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Como o desaparecimento de uma coleção raríssima de Lego Star Wars deu origem a uma teoria da conspiração

Lojas da Bricks & Figs em diferentes partes dos EUA vêm recebendo ameaças por causa do desaparecimento do conjunto de Lego de Star Wars, segundo a empresa

Publicado em 24 de Junho de 2026 às 15:35

BBC News Brasil

Publicado em 

24 jun 2026 às 15:35
Imagem BBC Brasil
Coleção era para ser uma espécie de 'poupança' de Ed Mansell, de 83 anos Crédito: Getty Images
Era para ser uma espécie de poupança de Ed Mansell, de 83 anos.
Mas a sua valiosa coleção de Star Wars Lego, que incluía a ultrarrara Cidade das Nuvens (avaliada em cerca de R$ 51 mil), desapareceu.
Quem a levou, e quanto a coleção inteira realmente valia, se tornou o centro de diversos processos judiciais, levou a uma prisão e viralizou na internet ao dar origem a teorias da conspiração.
A saga começou em 2023, quando Bryan, filho de Ed, se aproximou de uma mulher chamada Chrystal Law, que era dona de uma franquia que vendia peças e coleções de Lego usadas.
Bryan queria vender a coleção rara de seu pai por meio de consignação, o que significa que Ed continuaria sendo o dono legal da coleção até que um comprador fosse achado.
Nas redes sociais, a franquia de Chrystal Law da rede Bricks & Minifigs em Salem, no Oregon, nos Estados Unidos, anunciou a aquisição de "uma das maiores e mais valiosas coleções de Star WarsTM Lego© no mundo".
Ao longo do ano seguinte, a loja vendeu o equivalente a R$ 265 mil em Lego, segundo a rede Bricks & Minifigs.
Mas no fim de 2024, a Bricks & Minifigs expulsou Chrystal Law por débitos não pagos e vendeu a franquia dela a um novo proprietário.
Em diversas entrevistas à imprensa, Bryan descreveu como ele soube dessa venda quando ele foi à franquia porque os cheques mensais pararam de ser depositados em sua conta.
Mas os novos donos da franquia afirmaram não ter conhecimento sobre a coleção do pai dele ou sobre o acordo de consignação.
Bryan passou a acreditar que o restante da coleção tinha sido furtada, o que levou ao registro de um boletim de ocorrência na polícia.
A disputa entre a antiga dona da franquia, os donos da coleção de Lego e a rede Bricks & Minifigs continuou ao longo de um ano sem sinal de resolução, com todas as partes trocando acusações entre si.
Todo esse drama ganhou projeção em março de 2026, quando um YouTuber conhecido pelo nome de Reckless Ben (Ben Imprudente, em tradução livre) se envolveu na história.
Imagem BBC Brasil
O YouTuber Reckless Ben se envolveu para, segundo ele, ajudar o dono da coleção Crédito: YouTube

Campanha viral

Reckless Ben, cujo nome verdadeiro é Ben Schneider, afirma que Bryan Mansell (filho do dono da coleção de Lego) o procurou em busca de ajuda.
A campanha que Schneider passou a travar contra a Bricks & Minifigs e os novos donos da franquia envolveu diversas ações chamativas. Entre elas, a criação de um site chamado "Nós Roubamos de Idosos", estampado com o logo da Bricks & Minifigs.
O YouTuber também publicou vídeos nos quais instalava uma placa em frente à casa de um dos novos donos da franquia com os dizeres: "Nós roubamos todas as economias de uma família". Em sua campanha, ele chegou a viajar para Utah, onde fica a sede da Bricks & Minifigs.
Em 27 de março, o YouTuber foi acusado pela polícia da cidade de American Fork de crimes como perseguição, conduta desordeira e invasão, que teriam sido cometidos durante a sua campanha em torno da coleção de Lego desaparecida.
Mas o caso estourou de vez em 21 de maio, quando ele, que tem 1,4 milhão de seguidores em seu canal no YouTube, publicou um vídeo chamado "Eu rastreei o ladrão que furtou a coleção de LEGO de US$ 200 mil [cerca de R$ 1 milhão]". O vídeo de 82 minutos soma mais de 6 milhões de visualizações até meados de junho.
A sua popularidade ajudou a atrair apoio para Ben e Ed Mansell, mas também levou a diversas teorias da conspiração.
Alguns acusam a polícia da cidade de American Fork de ajudar a acobertar o furto da coleção de Lego, sob alegação de que os investigadores estão favorecendo a rede de franquias Bricks & Minifigs. Em 29 de maio, o departamento de polícia local emitiu um comunicado afirmando que "o nosso envolvimento nesses casos se resume a cumprir as nossas obrigações legais e garantir a lei de Utah".
Mas esse comunicado da polícia surtiu pouco efeito nos rumores. Apoiadores da família Mansell chegaram a interromper em junho uma reunião do conselho municipal da cidade ao acusar a polícia local de agir ilegalmente.

