Publicado em 21 de julho de 2023 às 07:00
O governo federal deve anunciar em breve a regulamentação das apostas esportivas no Brasil.>
A Casa Civil confirmou à BBC News Brasil que as propostas estão à espera de uma decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).>
As apostas esportivas devem ser regulamentadas por meio de uma medida provisória e um projeto de lei, que serão enviados ao Congresso.>
O tema é alvo de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) que investiga denúncias de manipulação de partidas de futebol para favorecer apostadores.>
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A regulamentação tem sido defendida por membros da CPI como um instrumento importante para coibir fraudes.>
As novas regras devem estabelecer como serão tributadas as receitas das empresas e as premiações pagas aos apostadores, além de estabelecer como será feita a permissão para empresas de apostas operem no país.>
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que o governo estima arrecadar R$ 2 bilhões em 2024 com taxação de apostas esportivas.>
Parte dos valores arrecadados devem ser destinados a investimentos em educação e segurança pública, para o custeio da seguridade social e do Ministério do Esporte, além de pagamentos aos clubes pela cessão de marcas aos sites de apostas.>
Além da tributação, as novas regras devem estabelecer as sanções para as empresas que não cumprirem os critérios de funcionamento das plataformas.>
As apostas esportivas foram autorizadas no Brasil por uma lei aprovada em 2018.>
As normas para esse tipo de atividade deveriam ser criadas por meio de novas leis, mas isso não foi feito até agora.>
A falta de regulamentação criou um limbo legal que levou empresas do setor que atuam no Brasil a operarem a partir de outros países, especialmente do Caribe e Mediterrâneo.>
A proliferação e popularização dos sites de apostas nos últimos anos criou desafios para governos de várias partes do mundo.>
Tradicionalmente, as apostas esportivas eram feitas de maneira presencial. A internet fez esse mercado crescer muito porque agora é possível apostar em uma variedade muito maior de campeonatos e esportes.>
Heather Wardle, professora da Universidade de Glasgow, na Escócia, e especialista em apostas esportivas, diz que “o jogo online oferece acesso contínuo a produtos de uma forma que não era possível há 20 anos”.>
“O jogo online também muda fundamentalmente a natureza da indústria, já que são grandes empresas de tecnologia fazendo uso de todas as percepções e informações que possuem sobre as pessoas, e são capazes de ter um relacionamento muito direto com seus consumidores por meio de seus dispositivos e pegadas digitais”, aponta a especialista.>
“Eles usam todas essas informações para direcionar as pessoas para que continuem a jogar.”>
Esse boom das apostas esportivas levou outros países do mundo a regular esse tipo de atividade.>
Entenda a seguir como funcionam estas regras atualmente nos Estados Unidos e em países da Europa e da América Latina.>
A indústria de apostas apelidou a América Latina de "gigante adormecido" por ter um grande potencial que consideram inexplorado e pelo grande número de fãs de esportes, diz Wardle.>
Entre os países da região, há grande disparidade nos estágios de regulamentação do setor.>
Em geral, os países que têm regras cobram taxas para que as operadoras se regularizem e exigem que elas tenham sede nos seus respectivos territórios.>
A Colômbia foi pioneira ainda em 2015 ao estabelecer regras para o funcionamento e a tributação dos sites de apostas esportivas e criar um órgão, o Coljuegos, para supervisionar essa atividade.>
Não há limite para o número de plataformas que podem operar, e as licenças valem por três anos, prorrogáveis por mais cinco.>
Além dos tributos cobrados de empresas, os lucros dos apostadores a partir de um determinado valor também são taxados em 20%.>
Grande parte do que é arrecadado tem como destino o sistema de saúde do país. Tanto que a Coljuegos usa o slogan “aposte pela saúde”.>
No total, em 2022, foram arrecadados cerca de US$ 236 milhões (R$ 1,132 bi) com jogos de azar no país, dos quais US$ 151 milhões (R$ 724 milhões) tiveram como destino a saúde.>
Entre 2018 e 2022, o tamanho do setor quase sextuplicou na Colômbia, onde atualmente existem mais de 8 milhões de contas ativas nos sites de apostas.>
“Isso tem gerado desafios tecnológicos e desafios associados à proteção”, disse a Coljuegos à BBC News Brasil por meio de nota.>
“O rápido crescimento levou a milhões de transações por dia, o que gera grandes volumes de informações para transformar e analisar”.>
A Coljuegos avalia que enfrenta um “flagelo” do jogo ilegal e realiza constantes esforços para controlá-lo.>
O órgão afirma que conseguiu bloquear mais de 10.749 sites que oferecem jogos de azar na internet e 121 perfis de redes sociais nas quais este tipo de plataforma não autorizada eram promovidas.>
Na Argentina, cada Província é responsável por estabelecer suas próprias regras, e os apostadores só podem acessar um determinado site se estiverem localizados na região onde a plataforma tem autorização para operar.>
