Publicado em 15 de fevereiro de 2026 às 15:09
Poucos filmes são tão épicos e exaustivos quanto Magalhães, o novo drama sobre o navegador português do século 16 Fernão de Magalhães do cineasta filipino Lav Diaz.>
A história começa com o famoso explorador, interpretado pelo astro mexicano Gael García Bernal, nutrindo a grande ambição de abrir uma nova rota marítima para as então chamadas "Ilhas das Especiarias" na Indonésia.>
Ele deserta de sua terra natal para a Espanha e, com o apoio do rei Carlos 1º, embarca em uma viagem árdua e amarga, durante a qual muitos membros de sua tripulação morrem de escorbuto ou são executados em motins.>
Ao chegar à ilha de Mactan, no que hoje são as Filipinas, o próprio Magalhães é brutalmente assassinado em uma batalha com a população local.>
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As circunstâncias que envolvem essa extraordinária odisseia, que começou em 1519, tornaram-se lendárias.>
Muitos historiadores afirmam que a viagem marcou a primeira circunavegação completa do globo. Após a morte de Magalhães em Mactan, em 1521, a circunavegação do globo por sua frota foi concluída no ano seguinte, sob o comando de seu colega, o capitão Juan Sebastián Elcano.>
O biógrafo Laurence Bergreen afirma que os feitos do navegador português são mais "significativos" do que os de Cristóvão Colombo. A NASA, agência espacial americana, chegou a batizar uma de suas espaçonaves em sua homenagem.>
Outros, contudo, questionam sua importância, especialmente porque Magalhães não viveu o suficiente para completar a viagem de volta à Espanha.>
Há ainda outras razões que fazem de Magalhães uma figura controversa: a traição ao seu próprio país, precedida por acusações de comércio ilegal, a alegada tirania a bordo de sua frota e a conversão forçada dos habitantes de Mactan ao cristianismo.>
Em 2022, o historiador Felipe Fernández-Armesto tentou desmistificar a narrativa de Magalhães como herói em seu livro Ruas: Além do Mito de Magalhães, descrevendo o líder como imprudente e fanático e sua missão como um "fracasso total" devido à ausência de lucro e ao elevado número de mortos - de aproximadamente 270 marinheiros, acredita-se que apenas 18 retornaram à Espanha.>
Fernández-Armesto também aponta Magalhães como alguém com uma sede de "sangue incontrolável", que praticou "imperialismo, escravidão, discriminação injusta" contra os povos indígenas.>
Deveria ele ser considerado um pioneiro ou um traidor sedento por poder? Para complicar ainda mais o legado de Magalhães, os registros sobreviventes de sua circum-navegação são escassos.>
Muito do que sabemos sobre Magalhães vem de seu cronista a bordo, Antonio Pigafetta, que atuava como assistente do navegador, mas a quem Fernández-Armesto descreveu como seu "agente de relações públicas".>
Para criar seu próprio relato semificcional da expedição de Magalhães, Diaz passou sete anos pesquisando e visitando arquivos em Lisboa.>
Foi Beatriz Barbosa de Magalhães, esposa de Magalhães, que havia sido ignorada por quase quatro anos, quem inicialmente capturou a atenção do roteirista e diretor.>
"Mas então, ao longo da minha pesquisa, achei Magalhães mais interessante", disse Diaz à BBC, especialmente porque viu uma oportunidade de "equilibrar a narrativa, de também incorporar a perspectiva malaia. Porque é sempre sobre Magalhães, o ponto de vista do homem branco.">
Parte da reformulação da história envolveu enfatizar a importância de Enrique de Malaca, que foi escravo de Magalhães por dez anos, e é interpretado no filme por Amado Arjay Babon.>
Antes de Magalhães embarcar em sua viagem para as Filipinas, ele comprou Enrique, um ex-muçulmano, na cidade malaia de Malaca e o levou para a Espanha.>
Ao chegar a Mactan, a comitiva de Magalhães ficou surpresa ao descobrir que Henrique falava a língua nativa, indicando que ele havia sido criado na região.>
Alguns historiadores chegaram a especular que, ao retornar à região, Henrique pode ter circunavegado o globo antes de qualquer membro da tripulação de Magalhães.>
O filme de Diaz também lança luz sobre o sentimento antiescravista da época: um membro da corte espanhola adverte Magalhães contra essa prática.>
Frei Bartolomé de las Casas, membro do conselho real espanhol, prega contra a escravidão, enquanto novas leis restringiam o tráfico de escravos em Portugal em 1570.>
Embora os dados sólidos sobre a vida de Magalhães sejam limitados, a narrativa que costuma prevalecer se concentra em seu heroísmo.>
O Magalhães de Díaz, por outro lado, analisa com firmeza o que sabemos sobre o tratamento que ele deu à sua tripulação a bordo da Armada de Maluco, que incluiu a execução de um deles por suposta sodomia e, à medida que sua paranoia aumentava, o abandono do sacerdote Pedro Sánchez de Reina.>
Os motins eram recorrentes e, em novembro de 1520, um dos cinco navios da frota, o San Antonio, e toda a sua tripulação desertaram da missão.>
Magalhães pode ter se sentido obrigado a aplicar castigos tão severos por insegurança, já que, ao fugir de sua própria nação, havia se tornado um pária tanto em Portugal quanto na Espanha.>
"Magalhães tinha a desvantagem de não ser castelhano, o que reduzia sua autoridade sobre a nobreza castelhana", declarou à BBC João Paulo Oliveira e Costa, professor de História da Universidade de Lisboa.>
