Publicado em 26 de outubro de 2024 às 10:28
Foi um telefonema de uma menina de 13 anos da Escócia realizado em 2019 que eventualmente levou à captura de um predador descrito como um dos abusadores de crianças mais prolíficos do mundo.>
Atenção: a reportagem a seguir contém informações e relatos sensíveis sobre pedofilia e suicídio.>
Alexander McCartney, da Irlanda do Norte, fingiu ser adolescente para fazer amizades — e depois abusar e chantagear crianças ao redor do mundo, frequentemente compartilhando as imagens com outros pedófilos.>
Algumas das crianças tinham apenas quatro anos. Outras nunca haviam contado a ninguém o que tinham passado — até que a polícia bateu na porta de McCartney.>
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Aos poucos, ele admitiu 185 acusações, incluindo homicídio culposo, depois que uma menina de 12 anos que ele estava abusando tirou a própria vida.>
Ele ficará preso por um período de, no mínimo, 20 anos.>
Após o primeiro contato com a polícia na Escócia, uma investigação urgente do Serviço Policial da Irlanda do Norte (PSNI) entrou em operação a partir março de 2019.>
Os detetives identificaram o endereço residencial de Alexander McCartney, o prenderam e o entrevistaram.>
No total, em quatro batidas policiais, 64 dispositivos foram apreendidos na casa dele, que fica na área rural de Newry, a quarta maior cidade da Irlanda do Norte. >
Esses aparelhos continham centenas de milhares de fotos e vídeos explícitos de meninas menores de idade, que realizavam atos sexuais enquanto eram chantageadas.>
McCartney criou e usou muitas contas falsas em plataformas online para encurralá-las e manipulá-las. Um dos sites que ele mais atuou foi a rede social Snapchat.>
O detetive-chefe do PSNI, Eamonn Corrigan, disse que McCartney causada ofensas criminais "em escala industrial".>
Ele induziu as vítimas a pensar que estavam conversando com uma garota da mesma idade, antes de incentivá-las a enviar imagens indecentes ou se envolver em atividades sexuais pelas câmeras do celular ou do computador.>
Segundo o detetive, McCartney usou o mesmo padrão todas as vezes. "Ele ameaçou compartilhar essas imagens na internet para o prazer de outros pedófilos e usou esse material para abusar e assediar ainda mais as crianças já aterrorizadas e exploradas", diz Corrigan.>
Em um episódio, McCartney levou apenas nove minutos para aliciar, abusar sexualmente e chantagear uma menina de apenas 12 anos de idade.>
Com o passar do tempo, ficou claro que a depravação de McCartney não se estendia apenas pelo Reino Unido, mas por mundo todo. >
Os episódios de abuso envolviam não apenas a vítima, mas também animais de estimação e objetos da família.>
O PSNI trabalhou com colegas do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, do Ministério Público e da Agência Nacional de Crimes. >
A investigação revelou que as vítimas estavam espalhadas por EUA, Nova Zelândia e pelo menos 28 outros países.>
Muitas dessas crianças foram identificadas apenas por meio das evidências que os detetives localizaram nos dispositivos de McCartney.>
De acordo com a polícia, ele "construiu um empreendimento pedófilo" e "roubou a infância" das vítimas.>
Na primavera de 2019, a polícia da Irlanda do Norte convocou Catherine Kierans, chefe interina da unidade de crimes graves do Ministério Público local.>
Segundo Kierans, eles disseram que algo "grande estava acontecendo relacionado com catfishing".>
Catfishing é um termo em inglês usado para descrever o caso de uma pessoa que cria uma identidade falsa para ganhar a confiança das vítimas e, a partir disso, explorá-las.>
Kierans conta que meninas "com idade média de 10 a 12 anos eram ameaçadas da maneira mais depravada".>
Ela disse que algumas das crianças exploradas já haviam contado sobre os episódios de abuso, enquanto outras permaneceram em silêncio.>
"Algumas das crianças deram o alarme, o que ajudou a polícia a realmente identificar [o criminoso].">
"Mas algumas das crianças, até a polícia bater na porta, nunca tinham contado a ninguém o que passaram", complementa Kierans.>
De acordo com ela, McCartney fazia o catfishing "o tempo todo".>
À medida que a investigação evoluía, Kierans detalhou que os promotores perceberam que McCartney tinha o costume frequente de salvar as imagens nos dispositivos. >
