O temor desses especialistas era que, ao apertar o cerco contra pais hesitantes ou que eram contrários à vacinação, o governo daria um tiro no próprio pé, ao gerar controvérsias e aumentar a polarização contra as doses que protegem contra sarampo, meningite, poliomielite e uma série de outras doenças.
"Nós claramente estávamos errados, não foi isso que aconteceu", admite hoje o sociólogo Jeremy Ward, do Instituto Nacional da Saúde e Pesquisa Médica da França, um dos autores do artigo que fazia o alerta, publicado em 2018.
Passados oito anos das mudanças na lei, a França — historicamente um dos países com as maiores taxas de hesitação vacinal do mundo — vive um outro cenário quando o assunto é imunização.
Para várias vacinas, a cobertura vacinal está acima da meta considerada ideal para alcançar a chamada imunidade de rebanho — quando uma parcela suficientemente alta da população está protegida para dificultar a circulação de um agente infeccioso e proteger indiretamente quem não pode ser imunizado.
Para outras, a porcentagem da população vacinada praticamente dobrou de um ano para outro, embora o número ainda não tenha alcançado o ideal.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, essa experiência francesa é um exemplo de como há muito a ser feito para aumentar as taxas de vacinação — e isso vai muito além de combater notícias falsas ou desinformação sobre o tema nas redes sociais.
No Brasil, as coberturas vacinais infantis começaram a cair de forma geral a partir de 2015. A situação se agravou durante a pandemia de covid-19, quando a cobertura de diversos imunizantes ficou abaixo das metas estabelecidas pelo Ministério da Saúde.
No caso da primeira dose da vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola), por exemplo, 96% das crianças brasileiras estavam vacinadas em 2015. Esse número caiu para 86% em 2017 e desabou para 74% em 2021. Em 2024, voltou a subir para 95% (veja mais no gráfico no final da reportagem).
Uma trajetória semelhante pode ser observada em outros imunizantes.
A cobertura da BCG, vacina aplicada preferencialmente ao nascer para proteger contra formas graves de tuberculose, era de 105% em 2015 e caiu para 75% em 2021.
Já a cobertura da terceira dose da vacina pentavalente, que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções por Haemophilus influenzae tipo b, passou de 96% em 2015 para 71% em 2019.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que há uma série de fatores por trás dessa queda, como uma redução de investimentos em saúde pública, uma desorganização do programa de imunizações do país, as dificuldades da pandemia, entre outros.
Entenda a seguir o que a França colocou em prática nos últimos anos — e o que o Brasil, após anos de queda na imunização e uma recuperação recente, pode aprender com isso.
Entre recomendações e obrigatoriedades
Em 2019, o Instituto Wellcome, do Reino Unido, publicou um levantamento que avaliou percepções de saúde de mais de 140 mil pessoas, espalhadas por 144 países.
Os dados revelaram que um em cada três franceses considerava as vacinas inseguras — a maior taxa do mundo nesta categoria.
E um em cada cinco cidadãos deste país dizia que os imunizantes não eram efetivos, uma proporção que só era superada pela população da Libéria.
Por trás de tanta desconfiança, estudos publicados nos últimos anos descobriram uma série de episódios de desgastes e quebras de confiança do público em relação às autoridades de saúde.
O caso mais emblemático aconteceu em 2009, durante a pandemia de H1N1, quando o governo francês comprou uma quantidade de doses acima do necessário da vacina que protegia contra essa cepa da gripe.
O episódio virou um escândalo que ganhou as manchetes dos jornais e fez com que esses imunizantes ficassem encalhados, diante a indignação geral.
Após esses desgastes, setores responsáveis pela saúde pública do governo francês promoveram uma série de debates e estudos para entender quais eram os gargalos da vacinação no país e encontrar maneiras de resgatar a confiança da população nas doses.
Até então, a França tinha três vacinas que eram consideradas obrigatórias para todas as crianças: as que protegem contra difteria, tétano e poliomielite.
Imunizantes contra outras oito doenças (coqueluche, infecção por Haemophilus influenzae tipo b, hepatite B, sarampo, caxumba, rubéola, infecções por pneumococo e meningococo C) eram classificados como "recomendados".
A conclusão foi de que ter vacinas "obrigatórias" e "recomendadas" gerava uma confusão — e muitas pessoas entendiam que a simples recomendação era algo que não se aplicava aos filhos delas.
A lei que passou a valer a partir de 2018 corrigiu esse ponto, e começou considerar todas essas 11 vacinas como "obrigatórias".
Mas houve outra mudança relevante nesse mesmo ano: a França criou mecanismos para checar e garantir a vacinação infantil.
Na prática, a comprovação da vacinação passou a ser exigida para que crianças fossem matriculadas e pudessem permanecer em escolas, creches e outras atividades coletivas infantis.
A experiência francesa pelos olhos de uma brasileira
A brasileira Fabiela Bigossi vive na França há 11 anos. Ela vacinou as duas filhas, de três e sete anos, no sistema de saúde francês.
