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Médicos são acusados de perseguir colegas e sugerir boicote a pacientes por posicionamento político: 'Senti um alvo na minha cabeça'

Casos envolvendo médicos em diferentes Estados incluem exposição de colegas por posicionamento político e postagens que sugerem discriminação contra pacientes que teriam votado no PT.

Publicado em 30 de Outubro de 2026 às 17:33

BBC News Brasil

Publicado em 

30 out 2026 às 17:33
Imagem BBC Brasil
Crédito: Getty Images

"Na hora que eu recebi a lista, fiquei sem chão. Senti um alvo na minha cabeça".

A frase é de um médico anestesiologista ouvido pela BBC News Brasil após ter sido incluído em uma lista de profissionais "esquerdistas" divulgada em um grupo privado de médicos após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A listagem reunia nomes de 15 médicos sob o título "Lulistas = esquerdistas = petistas" e foi enviada em um grupo de WhatsApp que reúne cerca de um terço de todos os médicos da especialidade do Estado. Ao lado de alguns nomes, foram colocadas bandeiras do movimento LGBTQIA+.

O caso expõe como a divisão política vivida durante — e depois — da eleição chegou também a hospitais, consultórios e cooperativas médicas.

Profissionais da saúde denunciam à reportagem episódios que vão desde o do anestesiologista, de exposição de colegas por suas preferências eleitorais, até mensagens que sugerem tratamento diferenciado a pacientes em razão de posicionamentos políticos.

O médico de Sergipe, que pediu para não ser identificado, conta que foi informado da inclusão do seu nome na lista enquanto se preparava para participar das comemorações pela vitória do candidato que apoiou.

Imagem BBC Brasil
Crédito: Reprodução/BBC

Ele diz que procurou imediatamente o colega apontado por outros integrantes do grupo como autor da publicação para questionar a origem e o objetivo da lista. Segundo seu relato, a conversa foi marcada por gritos, ofensas e xingamentos.

"O objetivo da lista é justamente o que eu busco entender. Segundo o colega, seria uma enquete informal. Mas qual o objetivo de identificar quem vota ou deixa de votar na esquerda? Não interessa ao colega meu posicionamento político-partidário", afirmou.

"A maior repercussão é interna. Fui exposto e vejo colegas tentando minimizar a gravidade", relata o médico, que diz ter feito postagens em apoio a Lula em suas redes sociais privadas e participado de duas caminhadas pela eleição do candidato.

"Mas não postei nada em grupos, não me posicionei em ambiente de trabalho. Até evitava falar de política nesses ambientes. Só postava no meu insta", relata.

O anestesiologista diz ter levado seu caso a um grupo institucional do Estado utilizado para a organização de escalas e plantões, onde pediu esclarecimentos sobre a autoria e a finalidade da lista. Segundo ele, a publicação teria sido apagada logo depois.

Ainda de acordo com o relato, novas ligações ocorreram na sequência e incluíram ofensas homofóbicas. Temendo pela própria segurança, o anestesiologista procurou o Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV) da Polícia Civil e solicitou medida protetiva.

Nesta semana, ele também formalizou uma denúncia junto à cooperativa responsável pela escala de plantões. A entidade teria atendido ao pedido para que os dois profissionais não fossem escalados juntos enquanto o caso é apurado.

"O presidente da cooperativa veio pessoalmente conversar comigo, me deu um abraço e disse que tudo seria investigado", disse.

O médico afirma que, até o momento, ainda avalia com seu advogado a possibilidade de denunciar o caso ao Conselho Regional de Medicina (CRM).

A BBC News Brasil procurou a cooperativa responsável pela organização de escalas e plantões de anestesiologia e o Conselho Regional de Medicina do Estado de Sergipe (Cremese) em busca de um posicionamento oficial, mas não obteve resposta. A reportagem não conseguiu contato com o médico apontado como autor da lista.

'Não ajude petista com remédio ou dinheiro'

Se no caso do anestesiologista a denúncia envolve a exposição e intimidação de colegas, outros episódios registrados incluem mensagens que defendem ou sugerem boicotes a pacientes identificados como apoiadores do presidente Lula e do PT.

