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Flávio Dino suspende quebra de sigilo bancário de amiga de Lulinha: como decisão pode abrir precedente favorável a filho de Lula?

Oposição crítica de decisão e teme que quebra de sigilo do filho do presidente também seja anulada

Publicado em 04 de Março de 2026 às 16:08

BBC News Brasil

Publicado em 

04 mar 2026 às 16:08
Imagem BBC Brasil
Lulinha (ao centro, de blusa preta) é o filho mais velho de Lula Crédito: AFP via Getty Images
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino anulou, nesta quarta-feira (4/3), a quebra de sigilo fiscal e bancário da empresária Roberta Luchsinger determinada na semana anterior pela CPMI do INSS, comissão parlamentar que apura um esquema bilionário de fraudes no pagamento de pensões e aposentadorias.
Luchsinger é amiga de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conhecido como Lulinha.
Ela é suspeita de ter ligação com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o "careca do INSS", investigado como um dos principais operadores do esquema de fraude que desviou recursos de aposentados e pensionistas.
Segundo informações reveladas pela imprensa brasileira e que a BBC News Brasil não confirmou oficialmente, ela também teria intermediado pagamentos para Lulinha. O filho de Lula nega qualquer ilegalidade.
Ao suspender o ato da CPMI, Dino considerou que a decisão não teve "fundamentação concreta", já que a comissão aprovou em bloco 87 requerimentos com medidas para a investigação.
O ministro disse que a CPMI poderia aprovar nova quebra, desde que a medida fosse aprovada "com análise, debate, motivação e deliberação de modo fundamentado e individualizado".
A decisão de Dino não anulou a quebra de sigilo fiscal e bancário do próprio Lulinha, também determinada pela CPMI na sessão de 27 de fevereiro, quando houve confusão e empura-empurra entre parlamentares. Mas é vista na oposição como um precedente que pode levar à suspensão da quebra contra o filho do ex-presidente.
"Sempre há temor [de que a decisão beneficie Lula], mas a decisão é absurda. Claro que [a quebra de sigilo] foi fundamentada. Todos os requerimentos têm justificativa", disse à BBC News Brasil o deputado Marcel van Hattem (Novo-RS).
Os dois requerimentos anulados contra Luchsinger foram apresentados pelo deputado Alfredo Gaspar (UNIÃO - AL).
Um deles cita a decisão do ministro do STF André Mendonça autorizando uma operação da PF em dezembro contra a fraude do INSS, incluindo uma ação de busca e apreensão contra a amiga de Lulinha.
Segundo o requerimento de Alfredo Gaspar, a decisão de Mendonça diz que a atuação de Luchsinger "se revela essencial para a ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de contas bancárias e estruturas empresariais utilizadas como instrumentos da lavagem de capitais".
Na sequência, Gaspar argumenta que "a presente requisição fundamenta-se na necessidade de esclarecer a origem, o destino e a finalidade das movimentações financeiras atípicas, verificar a compatibilidade entre rendimentos declarados e patrimônio constituído, além de identificar eventuais vínculos entre tais atividades e o esquema de fraudes investigado".
A decisão de Dino afetou somente Roberta Luchsinger porque o recurso julgado tratava apenas da sua quebra de sigilo. Eventual decisão similar beneficiando Lulinha depende da defesa dele recorrer e conseguir reverter também a decisão da CPMI na Justiça.
A BBC News Brasil tentou contato com o advogado de Lulinha, Guilherme Suguimor, em seu escritório e por e-mail, mas não teve retorno até a publicação dessa reportagem.
Em sua decisão, Dino ressalta que Luchsinger também está sendo investigada pela Polícia Federal, no inquérito que também apura a fraude no INSS.
Segundo o portal G1, a quebra de sigilo fiscal e bancário de Lula foi autorizada também pelo ministro André Mendonça, relator do inquérito no STF. O caso está em sigilo e o Supremo não divulgou essa decisão.

Quais as suspeitas contra Lulinha?