"A primeira coisa que me impressionou aqui foi que, na experiência que tive com minhas filhas, as vacinas eram aplicadas pelo médico", relata ela.
"Isso é muito diferente no Brasil, em que você vai até o posto de saúde e um enfermeiro pode fazer a vacinação."
Na França, ainda há um processo mais burocrático para obter os imunizantes: na maioria das vezes, o médico dá uma receita, a família compra a ampola numa farmácia, guarda na geladeira em casa, marca uma outra consulta com o médico para aplicar a dose, e depois pede reembolso do valor gasto.
"Também achei isso um pouco estranho", admite Bigossi.
A brasileira continua a acompanhar no dia a dia o sistema que monitora a vacinação nas escolas francesas.
"A diretora da creche da minha filha tem o calendário vacinal de cada criança e, no mês seguinte à aplicação de uma dose de vacina, ela sempre manda e-mail pedindo a caderneta de vacinação atualizada. Caso contrário, eles dizem que não vão mais acolher a criança", descreve ela.
"A escola realmente busca essa informação, para ter certeza que as crianças foram vacinadas."
Diálogo neutralizou resistências
Sandrine Randriamampianina, chefe da Unidade de Saúde Ambiental e Riscos Infecciosos da Santé Publique France, agência nacional de saúde pública francesa, reforça que as mudanças na lei não surgiram do nada.
"A meta era parar a queda das taxas de imunização, especialmente contra o sarampo, mas isso não foi algo implementado diretamente pelo governo", diz ela.
"As alterações de 2018 foram resultado de uma consulta pública que mobilizou profissionais da saúde e cidadãos, foi uma decisão construída, não uma proposta imposta à população pelos políticos e pelo governo", complementa a especialista.
A médica Judith Mueller, chefe da Unidade de Infecções Respiratórias e Vacinação da Santé Publique France, concorda: "A formulação da obrigatoriedade fez as pessoas entenderem que vacinar as crianças antes que elas estejam num ambiente coletivo é importante."
"E, porque essa mensagem 'encaixou' bem na forma como a obrigatoriedade foi formulada, as mudanças na lei ganharam apoio da população", observa a especialista.
Os resultados da nova lei
Apesar dos temores de que as medidas poderiam aumentar a hesitação ou a resistência contra os imunizantes, as coberturas vacinais aumentaram nos anos seguintes à mudança da lei na França.
Talvez o caso mais emblemático seja o das doses que protegem contra o meningococo C.
Como você confere no gráfico a seguir, a França tinha imunizado apenas 35% do público-alvo contra essa doença em 2017, antes das mudanças na lei.
Em 2018, essa taxa saltou para 75%, e chegou a cerca de 89% em 2023.
No caso da vacinação contra o sarampo, o país europeu alcançava 90% de cobertura na primeira dose e 80% na segunda dose em meados de 2016.
O número estava abaixo da meta de 95% do público-alvo protegido, algo necessário para alcançar a imunidade de rebanho contra essa doença.
A França voltou a alcançar cobertura próxima ou superior a 95% na primeira dose, mas a cobertura da segunda dose continua sendo importante para avaliar se a meta de proteção contra o sarampo foi atingida.
Randriamampianina, da Santé Publique France, destaca que esse aumento da vacinação foi acompanhado de uma melhora na confiança em relação às doses.
"A confiança nas vacinas voltou a subir a partir de 2019, e essa dinâmica não foi alterada durante a pandemia de covid-19", analisa ela.
"Nossos levantamentos mostram um aumento na confiança da população entre 2019 e 2023, o que é muito, muito positivo", comemora a especialista.
Mais que obrigar, organizar
Para o psicólogo Paulo Almeida, diretor-executivo do Instituto Questão de Ciência, esse exemplo francês não significa que "todas as pessoas se convenceram que a vacina é importante da noite para o dia".
"Elas só consideraram que é menos dor de cabeça se imunizar do que tentar manter um posicionamento rígido de recusa às vacinas", avalia ele.
Jeremy Ward, o pesquisador citado na reportagem, observa que é comum pensar que leis de obrigatoriedade de vacinação funcionam pelo medo de restrições e punições atreladas a elas — como não conseguir matricular o filho numa escola, por exemplo.
"Mas as pessoas subestimam o efeito das mudanças na organização do sistema de vacinação", afirma ele.
"A obrigatoriedade definiu quem era responsável por checar o quê, quem seriam as pessoas que garantiriam que os pais não se esquecessem de levar os filhos para tomar as doses", detalha o pesquisador.
E por que não houve a resistência à obrigatoriedade, sobre a qual Ward e outros especialistas alertaram naquele artigo de 2018?
"Isso não aconteceu por um misto de diversos fenômenos", começa o sociólogo.
"Primeiro, os jornalistas e a imprensa não fizeram uma cobertura extensiva do assunto. Assim que a lei passou, a resposta da mídia foi: 'ok, tudo bem, esse assunto está encerrando, vamos seguir em frente'."