A reportagem recebeu denúncia sobre uma médica cardiologista que atua na Bahia e teria compartilhado, em seu perfil no Instagram, uma publicação afirmando que eleitores petistas deveriam sofrer as consequências de suas escolhas políticas.

As capturas de tela enviadas à BBC News Brasil são de uma mensagem postada originalmente pelo perfil de uma ex-candidata a vereadora e 1º Suplente do PL, partido do senador e candidato derrotado Flávio Bolsonaro, e compartilhada pela médica no Instagram Stories.

O post dizia, entre outras coisas: "Não ajude petista na fila da regulação", "Não ajude petista em pedido de emprego" e "Não ajude petista com remédio ou dinheiro".

"Toda escolha traz consequências…", teria escrito a cardiologista ao repostar a publicação em seu perfil, que utilizava para conteúdos profissionais.

Embora o texto não mencione explicitamente a prática médica, colegas que seguem a cardiologista e viram a publicação apontaram que a referência à regulação e ao acesso a medicamentos pode ser interpretada como incentivo à discriminação baseada em convicções políticas.

Diante do temor, um grupo de médicos fez uma denúncia formal ao Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (CREMEB) e informou autoridades da Secretaria da Saúde do Estado.

Imagem BBC Brasil
"Toda escolha traz consequências…", escreveu a cardiologista Crédito: Reprodução/BBC

A BBC News Brasil procurou os órgãos em busca de esclarecimentos sobre o andamento das denúncias, mas não recebeu resposta do CREMEB.

A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia disse que até o momento "não foram formalizadas denúncias" relacionadas a profissionais que atuem na sua rede de assistência.

O perfil da médica cardiologista no Instagram não está mais ativo, mas por meio de uma nota publicada no perfil da clínica em que atua em Lauro de Freitas, a cardiologista reconheceu que o compartilhamento "foi um equívoco" e lamentou "a preocupação, a insegurança e o desconforto que possa ter provocado".

"Quero afirmar com clareza: não defendo que qualquer pessoa seja privada de atendimento médico, medicamentos ou cuidados de saúde por seu posicionamento político", disse.

"Respeito a liberdade de pensamento e reafirmo meu compromisso com os princípios éticos da medicina, com o cuidado humanizado e com a assistência sem qualquer discriminação."

Já a clínica especializada em cardiologia afirmou não ter "lado político". "Nosso lado é o da vida, da saúde e do ser humano", disse em nota.

"Opiniões expressadas em perfis pessoais não representam, necessariamente, o posicionamento institucional da nossa clínica, nem interferem em nossos princípios de atendimento. Aqui, ninguém é definido por seu voto, sua religião, sua condição social ou suas escolhas pessoais."

A reportagem também tentou entrar em contato com a autora da publicação original, ligada ao PL, mas não obteve retorno até a publicação.

O que fazer se um médico negar atendimento ou praticar assédio político?

Em casos de negativa injustificada de assistência, discriminação ou assédio político, a orientação é reunir provas, como mensagens, áudios, vídeos, receitas ou prontuários, e formalizar uma denúncia aos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), responsáveis por apurar possíveis infrações éticas.

Dependendo da situação, o caso também pode ser levado ao Ministério Público, à Defensoria Pública ou à Justiça comum, especialmente quando houver danos ao paciente ou risco à sua saúde.

Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), responsável por fiscalizar e normatizar a prática da medicina no Brasil, o Código de Ética Médica estabelece que, em casos de urgência e emergência, o atendimento é obrigatório.

A Resolução 2.217/2018 do CFM também destaca que a medicina é uma "profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade" e, por isso, deve ser "exercida sem discriminação de nenhuma natureza".

Outra resolução do conselho, que regulamenta a publicidade médica, estabelece ainda regras para a divulgação de serviços e informações nas plataformas digitais. Embora amplie as possibilidades de comunicação dos profissionais, a norma não elimina as obrigações previstas no Código de Ética Médica.

Também entre colegas, entidades médicas defendem que divergências políticas não podem resultar em constrangimentos, perseguições ou prejuízos profissionais.

"Denúncias sobre possíveis infrações éticas profissionais de médicos devem ser feitas ao Conselho Regional de Medicina (CRM) do estado onde o fato ocorreu para que haja apuração. Por ser instância recursal, o CFM não comenta casos concretos sob pena de nulidade processual", afirmou o CFM em nota enviada à reportagem.