Na Província de Buenos Aires, foram outorgadas apenas sete licenças, com validade de 15 anos. Uma parte do que é arrecadado vai para a educação.>
Já no Chile, a falta de regulamentação é alvo de preocupação de governantes, assim como no Brasil.>
As propostas visam atualmente dedicar parte do que for arrecadado para medidas de incentivo ao esporte chileno.>
O economista chileno Maurício Holz fez um estudo comparando as estratégias de Colômbia, Espanha e da Província de Buenos Aires.>
Holz explica que mecanismos como o número de licenças concedidas, sua duração e a frequência com que são concedidas funcionam como uma barreira de entrada para este mercado.>
Isso permite, segundo o especialista, ter um maior controle sobre as empresas.>
“Os requisitos visam a garantir a capacidade da empresa de cumprir suas obrigações tanto com o órgão regulador quanto com seus clientes”, afirma.>
Holz defende que mecanismos de controle e sanções às empresas que violem as regras são fundamentais para as regulamentações.>
Wardle concorda e avalia que, “onde a permissão do jogo é acompanhada por regulamentação e fiscalização inadequadas, há um perigo real para a saúde da população nesses países”, avalia Wardle.>
A Coljuegos afirma que vem colaborando com o governo do Peru para que o país implemente um sistema semelhante ao colombiano e que recebe com frequência contatos de outros países na região que querem regulamentar o setor.>
Nos Estados Unidos, em 2018, uma decisão da Suprema Corte do país anulou uma lei federal de 1992 que vetava apostas esportivas na maioria dos Estados, abrindo caminho para a legalização da atividade, mas excluindo as competições universitárias do rol de apostas possíveis.>
A regulamentação das apostas esportivas cabe a cada Estado no país, assim como em outros temas, como aborto e criminalização das drogas.>
Atualmente, 34 dos 50 Estados americanos têm algum tipo de permissão para a atividade.>
O Estado de Nevada, onde fica a cidade de Las Vegas, capital americana dos jogos de azar, foi um dos primeiros a regular as apostas esportivas.>
Enquanto isso, governos como os de Delaware e Dakota do Sul permitem as apostas, mas apenas se forem feitas de forma presencial.>
Em novembro passado, os californianos foram às urnas para votar sobre a legalização das apostas esportivas no Estado. A proposta foi rejeitada.>
Com uma cultura consolidada há décadas neste tipo de atividade e algumas das principais empresas do setor, a Europa conta há anos com uma série de regulamentações na área.>
Desde 2005, o Reino Unido conta com uma legislação para o tema, que estabelece, por exemplo, quais autoridades podem outorgar licenças às plataformas e as taxas anuais que cada uma deve pagar para operar.>
Na Espanha, um decreto estabeleceu as diretrizes para as apostas em 2011, e é aplicada uma taxação de 20% às receitas das plataformas.>
Para outorgar as licenças, é necessário que haja ao menos um representante permanente no território espanhol.>
As permissões têm prazo de dez anos, que podem ser prorrogados por igual período.>
A Itália é um dos países na região onde o tema é mais sensível, já que os campeonatos locais de futebol foram duramente atingidos por manipulações envolvendo apostas esportivas em algumas oportunidades, como no Brasil.>
A legislação local passou por algumas modificações desde 2007. A maioria buscou reforçar a presença de empresas italianas no ramo e, mais recentemente, a taxação das receitas das empresas aumentou, e foram impostos limites para os valores pagos aos apostadores.>
São discutidas alterações semelhantes no Reino Unido para atualizar as regras do setor.>
Os projetos, em tramitação no Parlamento, ainda incluem uma taxa que seria cobrada das empresas para pagar o tratamento de vícios e medidas de prevenção, com foco especialmente em jovens de 18 a 24 anos que, segundo as evidências, correm maior risco de danos.>
A preocupação com o vício é constante no país. O tema levou as equipes da elite do futebol local a concordarem em não exibir mais patrocínios de casas de apostas em suas camisas, algo que também foi adotado na Espanha.>
Para Wardle, é preciso haver uma postura muito mais rígida para a publicidade, o marketing e o patrocínio de jogos de azar.>
“É improvável que regras adotadas voluntariamente sejam eficazes. A história mostra que elas são frequentemente contornadas com poucas repercussões”, avalia.>
Recentemente, um país que avançou no tema foi a França, onde o Parlamento proibiu a participação de influenciadores e atletas nas propagandas de casas de apostas.>
“É muito importante olhar para coisas como esta e para as formas como as empresas de jogos de azar e suas afiliadas estão usando uma ampla gama de mídias sociais para vender seus produtos”, afirma Wardle.>
“Muito disso ocorre de forma realmente pouco transparente, e (estas redes sociais) podem ser acessadas por crianças e jovens, o que é eticamente questionável.”>
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