"Em alguns cass, ele também salvava o mapa no Snapchat de onde a criança estava. Isso permitiu que a polícia localizasse essas vítimas.">
A acusação de McCartney aconteceria em 2021, mas foi adiada quando a polícia descobriu um episódio de suicídio de uma menina no Estado da Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos.>
"Desde o início, o nível de abuso era tão horrível que temíamos se as crianças identificadas estavam bem", admite Kierans.>
"Infelizmente, nossos piores medos se concretizaram quando descobrimos, de alguma forma, que uma das meninas havia tirado a própria vida.">
"Ao trabalhar em estreita colaboração com as autoridades americanas, conseguimos provar que essa criança tirou a própria vida durante o abuso, quando ainda estava online com McCartney.">
"Naquele ponto, a morte da criança estava tão intrinsecamente ligada ao abuso que sentimos que tínhamos um caso forte para afirmar que ele a havia matado", detalha Kierans.>
A menina era Cimarron Thomas, de 12 anos. Em 2018, ela atirou em si mesma enquanto McCartney abusava dela.>
McCartney foi então acusado de homicídio culposo.>
Kierans acredita que esta seja a primeira vez no mundo em que um agressor é responsabilizado por homicídio culposo, mesmo que ele nunca tenha se encontrado presencialmente com a vítima.>
Tal era a magnitude do caso que os promotores tiveram que ser criteriosos com as acusações.>
"Nós não conseguimos incluir as 3 mil acusações identificadas no processo", calcula Kierans.>
"No final, detalhamos cerca de 200 acusações [relacionadas a cerca de 70 vítimas], o que é provavelmente uma das maiores acusações que já vimos na Irlanda do Norte.">
McCartney cresceu a cerca de 8 km da cidade de Newry.>
A região, bastante rural, é cercada de fazendas, além de contar com uma igreja e alguns comércios locais. >
Quando ele apareceu pela primeira vez no Tribunal de Magistrados de Newry em julho de 2019, tinha apenas 21 anos, cabelos longos e crespos e um olhar arregalado de alguém surpreso por estar sentado ali.>
McCartney passou mais de cinco anos em prisão preventiva. Nesse período, ele saiu apenas para prestar depoimentos à polícia ou comparecer em audiências no tribunal.>
Nessas audiências, ele disse muito pouco além de informar o nome e a data de nascimento. Gradualmente, ele começou a se declarar culpado das acusações.>
McCartney estudou na cidade de Newry e gostava de jogos.>
Uma fonte disse à BBC News Irlanda do Norte que ele era introvertido e socialmente desajeitado. "Ele não interagia muito com pessoas fora do seu grupo de amigos", diz essa pessoa, que preferiu não ser identificada.>
"Ele talvez estivesse nos limites de muitas coisas, mas tinha amigos que obviamente não sabiam nada sobre isso.">
McCartney fez um curso em uma universidade de Newry, onde foi descrito como alguém "quieto e que não se envolvia muito com o resto da classe".>
Quando finalmente foi acusado em 2019, ele era um estudante de Ciências da Computação na Universidade de Ulster.>
Para aqueles que moram no mesmo bairro de McCartney, o caso tem sido angustiante.>
"O lugar inteiro ficou atordoado", confessa um morador.>
"No começo, surgiram sussurros. Depois, houve uma descrença. Tenho certeza de que as pessoas falam sobre isso em suas próprias casas, mas não é algo discutido publicamente, porque muitos não sabem o que dizer.">
Outro vizinho declarou: "Ele parecia um jovem agradável, afável e inteligente. Não havia nada de extraordinário nele.">
Mas o que é extraordinário é a enormidade das ofensas criminais cometidas por McCartney. >
Muitas de suas vítimas imploraram para que o abuso parasse, mas os promotores disseram que ele "continuou de forma insensível, às vezes forçando as vítimas a envolver crianças mais novas, algumas com apenas quatro anos".>
De acordo com Catherine Kierans, a depravação de McCartney foi tamanha que este foi "um dos casos mais angustiantes e prolíficos de abuso sexual infantil que já vimos no Ministério Público da Irlanda do Norte".>
Kierans acrescenta que algumas das vítimas ainda não foram identificadas, apesar dos esforços exaustivos da polícia.>
"Os crimes de McCartney prejudicaram milhares de crianças e as deixaram, junto com as famílias, com consequências traumáticas", disse ela.>
"A coragem das vítimas e dos familiares contrasta fortemente com a covardia [de McCartney] ao mirar em meninas vulneráveis", conclui ela.>
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