Publicado em 19 de março de 2026 às 15:34
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, divulgou uma declaração em seu estilo caracteristicamente contundente após os ataques a um importante campo de gás compartilhado por Irã e Catar na quarta-feira.>
Israel atingiu South Pars, no Irã — parte do maior campo de gás natural do mundo — e Teerã retaliou atacando um complexo energético no Catar. Os ataques provocaram uma alta nos preços de energia e alimentaram a irritação de Trump.>
Em sua rede social Truth Social, Trump voltou a ameaçar o Irã e afirmou que não sabia dos planos de Israel para o ataque.>
Mas o que a linguagem usada pelo presidente dos EUA nos diz sobre o rumo da guerra e sobre até que ponto Estados Unidos e Israel estão alinhados em sua estratégia e objetivos?>
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Vamos analisar.>
O presidente afirma que os EUA "não sabiam de nada sobre esse ataque específico".>
Isso contraria diversas reportagens publicadas na imprensa israelense após o ataque.>
"O ataque foi coordenado previamente com os Estados Unidos e… acordado entre o primeiro-ministro [Benjamin] Netanyahu e o presidente dos EUA, Trump", informou o jornal de centro Yedioth Ahronoth.>
O jornal de direita Israel Hayom vai além, afirmando que "o presidente Trump discutiu o ataque israelense iminente em [a cidade costeira iraniana de] Asaluyeh com líderes de três países do Golfo Pérsico no fim de semana".>
Como costuma acontecer com as declarações do presidente, não é fácil saber onde está a verdade.>
A escolha de palavras de Trump para descrever o ataque israelense também chama atenção. "Por raiva", diz ele, Israel "reagiu violentamente" contra o campo de gás. Esse é o tipo de linguagem geralmente usado para descrever algumas das retaliações mais impulsivas do Irã — não uma operação militar cuidadosamente planejada por um aliado próximo.>
Trump estaria sugerindo que Israel agiu de forma imprudente?>
O uso de letras maiúsculas pelo presidente é conhecido, mas, nesta longa publicação, ele recorre a isso apenas uma vez.>
"NO MORE ATTACKS WILL BE MADE BY ISRAEL pertaining to this extremely important and valuable South Pars Field" ("NÃO HAVERÁ MAIS ATAQUES DE ISRAEL relacionados a este extremamente importante e valioso campo de South Pars"), escreveu ele, "a menos que o Irã decida, de forma imprudente, atacar um país muito inocente, neste caso o Catar".>
Para um presidente que gosta de demonstrar controle, isso reflete um compromisso já assumido ou seria um aviso direcionado a Benjamin Netanyahu?>
Como costuma acontecer com as publicações de Trump no Truth Social, escritas em fluxo de consciência, não é fácil saber.>
Mas há ecos de reportagens que indicam que Trump ficou irritado com ataques israelenses a depósitos de petróleo iranianos no início do conflito.>
Então, os objetivos de guerra de Israel e dos Estados Unidos estão se distanciando?>
Provavelmente seria um erro tirar conclusões definitivas com base em uma única publicação noturna do presidente Trump.>
Autoridades israelenses fazem questão de enfatizar que os dois países estão totalmente alinhados, ainda que, ocasionalmente, deixem escapar sinais de divergência.>
"Estamos muito alinhados na maioria ou em todos os nossos objetivos em relação ao regime islâmico no Irã, ao IRGC [Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica], e aos seus programas balístico e nuclear", disse Alex Gandler, porta-voz da embaixada de Israel em Londres, à BBC na manhã de quinta-feira.>
"Queremos a mesma coisa.">
Mas, embora os dois aliados concordem em muitos pontos, Israel tem sido mais consistente ao defender uma mudança de regime no Irã.>
Autoridades citadas pela imprensa israelense nesta manhã apresentaram o ataque a South Pars como parte de um esforço contínuo para enfraquecer a autoridade do regime.>
"O fornecimento de gás aos cidadãos está sendo interrompido, e isso vai aproximar a revolta", disse um funcionário a Yossi Yehoshua, do jornal Yedioth Ahronoth.>
O primeiro-ministro Netanyahu nunca escondeu seu desejo, de décadas, de derrubar o regime islâmico, que ele — e muitos israelenses — veem como determinado a destruir o Estado judeu.>
Enquanto os EUA têm concentrado grande parte de seus esforços militares em reduzir a capacidade de mísseis e drones do Irã, afundar sua Marinha e, nos últimos dias, atacar alvos ao longo da extensa costa iraniana no Golfo, Israel tem ido além ao assassinar líderes iranianos e atacar estruturas de controle do Estado, incluindo unidades paramilitares Basij, responsáveis por grande parte da repressão violenta a protestos no início deste ano.>
Em sua publicação, o presidente Trump afirma que o Catar não esteve envolvido nem tinha conhecimento prévio dos ataques.>
Mas, "infelizmente", escreve ele, "o Irã não sabia disso" antes de retaliar de forma "injustificável e injusta".>
Trump certamente não está poupando o Irã aqui, mas parece sugerir que Teerã não tinha todas as informações ao revidar — que pode ter acreditado, de forma equivocada, que o Catar estava envolvido.>
Partes da publicação no Truth Social são o típico estilo de Trump — ameaças de usar níveis sem precedentes de violência para conseguir o que quer.>
Se o Irã voltar a atacar as instalações de GNL (gás natural liquefeito) do Catar, ele alerta, os EUA "com ou sem a ajuda ou consentimento de Israel, vão explodir massivamente todo o campo de gás de South Pars com uma força e poder que o Irã nunca viu ou testemunhou antes".>
Trump e seu combativo secretário de Defesa, Pete Hegseth, são conhecidos por esse tipo de retórica inflamada. Donald Trump, que se autodenomina "presidente da paz", frequentemente recorre a esse tipo de discurso.>
E é verdade que Washington poderia causar danos muito maiores ao Irã — e à sua população — do que já causou.>
A referência ao consentimento de Israel para a ação ameaçada chama atenção.>
Seria uma repreensão a Benjamin Netanyahu para que consulte mais de perto os EUA no futuro?>
Com setores do movimento Maga (Make America Great Again), de Trump, já convencidos de que é Israel — e não os Estados Unidos — quem dita os rumos dessa guerra, há o risco de que alguns críticos do presidente vejam isso como um deslize revelador.>
Mas, com os preços de petróleo e gás voltando a subir, em parte devido à recente troca de ataques entre Israel e Irã, e sem sinais claros de progresso nos esforços para garantir a navegação pelo Estreito de Ormuz, Trump parece impaciente.>
Essa guerra continua a trazer surpresas que o governo não parece ter antecipado.>
O apoio ao conflito, ainda muito alto em Israel, é bem menor nos Estados Unidos. O conflito pode ajudar Benjamin Netanyahu a garantir mais um mandato como primeiro-ministro, ao mesmo tempo em que pode custar caro ao Partido Republicano de Trump nas eleições legislativas de meio de mandato em novembro.>
Israel e Estados Unidos são aliados militares próximos, mas esta é a primeira vez que travam uma guerra juntos.>
E está se mostrando mais complicado do que Donald Trump imaginava.>
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