Publicado em 16 de março de 2026 às 07:36
Sempre que alguém encara Sasha-Jay Davies, 19, em um supermercado, ela entra em pânico, pensando que reconheceram o seu rosto e estão prestes a confrontá-la.>
Há quase quatro anos, ela é acusada de dar esperanças a homens, marcar encontros e não aparecer, além de ser assediada por completos desconhecidos.>
Isso acontece porque fotografias de Davies foram roubadas de suas contas nas redes sociais e usadas por alguém para construir relacionamentos com homens e amizades com outras mulheres.>
O caso está sob investigação da South Wales Police, do sul do País de Gales.>
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Para Yair Cohen, advogado especializado em segurança online, pessoas que praticam catfish (criar identidade falsa na internet, em tradução livre) dessa forma frequentemente são motivadas por "baixa autoestima" e pelo prazer do poder que isso lhes dá.>
"Já aconteceu de rapazes vierem falar comigo pessoalmente, me assediando e me acusando de mandar mensagens para eles, de dar esperanças ou de marcar encontros com base em conversas que eu nunca tive", disse Davies. >
"Eu costumava sair muito, mas agora quase nunca saio porque tenho medo de qual homem vai me abordar em seguida. É realmente difícil e eu não desejaria isso nem ao meu pior inimigo.">
Até agora, os homens que a abordaram foram educados, mas ela se preocupa com o que pode acontecer e acrescenta: "É assustador ser confrontada por algo que você não fez e perceber que alguém está usando o seu rosto para manipular outras pessoas.">
Davies, de Aberdare, no País de Gales, afirma que cerca de 20 homens e várias mulheres já entraram em contato com ela nas redes sociais acreditando que a conhecem.>
O que é ainda mais perturbador, porém, é que não foram roubadas apenas as suas fotos.>
Houve publicações cruéis relacionadas ao seu falecido pai, incluindo um certificado falso de câncer pancreático, e também foram republicadas ofensas racistas que afetaram seu "caráter e reputação".>
Fotos de outros corpos femininos com biotipo semelhante à de Davies também foram publicadas, atraindo comentários de homens que a fizeram se sentir "muito desconfortável" e "violada".>
"O nível de cálculo e maldade por trás disso é algo que tenho dificuldade de entender", disse. "Eles sabem absolutamente tudo sobre mim.">
Catfishing é quando alguém cria uma identidade falsa na internet com a intenção de enganar outras pessoas.>
Isso pode acontecer por diversos motivos, como extorquir dinheiro, iniciar um relacionamento amoroso ou simplesmente por satisfação própria.>
Quem pratica catfishing frequentemente usa fotografias roubadas, mente sobre a própria vida e evita situações como chamadas de vídeo, nas quais poderia ser descoberto.>
A primeira vez que Davies percebeu a existência de uma conta falsa foi em 2022, quando ela tinha 16 anos e havia acabado de começar a faculdade após terminar a escola.>
Ela conta que descobriu que alguém estava usando suas fotografias na rede social TikTok.>
Como o perfil era público e os conteúdos eram publicados diariamente, a conta rapidamente ganhou seguidores.>
Davies denunciou o caso à polícia, mas foi informada de que pouco poderia ser feito.>
"Pensei algo como: 'bem, espero que a pessoa simplesmente se canse e passe a fazer isso com outra pessoa'", disse.>
No entanto, logo depois as fotografias começaram a aparecer em aplicativos de namoro e no Instagram, e contas falsas chegaram a ser criadas usando imagens roubadas de amigas dela, para "fazer tudo parecer mais convincente".>
Apesar de ter tornado as suas próprias contas privadas há 18 meses, Davies afirmou que a pessoa que roubou sua identidade continuou usando fotos antigas e imagens editadas com inteligência artificial.>
As fotografias foram usadas em contas com o nome de Sophie Kadare.>
Uma das pessoas enganadas foi Mark (nome fictício), 22, de Essex. Em dezembro, ele começou a trocar mensagens com "Sophie" no Instagram depois de ver seus vídeos no TikTok.>
"Ela disse que era torcedora do Liverpool, então pensei em segui-la", disse Mark.>
Durante cerca de um mês, eles trocaram mensagens e conversaram sobre assuntos como futebol, o dia a dia e viagens. Então, ao navegar pelo TikTok, Mark encontrou um vídeo na conta verdadeira de Davies sobre o namorado dela.>
"Fiquei um pouco chocado no início", disse. "Nunca tinha passado por isso antes.">
Mark avisou Davies, mas quando ele confrontou "Sophie", ela o bloqueou. "Acho que ela estava falando comigo por atenção", disse.>
Davies se pergunta se alguém que ela conhece está por trás disso.>
Ela afirma que denunciou repetidamente as contas nas redes sociais, mas diz que a pessoa que se passa por ela bloqueia seus amigos e familiares para impedir que façam o mesmo.>
O fato de as contas falsas terem acumulado 81 mil seguidores no TikTok e 22 mil no Instagram também dificultou a situação.>
"Como eles têm mais seguidores do que eu, parecem ser a pessoa real", disse.>
A polícia inicialmente disse que nada poderia ser feito, mas depois que Davies fez uma publicação recentemente sobre suas experiências no Facebook, recebeu um número de ocorrência e o caso passou a ser investigado.>
Ela descreveu sentir medo, ansiedade e constrangimento.>
"Acho que, no começo, isso não me incomodava tanto, mas também não era tão grande quanto é agora. Essa conta literalmente tomou conta de toda a minha vida", acrescentou Davies.>
"Todo mundo acha que eu sou essa pessoa, a Sophie — eu não posso ser eu mesma. Ver alguém usar minha identidade e minha imagem como arma teve um enorme impacto emocional.">
