Publicado em 21 de março de 2026 às 16:34
O jornal Wall Street Journal e a rede televisiva CNN noticiaram durante a noite de sexta-feira (20/3) que o Irã lançou de mísseis balísticos contra a ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico, citando autoridades americanas não identificadas.>
Nenhum dos disparos teria atingido o alvo. Um dos mísseis lançados teria falhado em voo, enquanto o outro foi interceptado por um navio de guerra americano. Não está claro quando eles foram lançados.>
A BBC confirmou as informações. Os militares americanos se recusaram a comentar o incidente.>
Uma ilha remota no arquipélago de Chagos, no Oceano Índico, Diego Garcia fica a cerca de 3.780 km do Irã. Até então, acreditava-se que o Irã possuía mísseis balísticos de alcance intermediário, capazes de viajar até 2.000 km.>
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No entanto, alguns analistas militares, incluindo os do Centro de Pesquisa e Educação Alma, de Israel, o míssil Khorramshahr do Irã pode ter um alcance de até 2.900 km.>
A tentativa de ataque aéreo ocorreu antes de o Reino Unido concordar em permitir que os EUA usassem bases militares britânicas para atingir alvos iranianos que visam navios no Estreito de Ormuz.>
Diego Garcia abriga uma base militar secreta conjunta do Reino Unido e dos EUA, cujo acesso é altamente restrito. A BBC esteve na ilha em 2024. Leia a seguir uma história resumida do território e um relato do que a equipe encontrou durante a visita.>
O Reino Unido assumiu o controle do arquipélago de Chagos, do qual Diego Garcia faz parte, em 1965 — ele pertencia às Ilhas Maurício, sua então colônia.>
Posteriormente, desalojou sua população de mais de mil habitantes para instalar a base militar.>
Acordos assinados em 1966 permitiram um período inicial de 50 anos de utilização do território pelos Estados Unidos, e mais 20 anos de prorrogação. O acordo foi renovado em 2016, e agora vai expirar em 2036.>
Este território é administrado a partir de Londres, mas é descrito como "constitucionalmente distinto" do Reino Unido.>
As Ilhas Maurício, que conquistaram sua independência em 1968, reivindicam o atol como seu, e o mais alto tribunal da Organização das Nações Unidas (ONU) determinou que a administração britânica é "ilegal" — e deve acabar.>
A maior parte da força de trabalho e dos recursos de Diego Garcia está sob controle dos Estados Unidos, desde o transporte e as acomodações até restaurantes e lojas.>
O comando militar americano pode negar o acesso a áreas operadas ou controladas pelos militares por razões de segurança.>
O site da administração britânica no Oceano Índico (Biot) indica que o acesso só é permitido "a quem tem contato com a instalação militar ou com a administração do território".>
Diego Garcia é considerada uma base estratégica para os Estados Unidos.>
No início de 2024, dois bombardeiros B-52 foram enviados para lá para realizar exercícios de treinamento.>
Nas últimas décadas, aviões americanos partiram desta base para bombardear o Afeganistão e o Iraque.>
O governo do Reino Unido confirmou que, em 2002, "voos de rendição" — utilizados para transportar suspeitos de terrorismo para outros países onde podem ser detidos e interrogados com menos restrições legais — pousaram no território.>
Mike Hayden, ex-diretor da CIA, a agência de inteligência americana, negou as acusações de que suspeitos de terrorismo foram abrigados ou interrogados em Diego Garcia.>
Dezenas de pessoas da etnia tâmil, do Sri Lanka, desembarcaram na ilha em outubro de 2021, tornando-se as primeiras pessoas a apresentar solicitações de asilo neste território britânico.>
Quando a BBC esteve na ilha, em 2024, cerca de 60 pessoas, incluindo pelo menos 16 crianças, permaneciam lá enquanto complexas batalhas legais eram travadas sobre seu destino.>
Elas estavam alojadas em tendas dentro de um acampamento cercado e vigiado pela empresa de segurança privada G4S.>
Houve uma série de tentativas de suicídio na ilha, e relatos de assédio e violência sexual supostamente cometidos por migrantes dentro do acampamento.>
Alguns migrantes foram transferidos para Ruanda para receber tratamento médico após tentativas de automutilação e suicídio, enquanto aqueles cujas solicitações foram aceitas aguardavam que fosse designado um "terceiro país seguro" para se restabelecerem.>
Após uma visita ao acampamento em 2023, representantes da ONU consideraram que as condições ali equivaliam a uma detenção arbitrária.>
Em entrevista à BBC, os migrantes descreveram as condições na ilha como infernais.>
"Somos como papagaios, estamos numa gaiola", protestou um deles, fazendo referência à falta de liberdade.>
O Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido disse anteriormente à BBC que a ilha não é adequada para essas pessoas viverem, e afirmou que estava "trabalhando incansavelmente para processar os pedidos de proteção dos migrantes e encontrar um terceiro país adequado para aqueles cujas solicitações são aceitas".>
"O bem-estar e a segurança dos imigrantes no Biot têm sido nossa principal prioridade a todo momento", acrescentou.>
A atmosfera na ilha é relaxada. Soldados se deslocam de bicicleta, e pessoas jogam tênis e praticam windsurf no sol do final da tarde. >
Camisetas e canecas com a marca Diego Garcia estão à venda na ilha.>
Mas também há lembretes constantes da base sensível que está aqui. Exercícios militares podem ser ouvidos no início da manhã, e há um prédio cercado identificado como um arsenal.>
O tempo todo, oficiais militares americanos e britânicos mantêm um olhar atento sobre os movimentos da base. A ilha tem uma beleza natural impressionante, com vegetação exuberante e praias de areia branca, e também abriga o maior artrópode terrestre do mundo - o caranguejo-dos-coqueiros. >
Militares alertam para os perigos dos tubarões nas águas circundantes.>
Mas também existem indícios que apontam para seu passado brutal.>
Quando o Reino Unido assumiu o controle das Ilhas Chagos, procurou expulsar rapidamente sua população de mais de mil pessoas para dar lugar à base militar.>
Pessoas escravizadas foram trazidas para as Ilhas Chagos de Madagascar e Moçambique para trabalhar em plantações de coco sob o domínio francês e britânico. >
Nos séculos seguintes, desenvolveram sua própria língua, música e cultura. Em 1967, começou a expulsão de todos os residentes das Ilhas Chagos. Cães, incluindo animais de estimação, foram recolhidos e mortos. Chagossianos descreveram terem sido conduzidos a navios de carga e levados para Maurício ou Seychelles.>
O Reino Unido concedeu cidadania a alguns chagossianos em 2002, e muitos deles foram morar no Reino Unido.>
Em depoimento prestado ao Tribunal Internacional de Justiça anos depois, a chagossiana Liseby Elysé disse que as pessoas no arquipélago viviam uma "vida feliz" que "não lhes faltava nada" antes das expulsões.>
"Um dia, o administrador nos disse que tínhamos que deixar nossa ilha, deixar nossas casas e ir embora. Todos ficaram infelizes. Mas não tínhamos escolha. Eles não nos deram nenhum motivo", disse ela. >
"Ninguém gostaria de ser arrancado da ilha onde nasceu, ser arrancado como animais.">
Os chagossianos lutam há anos para retornar à sua terra.>
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