A Lei nº 3.268/1957, que dispõe sobre os Conselhos de Medicina, prevê que os órgãos estaduais podem aplicar penalidades disciplinares que incluem advertência, censura, suspensão e cassação do exercício profissional, diante de infrações. As penalidades variam conforme a gravidade da infração e o devido processo legal.

'Médicos estão anunciando boicotar as vidas das pessoas'

No Espírito Santo, o Conselho Regional de Medicina do Estado (CRM-ES) abriu sindicância para apurar os fatos relacionados a uma médica que teria compartilhado uma postagem em que afirma, de forma irônica, que alteraria prescrições de medicamentos de pacientes e não aceitaria justificativas ligadas à falta de recursos financeiros para comprar os remédios indicados diante do resultado das eleições.

O caso foi denunciado, também nas redes sociais, por Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos, que estreou na política como a deputada federal mais votada de Minas Gerais, com 524 mil votos.

"Começou com uma lista de boicote de comércio e agora alguns médicos já estão anunciando boicotar as vidas das pessoas. Porque quando você anuncia no seu Instagram que vai trocar os remédios das pessoas, nada mais é do que boicote à existência daquela pessoa", disse a deputada eleita em um vídeo.

Imagem BBC Brasil
A deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) denunciou um caso em suas redes sociais Crédito: Reprodução/Instagram

Em nota enviada à reportagem, o CRM-ES afirmou que todas as denúncias feitas ao órgão "são rigorosamente apuradas".

"A sindicância tem como objetivo apurar os fatos e pode resultar em abertura de um Processo Ético Profissional, caso haja elementos suficientes de indícios de materialidade e autoria de infração ao Código de Ética Médica", afirmou sobre o caso registrado no Estado, acrescentando que todos os trâmites processuais correm em segredo de Justiça.

Outros episódios

Os episódios se somam a outros casos que ganharam repercussão nacional nos últimos dias.

Em São Paulo, um médico do Einstein Hospital Israelita publicou uma série de ataques contra apoiadores do presidente Lula nas redes sociais.

"Não atendo petistas vagabundos", teria escrito o cardiologista em uma sequência de stories postados no Instagram e divulgados pela imprensa brasileira. No mesmo post, ele diz ter "recursos" para as rejeições.

Procurado pela BBC News Brasil, o Einstein disse que repudia qualquer manifestação discriminatória e que o caso já está sendo tratado segundo o código de ética do hospital. A reportagem não conseguiu contato com o autor das postagens.

Outro caso ocorreu em Goiânia, onde uma ginecologista e obstetra foi afastada e posteriormente demitida do Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara após mensagens divulgadas em um grupo de WhatsApp de profissionais da unidade.

Segundo capturas de tela divulgadas pela TV Anhanguera, a médica teria pedido que colegas evitassem conceder alta hospitalar durante o fim de semana do primeiro turno da eleição porque "a maioria é petista".

"Quem estiver na enfermaria sábado e domingo, não dar alta para ninguém, a maioria é petista", escreveu a médica, conforme mostram prints exibidos pela TV Anhanguera.

O episódio foi denunciado e uma investigação foi aberta pelo hospital.

O caso também foi encaminhado ao Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) que, em nota enviada à BBC News Brasil, disse que que todas as denúncias relacionadas à conduta ética de médicos, recebidas pelo Cremego ou das quais toma conhecimento, são apuradas e tramitam em total sigilo, conforme determina o Código de Processo Ético-Profissional Médico. "O Cremego também solicita esclarecimentos ao médico responsável técnico pela instituição citada nas denúncias", disse o órgão.

A reportagem não conseguiu contato com a ginecologista denunciada. Mas em nota enviada ao G1, a médica afirmou que a mensagem enviada em um grupo privado de profissionais não se transformou em conduta inadequada e que nenhuma paciente teve a alta atrasada ou negada por preferência política.

Segundo a médica, todas as pacientes foram avaliadas e receberam alta exclusivamente de acordo com critérios clínicos. Ela também afirmou que, desde 2017, realizou milhares de partos de mulheres com diferentes origens e convicções.

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