Se passar por outra pessoa na internet e praticar catfishing são um problema significativo de segurança online, segundo Hayley Laskey, do UK Safer Internet Centre — um centro britânico dedicado a tentar tornar a internet um lugar mais seguro.>
Ela destacou casos como perfis gerados por inteligência artificial (IA) e imagens falsas usadas em golpes românticos e de chantagem sexual online.>
Cerca de 5% dos casos relatados à linha de ajuda para conteúdos nocivos do centro em 2024 e 2025 envolveram contas falsas que se passavam por outras pessoas.>
Laskey afirmou que o catfishing em si nem sempre é ilegal no Reino Unido, mas comportamentos relacionados podem violar leis como o Fraud Act 2006, se alguém usar uma identidade falsa para obter dinheiro ou presentes, ou causar danos financeiros ou à reputação.>
Da mesma forma, fingir ser outra pessoa na internet também pode ser ilegal se causar prejuízo, danos à reputação ou perdas financeiras para essa pessoa, acrescentou.>
Pelo Ato de Segurança Online de 2023, as plataformas devem agir se se passar por outra pessoa levar a comportamentos ilegais, como ameaças ou fraude.>
Laskey aconselhou as vítimas a primeiro denunciar a conta usando as ferramentas da própria plataforma e aguardar cerca de 48 horas antes de encaminhar o caso para a linha de ajuda do centro.>
Mas, segundo ela, o ponto central é "prevenção e educação", incluindo limitar as informações pessoais online, usar senhas fortes e autenticação em dois fatores, além de ter cautela antes de enviar dinheiro ou imagens pessoais.>
Yair Cohen, um dos primeiros advogados especializados em internet do Reino Unido, representou Kirat Assi em seu histórico processo civil de 2020 contra a pessoa que a enganou com catfishing, posteriormente retratado no documentário da Netflix Sweet Bobby: O Meu Pesadelo de Catfish.>
Cohen afirmou que quem pratica catfishing muitas vezes conhece as vítimas e que muitos apreciam "a confiança que é depositada neles" criada pela identidade falsa.>
"Eles tendem a desfrutar desse poder que têm sobre as vítimas, ambos os tipos de vítimas — a pessoa [cujas fotografias] estão sendo roubadas e as pessoas que estão sendo enganadas usando a identidade falsa", explicou.>
"Eles não precisam confrontar nada, não precisam ser eles mesmos. Estão literalmente pegando emprestada a identidade de outra pessoa e usando isso para melhorar a sua própria autoimagem e, às vezes, a imagem que têm diante dos outros.">
Uma vez que o engano começa, acrescentou Cohen, os responsáveis frequentemente acham "muito, muito difícil" parar.>
"Eles precisam continuar com o jogo até o final amargo, e é por isso que quase sempre conseguimos identificá-los, porque continuarão cometendo esse erro repetidas vezes até serem pegos", disse. "Não há saída para eles.">
Sobre a experiência de Davies, Cohen disse que deveria haver "pouca dificuldade em caracterizar ao menos um crime de assédio", observando que a conduta "claramente tem a intenção de causar nela alarme e sofrimento".>
A polícia local de Davies afirmou: "A polícia do País de Gales investiga um caso de roubo de identidade na área de Mountain Ash. A vítima está sendo mantida informada durante a investigação.">
O Instagram informou que removeu a conta falsa da plataforma.>
O TikTok se recusou a comentar o caso específico, mas afirmou que suas diretrizes proíbem contas que se passam por outra pessoa e spam, assim como conteúdos que "violam os direitos de propriedade intelectual de outra pessoa".>
Desde que a BBC entrou em contato com o TikTok, a conta falsa foi removida.>
Enquanto isso, Davies disse que está compartilhando sua história na esperança de obter respostas e também quer que as pessoas sejam ainda mais cautelosas quando estiverem online.>
"Eu sempre pensei: 'isso nunca vai acontecer comigo', e agora aconteceu comigo", disse.>
"As redes sociais são poderosas, mas ainda não existem proteções suficientes para proteger as pessoas de contas falsas de longo prazo e ataques direcionados como esse.">
Ela quer que as plataformas de redes sociais introduzam verificação de identidade para as contas e acrescenta: "Um perfil falso pode parecer inofensivo para alguns, mas pode destruir reputações, relacionamentos e a saúde mental.">
Davies está incentivando as pessoas a "ter cuidado com quem interage online", pedindo aos usuários que mantenham os perfis privados, verifiquem as contas com atenção, denunciem perfis falsos imediatamente e protejam informações pessoais.>
"E, mais importante, entendam que o que acontece online não fica online, isso transborda para a vida real de maneiras que podem ser profundamente prejudiciais", disse.>
"Ninguém deveria ter que lutar para recuperar a própria identidade ou se sentir inseguro porque outra pessoa está escondida atrás de uma tela.">
O Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia do governo do Reino Unido afirmou que todos os provedores de redes sociais deveriam proteger os usuários.>
"Fingir ser outra pessoa ou praticar catfishing na internet é uma forma horrível de abuso que pode ter consequências angustiantes para as vítimas, tanto online quanto offline", disse um porta-voz.>
"Segundo o Ato de Segurança Online, todos os serviços abrangidos pela lei, incluindo plataformas de redes sociais, precisam proteger os usuários de conteúdos ilegais e comportamentos criminosos, incluindo delitos relacionados a comunicações falsas.">
A polícia do Reino Unido alerta para golpes românticos, dizendo que criminosos geralmente fazem um grande esforço para ganhar confiança e convencer seus alvos de que estão em um relacionamento genuíno. Eles usam a linguagem para manipular, persuadir e explorar para que os pedidos de dinheiro não soem alarmes.>
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