"Seus capitães castelhanos aspiravam controlar a expedição. O castigo precisava ser brutal para dissuadir novas rebeliões. Se Magalhães não os tivesse matado, eles teriam matado Magalhães.">
No filme biográfico de Díaz, a violência colonial que Magalhães e seus homens desencadearam também ganha destaque.>
Quando desembarcaram em Guam e tiveram uma pequena embarcação roubada, os marinheiros se vingaram sangrentamente da comunidade indígena, incendiando moradias.>
As comunidades de Malaca e das Filipinas sofreram brutalidade semelhante.>
No entanto, ao contrário de outras representações cinematográficas da violência colonial, como "O Rouxinol" (2018) ou "Soldado Azul" (1970), a representação de Díaz evita a ação explosiva e potencialmente exploratória.>
"A saga de Magalhães é épica", explica. "Mas eu não queria fazê-la da maneira convencional, com espetáculo.">
Apesar dos defeitos de Magalhães, Díaz não estava interessado em demonizá-lo.>
"Eu queria ver um personagem real", insiste Díaz. "Um ser humano real é ambicioso e sonha, não apenas para si mesmo ou para sua família. Ele acreditava firmemente na fé cristã.">
Além de ser considerado o primeiro europeu a entrar em contato com as Filipinas, Magalhães também foi responsável por introduzir o catolicismo na região.>
O Santo Niño, uma estátua que Magalhães presenteou ao cacique local Rajah Humabon e que supostamente proporcionou a cura milagrosa de crianças doentes daquela comunidade, "continua sendo o maior ícone do país", afirma Díaz.>
Hoje em dia, 93% da população filipina é cristã.>
A abordagem de Díaz para desmistificar o personagem também se aplicou ao mistério da morte de Magalhães na chamada Batalha de Mactán.>
Pigafetta afirmou em seu diário que, enquanto 2.000 guerreiros malaios enfrentavam os 60 sobreviventes da tripulação, Lapulapu, outro cacique local, deu morte ao conquistador.>
Díaz não estava tão convencido: "Para mim, é uma espécie de caso sem solução, porque sempre aceitam o que Pigafetta disse, que Lapulapu matou Magalhães, mas ninguém viu".>
Na versão de Díaz, Lapulapu é, na verdade, uma invenção fictícia de Humabon, um suposto bebedor de sangue quase sobrenatural que Humabon conjurou para assustar Magalhães e seus homens.>
"Humabon não queria se converter [ao cristianismo]", diz Díaz. "E então Magalhães disse que [Humabon] morreria em dois dias, porque tinha um decreto que determinava que quem não quisesse se converter deveria morrer".>
No filme, não se vê Magalhães sendo assassinado por uma pessoa específica, mas se insinua que foi um esforço coletivo dos homens de Humabon.>
Essa sugestão de que Lapulapu não é uma figura real gerou controvérsia nas Filipinas quando o filme foi lançado em setembro passado.>
Isso se deve ao seu status lendário: segundo o Dr. Danilo M. Gerona, historiador e autor de FerdinandMagellan: TheArmada de MalucoandtheEuropeanDiscovery of the Philippines (2016), Lapulapu foi durante muito tempo um símbolo do nacionalismo filipino, como evidenciam monumentos, insígnias e nomes de localidades que lhe prestam homenagem, apesar de que a maior parte do que sabemos sobre ele provém de relatos apócrifos, lendários e populares extraídos de tradições orais.>
Por essa razão, recebe pouca atenção entre os acadêmicos.>
No entanto, o filme de Díaz levou dois historiadores anônimos a se manifestarem no jornal filipino The Freeman para refutar sua interpretação do personagem.>
O próprio Magalhães teve uma reputação semelhante e constantemente questionada nas Filipinas.>
Outrora reconhecido como um "defensor da fé católica", segundo Gerona, tornou-se cada vez mais impopular com a ascensão do nacionalismo durante o mandato do presidente Rodrigo Duterte entre 2016 e 2022, e agora é vilipendiado pelas "gerações mais jovens" em meio a um crescente sentimento "antiocidental".>
Seu papel na história filipina também é amplamente debatido.>
O historiador e ex-presidente da comissão histórica nacional das Filipinas, Ambeth Ocampo, afirmou: "Magalhães não deve ser visto como o início da história filipina, mas como um acontecimento de uma história que ainda precisa ser escrita e reescrita para uma nova geração".>
Não surpreende que, com séculos de retrospectiva, o legado de um explorador como Magalhães seja complexo e que até mesmo suas intenções continuem sendo questionadas.>
"Magalhães não pretendia circunavegar o globo", afirma Oliveira e Costa.>
No entanto, entre suas realizações, diz ele, Magalhães "descobriu a conexão entre os oceanos Atlântico e Pacífico, assim como a grande dimensão deste último".>
"Foi depois de sua expedição que os cartógrafos puderam criar planisférios [mapas-múndi que mostram uma visão da superfície terrestre] com os três grandes oceanos, e as elites finalmente se deram conta do tamanho do planeta.">
No final do filme, é a perspectiva conflituosa de Enrique de Malaca, mais do que a de Magalhães ou de seu co-capitão Elcano, que encerra a história: ele admite com pesar ter contribuído para o massacre de portugueses e espanhóis ainda retidos na ilha de Mactán, ao mesmo tempo em que reflete sobre a violência colonial exercida contra ele e outros malaios.>
Díaz espera que seu filme incentive um diálogo sobre a viagem de Magalhães que seja "mais equilibrado, mais inclusivo, de certa forma, não apenas a partir da perspectiva dominante, a dos europeus".>
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