que ele nega. >
Trump afirmou ter autorizado a CIA a realizar operações secretas na Venezuela, em parte devido à "entrada de drogas" vindas da Venezuela.>
A Venezuela não produz grandes quantidades de cocaína – o foco da produção está na Colômbia, Peru e Bolívia. Parte da droga é transportada através do território venezuelano, mas o próprio governo afirma estar reprimindo esse tráfico. >
Um relatório da Agência Antidrogas dos EUA de 2025 afirma que 84% da cocaína apreendida nos EUA vem da Colômbia. Outros países são mencionados na seção sobre cocaína do documento, mas não a Venezuela. >
Os sete primeiros ataques foram realizados no Caribe, que não é uma rota marítima importante para o tráfico de drogas em comparação com o Oceano Pacífico, onde os ataques subsequentes foram realizados.>
Os EUA não detalharam suas evidências de que Maduro lidera uma organização de tráfico de drogas. O líder venezuelano negou repetidamente as acusações e, por sua vez, acusou os EUA de imperialismo e de agravar a crise econômica do país por meio de sanções.>
Há casos conhecidos de pessoas próximas a ele sendo indiciadas.>
Em 2016, um tribunal federal de Nova York condenou dois sobrinhos da esposa de Maduro por conspirar para importar cocaína para os EUA. Segundo a acusação, eles planejavam usar parte do dinheiro obtido para financiar a campanha política da tia na Venezuela. Eles foram posteriormente libertados.>
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Interceptar drogas no mar não exige uma força tão grande quanto a empregada atualmente pelos EUA, de acordo com analistas militares.>
Além dos navios americanos que rastreamos em Porto Rico – onde os EUA têm uma base militar – imagens de satélite também mostraram duas embarcações a cerca de 123 km a leste de Trinidad e Tobago.>
Um deles era um cruzador de mísseis guiados, o USS Lake Erie.>
O outro parecia ser o MV Ocean Trader, de acordo com Bradley Martin, ex-capitão da Marinha dos EUA, agora pesquisador sênior de políticas na RAND Corp.>
Este é um navio de carga convertido, projetado para apoiar missões de forças especiais, ao mesmo tempo em que se mistura ao tráfego comercial. Ele pode abrigar drones, helicópteros e pequenas embarcações.>
Há uma ampla variedade de missões que o navio poderia apoiar, incluindo reconhecimento para preparação de ataques. Mas segundo Martin, sua presença "não significa necessariamente que esse tipo de atividade esteja sendo realizada ou planejada".>
Os EUA também reforçaram sua presença aérea na região - a BBC Verify identificou várias aeronaves militares americanas em Porto Rico.>
Stu Ray, analista sênior da McKenzie Intelligence Services, afirma que uma imagem de satélite tirada em 17 de outubro mostra caças F-35 na pista, possivelmente F-35Bs.>
Trata-se de jatos stealth altamente avançados, valorizados por sua capacidade de decolagem curta e pouso vertical.>
Nas redes sociais, um piloto de jato particular compartilhou um vídeo de um drone MQ-9 Reaper, filmado no Aeroporto Rafael Hernández, em Porto Rico.>
Eles foram usados pelos EUA para realizar ataques e vigilância no Afeganistão, Síria, Líbia e Mali.>
No início de outubro, a BBC Verify rastreou três bombardeiros B-52 que sobrevoaram o Caribe e se aproximaram da costa da Venezuela.>
A Força Aérea dos EUA confirmou posteriormente que os aviões participaram de uma "demonstração de ataque de bombardeiro".>
Voos de bombardeiros B1 e aviões espiões P-8 Poseidon também foram vistos em plataformas de rastreamento de aeronaves.>
Imagens nas redes sociais também mostraram helicópteros militares operando na costa de Trinidad e Tobago.>
Alguns deles são Boeing MH-6M Little Birds - apelidados de "Ovos Assassinos" - usados pelas forças especiais dos EUA.>
Quando questionado se a CIA havia sido autorizada pelo governo a derrubar Maduro, Donald Trump se esquivou da pergunta e disse que seria "ridículo" responder.>
Ele também afirmou que os EUA estão "de olho em território agora", referindo-se a possíveis operações militares em solo venezuelano.>
A CIA é vista com muita desconfiança por muitos na América Latina devido a um longo histórico de intervenções secretas, tentativas de mudança de regime e apoio a ditaduras militares de direita do passado, principalmente no Chile e no Brasil.>
Ned Price, vice-representante dos EUA nas Nações Unidas e ex-analista sênior da CIA e conselheiro sênior do Departamento de Estado, disse que as ações secretas da CIA podem assumir "várias formas".>
"Podem ser operações de informação. Podem ser operações de sabotagem. Pode ser o financiamento de partidos de oposição. Pode ir até a derrubada de um regime. Há muitas opções, entre as mais simples e as mais sofisticadas.">
Isso pode incluir o uso de agentes para perseguir suspeitos de tráfico dentro da Venezuela. Pela própria definição dos EUA, isso poderia incluir o próprio Maduro.>
Sabatini afirma que, como a Venezuela não é um importante ponto de produção de drogas, não há laboratórios de cocaína ou fentanil para "eliminar", mas há pistas de pouso ou portos que os EUA poderiam atacar.>
"Se ele quiser ser agressivo, poderia enviar um míssil para um quartel militar. Há informações bastante precisas de que certos setores das Forças Armadas estão envolvidos no tráfico de cocaína.">
Ou poderia ser uma "situação de invasão e apreensão", observa ele, em que tentam capturar Maduro ou alguns de seus tenentes e levá-los à justiça nos EUA.>
A grande questão, argumenta ele, é por quanto tempo Trump está disposto a manter tantos ativos americanos estacionados no Caribe.>
Se o objetivo principal desse aumento militar é ameaçar Maduro, não está claro se será suficiente para provocar deserções.>
Mas é difícil saber se isso chega a ser uma tentativa real de derrubar o regime de Maduro pela força, pondera Albertus. >
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