Onda de processos judiciais

Enquanto isso, as franquias da Bricks & Minifigs passaram a receber ameaças por telefone e email, segundo a rede.
E a franquia localizada no Estado do Oregon que está no centro dessa disputa foi fechada pela rede "por causa de uma campanha devastadora nas redes sociais", sem responsabilizar os novos donos dessa franquia.
A Bricks & Minifigs afirmou que o fechamento dessa franquia se deu "porque nossos funcionários, incluindo adolescentes da região, enfrentaram riscos reais graves à segurança, perseguição física direcionada e ameaças explícitas de bomba, impulsionadas por vídeos virais".
Em um processo judicial do fim de maio, a rede Bricks & Minifigs afirmou ter assumido o controle dessa franquia no Oregon depois que a antiga dona, Chrystal Law, somou centenas de milhares de dólares em débito. A rede disse ainda que ela violou uma política da rede de franquia ao aceitar vender uma coleção por meio de consignação.
Ainda segundo esse processo judicial, a rede afirmou que a coleção desaparecida valia ao todo cerca de US$ 80 mil (cerca de R$ 410 mil), e não US$ 200 mil (aproximadamente R$ 1 milhão) como alegou o YouTuber Ben Schneider.
A rede disse ainda que o YouTuber, a antiga dona da franquia, a família Mansell e outros conspiraram para liderar uma campanha de assédio e extorsão contra os proprietários da rede de franquias e o novo franqueado que assumiu a loja no Oregon.
A Bricks & Minifigs classificou a disputa sobre a coleção desaparecida como uma questão privada entre a antiga dona da franquia e a família Mansell (dona da coleção de Lego posta à venda), mas afirma ter tentado ajudar a resolver o problema.
"Estamos totalmente dispostos a sentar e encontrar uma maneira justa e realista de garantir que este avô seja totalmente ressarcido", afirmou a empresa em um comunicado em 28 de maio.
Bryan Mansell, filho de Ed, não respondeu a um e-mail da BBC solicitando comentários sobre o caso.
Enquanto isso, Chrystal Law (antiga dona da franquia) alega não possuir o conjunto de Lego e que ele fazia parte do estoque da loja que foi transferido para um novo proprietário. Ela está processando a rede Bricks & Minifigs, alegando que a empresa "tomou o controle do negócio e trocou as fechaduras numa mesma noite".
A BBC tentou entrar em contato com ela por meio de sua editora, mas não recebeu resposta.

Coleção valiosa

Em comunicado ao veículo Salem Business Journal, Bryan Mansell afirmou que seu pai inicou a coleção de Lego para dar sustento aos seus filhos e netos. "Lego era um brinquedo que compartilhamos quando eu era criança, e ele queria compartilhar isso com seus netos."
Segundo Bryan, seu pai "escolheu Lego como um investimento e começou a comprar coleções e bonecos para serem mantidos novos, na caixa, para que um dia eles pudessem ser vendidos a fim de bancar a universidade dos netos".
Uma campanha de arrecadação para a família Mansell reuniu cerca de US$ 500 mil (cerca de R$ 2,5 milhões) até agora, sendo que a meta é de R$ 2,8 milhões. O objetivo da campanha é para ajudar "Bryan e seu pai a recuperar sua coleção ou o valor dela, e os custos legais".
Em 10 de junho, um juiz de Utah proibiu temporariamente o YouTuber Ben Schneider de publicar conteúdo sobre a disputa em torno da coleção de Lego desaparecida.
Em email à BBC no dia seguinte, ele afirmou que estava proibido legalmente de comentar o caso. "Eu amaria falar, mas infelizmente um monte de mentiras foram ditas contra mim, e a Justiça determinou que eu ficasse em silêncio."

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