Em dezembro, quando a Polícia Federal realizou uma nova fase da operação 'Sem Desconto', foram revelados pagamentos que somam R$ 1,5 milhão feitos por ordem de Antunes à empresária Roberta Luchsinger.
A mesma operação resultou na prisão do "número 2" do Ministério da Previdência, Adroaldo da Cunha Portal.
Uma das transferências feitas a Luchsinger, no valor de R$ 300 mil, foi citada em mensagens que constam na investigação da PF nas quais Antunes afirma que o dinheiro seria destinado ao "filho do rapaz". Segundo o jornal Folha de S.Paulo, os investigadores suspeitavam que a referência dizia respeito a Lulinha.
"Ninguém ficará livre. Se tiver filho meu metido nisso, ele será investigado", afirmou.
As investigações apontam que Antunes era um dos principais operadores do esquema e atuava como intermediário entre sindicatos e associações e servidores do INSS, recebendo valores descontados indevidamente de aposentados e pensionistas e repassando parte dos recursos a funcionários do instituto, familiares e empresas ligadas a eles.
Segundo a Polícia Federal, pagamentos feitos por ordem de Antunes foram destinados à empresa RL Consultoria e Intermediações, que tem Luchsinger como sócia.
Os repasses teriam partido da Brasília Consultoria Empresarial Ltda., apontada como empresa de fachada ligada ao grupo de Antunes, e teriam como justificativa serviços que não foram efetivamente prestados.
A investigação da PF aponta que a empresária atuaria como integrante vinculada ao núcleo político da organização criminosa investigada, com papel considerado essencial na ocultação de patrimônio, na movimentação de valores e na gestão de estruturas empresariais usadas para lavagem de dinheiro.
A investigação também aponta que ela seria um dos elos entre Lulinha e Antônio Carlos Camilo Antunes em projetos na área da saúde.
Em mensagens analisadas pela PF, Luchsinger relata a Antunes que "acharam um envelope com nome do nosso amigo no dia da busca e apreensão" e o orienta a se desfazer de telefones. Em outro momento, envia um áudio tentando tranquilizá-lo e menciona que, "na época do Fábio", também teriam surgido acusações semelhantes, ligadas à empresa Friboi.
Imagem BBC Brasil
Parlamentares entraram em confronto após CPMI aprovar quebra de sigilo de Lulinha Crédito: Geraldo Magela/Agência Senado
A pressão contra o filho de Lula aumentou após a CPMI tomar conhecimento do depoimento de Edson Claro, ex-funcionário do INSS, à Polícia Federal.
Segundo o portal Poder360, que teve acesso ao depoimento, Claro acusa Lulinha de manter uma relação de proximidade e até uma sociedade empresarial com Antunes.
Ele teria dito que o filho de Lula recebeu uma cifra de 25 milhões (sem especificar em qual moeda) do "careca do INSS", além de uma "mesada" de R$ 300 mil.
Ainda, de acordo com o depoimento de Claro, Lulinha atuava como uma espécie de lobista para Antunes e eles teriam viajado juntos várias vezes para Portugal.
Edson Claro é um dos alvos da investigação da Polícia Federal. Ele prestou depoimento em 29 de outubro de 2025.
De acordo com o Poder360, não fica claro o tipo de sociedade que Lulinha tem ou pode ter mantido com o "careca do INSS" com base no que diz Edson Claro.
Apesar disso, o veículo pontua que as citações ao filho de Lula na investigação são fartas. Ele é citado em conversas de WhatsApp em situações que poderia ajudar, de alguma forma, os acusados de fraudar o INSS.
Imagem BBC Brasil
Imagem divulgada pela Polícia Federal na nova fase da Operação Sem Desconto Crédito: Polícia Federal

Quem é Lulinha

Fábio Luis, mais conhecido como Lulinha, é o filho mais velho de Lula com Marisa Letícia. Ele é formado em biologia e chegou a trabalhar como estagiário em um zoológico em São Paulo. Hoje ele tem empresas no ramo de tecnologia.
Nos anos 2000, o filho de Lula se tornou sócio da empresa Gamecorp, que atuava no ramo de jogos eletrônicos.
Em 2019, o Ministério Público Federal denunciou Lulinha e outras 10 pessoas por suposto recebimento de vantagens indevidas da Oi/Telemar, entre 2004 e 2016.
Em 2020, ele foi alvo da Operação Lava Jato, investigado por suspeita de receber repasses de mais de R$ 100 milhões do grupo Oi/Telemar para suas empresas, em troca de decisões favoráveis do governo durante as gestões petistas.
O caso foi arquivado.
Em julho, o portal Metrópoles divulgou que Lulinha se mudou para a Espanha e só voltaria ao Brasil após o fim do mandado de Lula. Ele teria sido contratado para trabalhar para uma empresa em Madri.

Fraude no INSS

Em abril de 2025, uma investigação conjunta da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal (PF) revelou uma fraude bilionária no INSS, que roubou centenas de milhares de aposentados por meio de descontos não autorizados em seus benefícios.
Segundo a polícia, sindicatos e associações de aposentados conseguiam, por meio de convênios com o INSS, descontar mensalidades de aposentados e pensionistas sem autorização.
Estima-se que o esquema envolva R$ 6,3 bilhões em descontos, entre valores legais e ilegais, no período de 2019 a 2024.
Entre os investigados na primeira fase da Operação estavam seis servidores públicos, incluindo o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto. Ele foi demitido do cargo após a operação e preso em novembro.
Em setembro, novas prisões foram feitas, entre elas do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o "careca do INSS".
Ele é apontado pelas investigações como facilitador do esquema que desviou recursos de aposentados e pensionistas.
Segundo a Polícia Federal, empresas ligadas a ele teriam operado como intermediárias financeiras das associações investigadas na fraude.

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