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'Estou dilacerado': o relato do guia em vulcão que entrou em erupção e matou 3 na Indonésia

Um guia indonésio que conduziu trilheiros até o Monte Dukono descreveu o momento da erupção na semana passada, que matou três pessoas.

Publicado em 12 de Maio de 2026 às 07:34

BBC News Brasil

Publicado em 

12 mai 2026 às 07:34
Imagem BBC Brasil
O Dukono foi classificado como vulcão de nível 2 na Indonésia — em que há um aumento claro da atividade vulcânica, ameaça de erupção, e com o público proibido de acessar certas áreas Crédito: EPA
Um guia que liderou um grupo em uma subida a pé até o Monte Dukono, na Indonésia, descreveu o momento angustiante em que foram eles foram surpreendidos por uma erupção na semana passada, que matou três pessoas.
O indonésio Reza Selang escapou por pouco de ser esmagado por uma grande rocha expelida da cratera, que caiu sobre outras duas pessoas ao seu lado.
“Não há palavras. Até agora, ainda me sinto dilacerado, ainda não consigo acreditar... no momento, estou profundamente arrasado”, disse ele à BBC por telefone na segunda-feira (11/5).
Autoridades indonésias disseram que duas pessoas de Singapura e uma da Indonésia foram mortas na erupção. Outros foram evacuados com segurança da montanha localizada na ilha Halmahera, em Maluku do Norte.
O grupo de 20 trilheiros, composto por singapurianos e indonésios, havia subido até o cume apesar de alertas prévios contra esse tipo de atividade.
O vulcão entrou em erupção mais de 200 vezes desde o final de março. As autoridades disseram que desde 17 de abril haviam proibido a concessão de licenças de escalada para o Monte Dukono e que o público estava proibido de acessar uma área a 4 km da cratera.
Eles também disseram que já haviam postado avisos nas redes sociais e banners nas entradas das trilhas.
Reza, no entanto, disse que não sabia de tudo isso quando iniciou a subida.
Moradores locais que ele emprega regularmente para ajudá-lo a acompanhar grupos até o Dukono também não lhe disseram nada sobre a proibição, acrescentou.

'Pedras caindo à nossa esquerda e direita'

Reza administra uma empresa de turismo em Maluku do Norte. Ele disse que foi contatado no ano passado por Timothy Heng, um singapuriano que organiza expedições de aventura, para guiar um grupo de trilheiros até o Dukono e outras montanhas da região.
Quando o grupo começou a escalar Dukono na tarde da quinta-feira da semana passada, “não havia sinais de atividade vulcânica", segundo ele, "Não havia erupção nem nada. Nada.”
Na manhã seguinte, o vulcão também estava calmo quando eles chegaram ao cume, lembrou Reza. Quando ele enviou um drone para verificar a cratera, "não havia nenhuma atividade visível, não havia fumaça também".
Ele disse ao grupo que eles poderiam se aproximar da cratera desde que garantissem que desceriam logo em seguida. Ao todo, 14 trilheiros, incluindo Heng, subiram, enquanto Reza e os demais permaneceram abaixo.
Às 7h40 do horário local, disse Reza, ele pilotou o drone para monitorar o grupo. Um minuto depois, a montanha entrou em erupção.
“Em um minuto, houve duas erupções. A primeira erupção só liberou fumaça. Talvez cerca de 15 ou 20 segundos depois, a segunda erupção aconteceu e liberou todo o material [vulcânico]”, disse ele.
Reza afirmou que o grupo se dispersou e correu montanha abaixo. Usando a câmera do drone, ele avistou uma pessoa — o singapuriano Shahin Muhrez bin Abdul Hamid — deitada no chão perto da cratera.
Reza recolheu o drone e subiu para resgatar Shahin. Heng, que inicialmente havia escapado com o grupo, também voltou correndo.
Os dois homens arrastaram Shahin para baixo enquanto "pedras caíam à nossa esquerda e à nossa direita", lembrou Reza.
Então, a cratera lançou uma rocha com cerca de 2 metros de largura, que começou a quicar em direção a eles.
“Timothy voltou e em apenas uma fração de segundo ele imediatamente abraçou Shahin”, lembrou Reza. A rocha caiu sobre Heng e Shahin, esmagando-os instantaneamente.
Reza congelou. “Eu simplesmente fiquei parado. Talvez por cerca de um minuto.” Depois, ele saiu correndo montanha abaixo, para se salvar.
Imagem BBC Brasil
Equipes de resgate recuperaram o corpo de um dos trilheiros no sábado Crédito: EPA
O guia alertou as autoridades, que imediatamente iniciaram uma operação de busca e resgate pelos dois singapurianos e por uma terceira pessoa desaparecida, a indonésia Angel Krishela Pradita.
Junto com outro membro da equipe, Reza permaneceu no local para ajudar nas buscas.
O corpo de Angel acabou sendo encontrado perto do cume no sábado. Os restos mortais de Heng e Shahin Muhrez foram recuperados no domingo.
Em um vídeo fornecido à BBC por autoridades de resgate, trabalhadores podem ser vistos cavando uma espessa camada de cinzas vulcânicas negras sob uma grande rocha e retirando fragmentos de ossos.
Os trilheiros sobreviventes foram levados a um hospital próximo para tratar seus ferimentos, e os demais singapurianos retornaram para casa posteriormente.

'Possível negligência'

Desde o incidente de sexta-feira da semana passada, as autoridades fecharam permanentemente todas as entradas do Monte Dukono e alertaram que quaisquer violações da proibição de escalada estariam sujeitas a sanções.
As autoridades também disseram que estão investigando o incidente e sugeriram que pode ter havido “possível negligência por parte de operadores turísticos ou indivíduos”.
Reza disse que foi interrogado pela polícia local e entregou as imagens do drone a eles como prova.
Em um comunicado, a polícia de North Halmahera disse que a expedição de escalada “é fortemente suspeita de violar os regulamentos” e que havia interrogado duas pessoas — uma das quais tem as mesmas iniciais de Reza — associadas à empresa de turismo de Reza.
Neste momento, os dois homens são considerados testemunhas do incidente, mas “os investigadores continuam examinando o papel de cada indivíduo na organização da perigosa escalada”. Segundo o comunicado da polícia, não haverá tolerância para “pessoas cuja negligência tenha causado a perda de vidas de turistas”.
“Quaisquer que sejam as consequências legais, eu tenho que aceitá-las, esteja eu pronto ou não. Só espero que acabe rapidamente”, disse Reza.
Embora tenha insistido que não estava ciente da proibição de escalada, ele disse que sabia que Dukono havia sido classificado como nível 2 no sistema de alerta de vulcões de quatro níveis da Indonésia.
Um vulcão de nível 2 é aquele em que há um aumento claramente observável da atividade vulcânica e há a ameaça de uma erupção — com o público proibido de acessar certas áreas.
A Indonésia experimenta frequentes terremotos e atividades vulcânicas devido à sua posição no Círculo de Fogo do Pacífico, onde as placas tectônicas colidem.
Imagem BBC Brasil
O Dukono, em uma imagem de satélite tirada no mês passado, entrou em erupção mais de 200 vezes desde o final de março Crédito: Getty Images
Ainda assim, Reza disse que continuou a escalar Dukono “quase todos os meses” porque, segundo ele, “na Indonésia, montanhas de nível 2, como o Rinjani, ainda permitem atividades de caminhada”.
O Monte Rinjani, um dos destinos de caminhada mais famosos da Indonésia, tem um status de nível 2 e uma proibição de atividades realizadas perto de sua cratera.
No ano passado, a brasileira Juliana Marins, de 26 anos, morreu durante uma trilha no monte Rinjani. Juliana caiu em um desfiladeiro enquanto fazia o percurso rumo ao cume do vulcão. Ela foi encontrada morta no quarto dia das buscas.
Enquanto Reza aguarda a conclusão das investigações sobre o incidente de sexta-feira, ele continua enfrentando seus arrependimentos e culpa.
“É claro que há muitos arrependimentos, muitos 'e se'. E se não tivéssemos subido, e se eu não tivesse aceitado [o trabalho]... Tantas hipóteses, tantas", disse.
“Eu me sinto muito culpado em relação às vítimas e suas famílias... Sinto que quero ir [para Singapura] e me ajoelhar aos pés dos pais das vítimas. Eu quero me desculpar.”
Este texto foi traduzido e revisado por nossos jornalistas utilizando o auxílio de IA, como parte de um projeto piloto.

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