Publicado em 9 de setembro de 2022 às 07:03
Arte e política vivem em constante sinergia. Sempre foi assim. Poucas foram, no entanto, as figuras políticas que se firmaram como onipresentes no cinema, na televisão, no teatro, na música e na literatura do jeito que a rainha Elizabeth 2ª, morta nesta quinta-feira (8), fez.>
Políticos eleitos, afinal, vêm e vão. Produtos culturais podem até capturar, direta ou indiretamente, o impacto de suas trajetórias na vida dos personagens sobre os quais se debruçam, mas estes costumam ser retratos efêmeros, de um local e época específicos.>
Com a monarca mais longeva da história, foi diferente. Foram 70 anos no trono britânico, durante os quais ela foi retratada, parodiada, celebrada, criticada e problematizada nas mais diversas áreas da cultura.>
Em parte, isso se deve ao charme inerente da coroa em sua cabeça, num mundo que diminuiu à inexpressividade boa parte das monarquias, mas não a britânica. Mas isso também é mérito da força cativante de alguém que cumpriu compromissos oficiais até dois dias antes de morrer.>
>
Esse vigor talvez tenha sido capturado com maior primazia pela franquia "007" – o que é curioso, já que ninguém nunca a interpretou nos filmes do agente secreto. Seu reinado, no entanto, sempre pairou sobre as missões perigosas e por vezes estapafúrdias de James Bond.>
Todos os 25 filmes oficiais da saga foram lançados em seu reinado, e um deles até faz alusão a ela no título, "A Serviço Secreto de Sua Majestade", de 1969. Muitos gostam de mensurar a longevidade da monarca pelo número de primeiros-ministros que a acompanharam, mas uma escala igualmente interessante é a de intérpretes de Bond – foram seis os atores que a rainha, provavelmente, viu pedirem dry martini nas telas.>
Talvez pelo retrato um tanto chapa-branca que "007" faz da monarquia e da sociedade britânica, a relação da família real com a franquia sempre foi de proximidade. Elizabeth esteve em várias estreias dos filmes e, nas Olimpíadas de 2012, chegou à abertura saltando de paraquedas – era um dublê, claro, mas que seguiu uma ponta dela como atriz, num vídeo com Daniel Craig.>
Isso não quer dizer que as lentes das câmeras foram completamente bondosas, no entanto. Basta ver um dos grandes fenômenos do streaming atualmente, a série "The Crown". Não que a rainha seja retratada como vilã, mas os episódios revelam uma figura humana, falha, por meio de um olhar que dificilmente se destina a símbolos tão inalcançáveis quanto a monarquia.>
Nas duas primeiras temporadas, Claire Foy interpretou uma rainha insegura e que por vezes soou arrogante. Na terceira e na quarta, Olivia Colman encarnou a frieza e indiferença de uma mãe preocupada mais com o que os filhos transpareciam do que o que realmente sentiam.>
A partir de novembro, Imelda Staunton assume a personagem, e deve navegar por tempos turbulentos e que minaram a popularidade da realeza, como a morte da princesa Diana.>
Este, inclusive, foi o objeto de estudo de Stephen Frears no longa "A Rainha", o melhor e mais complexo retrato que Elizabeth 2ª já ganhou nas telas. A trama foi um curioso exercício do que teria se passado nos aposentos e escritórios privados da monarca após o acidente que vitimou a princesa do povo, e a pintou um tanto como megera.>
Helen Mirren venceu um Oscar pelo papel monárquico, que reprisou na peça "The Audience", que por sua vez lhe rendeu um Tony.>
Em "Spencer", outro longa interessado na passagem avassaladora de Diana pela família real, Stella Gonet fez uma rainha igualmente austera e avessa ao humor, mas se permitiu um olhar de delicadeza e, de certa forma, até de sororidade para a princesa interpretada por Kristen Stewart.>
Divertidos foram os retratos joviais que "O Discurso do Rei" e "Uma Noite Real" teceram, o primeiro mostrando a monarca na infância e o segundo, na adolescência, imaginando como teria sido uma suposta fuga do Palácio de Buckingham para comemorar a vitória na Segunda Guerra Mundial.>
Sem nem saber, Elizabeth 2ª ainda fez rir com "Os Simpsons", "Saturday Night Live" e "Austin Powers em O Homem do Membro de Ouro". Conquistou os pequenos nas animações "Carros 2" e "Corgi: Top Dog". E fez a realeza da dramaturgia ir à realeza de fato, com Mirren e também Emma Thompson, num episódio de "Playhouse Presents".>
Há mais uma infinidade de filmes e séries que, diretamente ou não, atravessaram a vida de Elizabeth 2ª. Ela encerra seu reinado não apenas como uma figura política, mas também como um símbolo inquestionável da cultura pop dos séculos 20 e 21.>
A monarca foi como um personagem muito bem escrito, tão fascinante e atemporal quanto qualquer outro daqueles que entraram para a história de Hollywood.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta