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Elas iam ser freiras, hoje estão casadas: 'Deus foi nosso cupido'

Francília Costa e Luiza Silvério se conheceram no convento, saíram por motivos de saúde mental e se apaixonaram dividindo apartamento.

Publicado em 21 de Maio de 2026 às 08:32

BBC News Brasil

Publicado em 

21 mai 2026 às 08:32
Imagem BBC Brasil
No começo, Francília Costa e Luiza Silvério, hoje casadas, não se deram bem: 'Caramba, que freirinha metida!' Crédito: Arquivo Pessoal
Francília Costa e Luiza Silvério se conheceram em um convento e, no começo, não foram com a cara uma da outra. Luiza lembra com bom humor da vez em que viu Fran pela primeira vez.
"Caramba, que freirinha metida, que freirinha nojenta!", diz à BBC News Brasil, aos risos.
O sentimento de antipatia foi mútuo.
"Sabe quando você não vai com a cara da pessoa? Tipo, sem motivo algum?", diz Fran. "E eu pensando a mesma coisa dela. Gente, como que uma menina é tão metida como essa?"
Ambas entraram no convento por volta dos 20 anos por motivos parecidos. Luiza conta que sentia um "vazio" na sua adolescência em Minas Gerais e um chamado para cumprir uma missão. Fran foi criada por avós muito religiosos no interior do Piauí e também sentia que tinha uma missão religiosa na vida.
Com o tempo, a antipatia mútua passou, e nasceu uma amizade entre as duas.
"A gente entrou no convento com um propósito e esse propósito era servir a Deus", diz Luiza.

Saída do convento

Mas após alguns anos, e por motivos pessoais distintos, relacionados à saúde mental, tanto Luiza quanto Fran acabaram abandonando a vida religiosa.
Luiza perdeu a avó materna e, a partir daí, começou a enfrentar episódios intensos de ansiedade, que resultaram em um diagnóstico de depressão. Nesse período, ela vivia uma etapa da formação religiosa que exigia uma rotina muito intensa de estudos e atividades externas à comunidade. Com o tratamento e o processo de entendimento da própria saúde mental, ela entendeu que precisava cuidar de si — e tomou a decisão de deixar a vida religiosa.
Fran percorreu um caminho parecido. Durante a pandemia de covid, ela começou a sentir medos excessivos — de contrair o vírus, de espalhar a doença ou de receber notícias ruins de parentes e amigos. Nessa época, ela foi diagnosticada com síndrome do pânico, um distúrbio caracterizado por crises repentinas e intensas de medo, acompanhadas de sintomas físicos e emocionais.
Como parte do tratamento, nas sessões de terapia, ela passou a se questionar sobre sua rotina no convento.
"A vida religiosa é uma vida muito linda, mas você precisa ter saúde física e mental. Não basta só saber rezar, não basta ter vocação. E naquele ponto em que eu estava vivendo, a minha saúde mental já tinha ido", diz.
Imagem BBC Brasil
Ambas decidiram sair do convento por motivos pessoais distintos, relacionados à saúde mental Crédito: Arquivo Pessoal
Mas Fran tinha pânico só de pensar em sair do convento. Foi em conversas com Luiza que ela criou coragem para dar o passo definitivo.
"A Luiza também precisou cuidar da saúde mental dela. E quando ela decidiu sair, foi para mim um choque. Eu pensei: 'Meu Deus do céu! Uma menina dessa idade tendo a capacidade de pensar em recomeçar a vida seja onde for e eu não consigo pensar em recomeçar, sendo que eu vivi muito mais fora daqui do que aqui dentro'".

Nova vida

Logo as duas se viram com diversos problemas práticos. Fran precisou comprar roupas novas para poder sair do convento, porque todas as suas roupas eram da vida missionária.
"Você não sabe se vai conseguir fazer uma faculdade ou se vai conseguir arrumar um emprego, porque é difícil. Não é fácil a vida aqui fora", diz Luiza.
Fran concorda.
"Imagina em uma entrevista de emprego, a pessoa pergunta: qual sua formação? 'Teologia'. Vou trabalhar aonde?"
O maior dos problemas financeiros era pagar aluguel. Por isso, resolveram dividir um apartamento, ainda como amigas — e foi nessa época que a amizade acabou virando amor.
Foi Fran quem tomou a iniciativa. Ela decidiu abrir o coração para Luiza depois de assistir a uma comédia romântica — Amor em Verona — em que os protagonistas começam se odiando, e depois se apaixonam. O sentimento entre as duas era mútuo, e a amizade virou namoro, que virou casamento.
Imagem BBC Brasil
Ela abriu o coração para Luiza depois de assistir a uma comédia romântica, Crédito: Arquivo Pessoal
Ambas seguem sendo católicas muito praticantes, e dizem que o senso de missão que fez elas entrarem para o convento no passado agora segue em outro lugar: nas redes sociais.
Elas compartilham nas redes sociais o seu cotidiano e os detalhes dessa trajetória incomum, de colegas de convento a casadas.
Com o tempo, passaram a receber cada vez mais perguntas de internautas diversos — tanto de cristãos com questões sobre a própria sexualidade, como de pessoas que são LGBT, mas que têm medo de se aproximar da fé.
"Isso começou a fortalecer mesmo esse desejo de falar sobre a nossa história de uma forma aberta, sobre a nossa sexualidade, sobre a nossa fé que fez todo sentido e que hoje ajuda muitas pessoas", diz Luiza.
Além de criadoras de conteúdo no Instagram, hoje as duas são microempreendedoras. Luiza atua no ramo imobiliário, com consultoria documental, e Fran trabalha com gestão e estratégia de marketing digital.

'O convento não foi uma fuga da sexualidade'

Há uma interpretação comum sobre a história delas que Luiza faz questão de corrigir — a de que a saída do convento foi a única forma de viver uma sexualidade oprimida.
"É o que a gente mais ouve: 'Ah, entraram no convento pra fugir da sexualidade, depois saíram porque foram buscar outra coisa'. Mas na verdade não", diz Luiza. "Na época a gente estava focada na questão de servir a Deus, de seguir mesmo os passos que Ele traçou".
Imagem BBC Brasil
'Quando entrei no convento, eu não queria me relacionar com ninguém. Queria realmente viver o celibato, seguir na religião, na Igreja", diz Luiza Crédito: Arquivo Pessoal
Antes de entrar para a vida missionária, ambas se enxergavam como bissexuais — e isso não influenciou a decisão de entrada. "Isso não nos levou a ter medo de Deus ou a ter medo de estar ali dentro."
"Eu não queria me relacionar com ninguém. Eu queria realmente viver o celibato, seguir na religião, na Igreja", diz Luiza. "Eu não ficava pensando na possibilidade de sair e me relacionar com alguém."
Fran concorda. "Não dava tempo de pensar em nada além daquilo", diz. "Essa também foi a dificuldade de deixar a vida lá dentro. Entrar foi muito fácil; sair foi a coisa mais difícil que enfrentei."
Mais tarde, quando foram morar juntas e descobriram o sentimento amoroso uma pela outra, outros dilemas surgiram.
Não com seus familiares: "A gente nunca precisou enfrentar essa repressão dentro dos nossos lares, como a gente sabe que é a realidade de muitas pessoas da comunidade LGBT." O acolhimento das famílias, dizem elas, sempre foi uma das maiores bênçãos da história delas. As primeiras a saber foram as irmãs de cada uma.
Os dilemas eram de ordem religiosa. Como continuar praticando a fé dentro de um catolicismo que não reconhece o relacionamento que elas começavam a construir?
A resposta, diz Luiza, veio aos poucos. "É uma coisa que eu e a Fran conversamos muito aqui em casa: não dá para separar o Jesus humano e o Jesus Deus. Ele é um só. E a nossa sexualidade e a nossa fé não deve ser separada, porque ela está em nós. Nós somos um casal que tem fé — não tem como a gente separar isso."
Imagem BBC Brasil
'Para nós, Nossa Senhora Aparecida representa gratidão, intercessão e a consagração da nossa família a Deus' Crédito: Arquivo Pessoal

Um novo senso de 'missão'

Fran e Luiza também participam do Diversidade Católica, uma rede formada por grupos, pastorais e movimentos de católicos LGBTQIA+. "Esse espaço fortalece ainda mais nossa caminhada de fé enquanto pessoas e casal", diz Luiza.
No dia do casamento, estiveram presentes amigas da época do convento que hoje também estão fora da vida religiosa. Não houve a presença de religiosos na cerimônia, embora elas ainda mantenham contato com freis e freiras dessa época. "Recebemos muito carinho, mensagens e orações dedicadas a nós e ao nosso dia."
"Talvez não tenhamos uma foto no altar de uma igreja, mas temos uma foto com Nossa Senhora Aparecida. Para nós, ela representa gratidão, intercessão e a consagração da nossa família a Deus", diz Luiza.
Nas redes sociais, nem todas as perguntas que Fran e Luiza recebem dos seguidores são ligadas necessariamente à sexualidade e religião.
"Tem muita gente hétero que não é da comunidade [LGBT] e que está dentro do convento e vive esse martírio porque quer sair — não sente o chamado, quer viver aqui fora. Às vezes até quer a vida missionária, mas não dentro de um convento ou de um seminário. Mas tem medo de sair porque não sabe se vai conseguir fazer uma faculdade ou arrumar um emprego. Porque não é fácil a vida aqui fora. A vida religiosa é linda, mas ela também é muito confortável."
Hoje esse trabalho junto a internautas virou uma nova missão.
"A nossa missão é estar aqui para ouvir relatos e ajudar pessoas", diz Fran. "Um dos maiores desafios quando a gente trabalha por meio de redes sociais é esse saber ouvir e saber falar."
Imagem BBC Brasil
Um casal de fotógrafos que havia conhecido a história de Luiza e Fran entrou em contato para oferecer a cobertura do casamento de presente Crédito: Arquivo Pessoal
Na vida pessoal, Fran se diz especialmente orgulhosa porque sempre quis constituir uma família, mas nunca tinha encontrado o formato de família que ela queria.
"Por incrível que pareça, se existe cupido no mundo, o nosso foi Deus", diz ela.
"Porque é uma coisa que eu sempre falava: 'se um dia eu tiver que construir uma família, Deus vai me apresentar o modelo de família que ele quer que eu construa'. Então... aqui estamos."

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