Ward entende que algo parecido ocorreu com a classe política e a opinião pública. "Assim que a lei entrou em vigor, todo mundo passou a focar em outros problemas", observa o pesquisador.
Randriamampianina concorda: "Após 2018, não houve mais debate se a obrigatoriedade da vacinação era relevante ou aceitável."
Ciência comportamental em prol da vacinação
Como dito por especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, mais do que ampliar a obrigatoriedade de diversas vacinas, o modelo francês pode ter funcionado por deixar claro quem é responsável por cada etapa do processo.
Isso, por exemplo, envolve vincular a matrícula nas escolas públicas à carteira de vacinação em dia — e estipular que os funcionários das instituições de ensino devem fazer esse acompanhamento, como detalhado por Fabiele Bigossi.
E isso está conectado a algo que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já estipulou anos atrás: os motivos para alguém não se vacinar (ou não levar o filho para tomar as doses) são os mais diversos possíveis.
Isso ajuda a entender a hesitação vacinal como um espectro: há aqueles que simplesmente se esqueceram de tomar as doses. Ou que não tiveram tempo, porque estão trabalhando demais, ou porque o posto de saúde só funciona em horário comercial.
Há outros que têm medo de agulha, ou que têm dúvidas legítimas sobre como as vacinas foram criadas, ou como elas funcionam. E, claro, há uma parcela mais radicalizada, que acredita e divulga notícias falsas sobre os imunizantes.
"A hesitação vacinal tem muito mais a ver com percepção de risco, confiança nas autoridades, acesso e clareza de informação…", lista a médica Isabella Ballalai, da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
Diante desse cenário, de acordo com os pesquisadores, não adianta focar os esforços apenas no combate à desinformação — ainda mais num cenário em que a inteligência artificial pode facilitar o trabalho de quem quer produzir e espalhar conteúdos mentirosos sobre as vacinas.
"É como cortar a cabeça de uma hidra: você elimina uma e logo nascem 18 novas", compara Almeida.
"Com os modelos de linguagem de larga escala da IA, a tarefa de criar desinformação ficou muito mais fácil, então a tendência é que a gente caminhe para ter cada vez mais dificuldade em combater isso", complementa ele.
Almeida avalia que, durante muito tempo, a comunicação sobre vacinas se baseou numa ideia de "déficit de informação".
"Então, se falta informação, nosso trabalho seria suprir essas lacunas e, a partir do convencimento, as pessoas teriam um comportamento mais adequado, de se vacinar."
"Mas não é assim que as coisas funcionam na prática", pontua ele.
"No geral, nós focamos demais em intervenções baseadas na comunicação, em basicamente dizer e convencer as pessoas sobre se vacinar, e não damos a devida atenção às intervenções organizacionais", reforça Ward.
Para Almeida, as evidências mostram que o sucesso de um programa de vacinação não depende da crença, mas, sim, do comportamento.
"Vale muito mais um vacina no braço do que uma mente convencida: a ciência comportamental pode ajudar a entender como as pessoas tomam decisões em ambientes complexos", diz ele.
O modelo de obrigatoriedade adotado na França ajuda, por exemplo, a lembrar pais e responsáveis que é hora de levar os filhos para a vacinação.
Já ampliar o horário de funcionamento dos postos de saúde, ou levar as doses para lugares em que há grande circulação de pessoas, ou nas próprias escolas, pode facilitar a vida das famílias com pouco tempo de sobra.
Treinar profissionais de saúde para que eles estejam aptos a conversar sobre vacinas com os pacientes — e ter fontes públicas de informação que sejam claras e de fácil acesso — é um antídoto para as pessoas que têm perguntas, medos e inseguranças.
Ou seja: assim como há um espectro de hesitação vacinal, é preciso pensar em diferentes ferramentas para lidar com cada um desses desafios e suas particularidades.
Segundo Almeida, todas essas medidas ajudam a diminuir "atritos", ao tornar mais fácil e transparente o caminho que liga as pessoas às vacinas.
O que o Brasil pode aprender com isso?
Por muitos anos, o Brasil foi considerado um exemplo mundial em vacinação: graças à capilaridade do Sistema Único de Saúde (SUS), as doses chegavam com relativa facilidade em todos os cantos. Com isso, a cobertura vacinal se manteve relativamente alta em todo o país por muitos anos.
Mas esse cenário começou a mudar a partir de 2015, e se agravou de 2020 em diante, com a pandemia de covid-19.
O pesquisador Gustavo Correa Matta, da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), pontua que, a partir de 2015 e 2016, aconteceu uma desorganização do sistema vacinal brasileiro.
"Naquele momento, o problema nem foi a hesitação vacinal. Tivemos problemas de produção, distribuição e acesso às doses", diz ele.
"Quando você desmonta uma determinada política pública, toda a cadeia fica numa situação de incerteza, de vulnerabilidade", complementa o especialista.
Para a cientista política Michelle de Oliveira, professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), essa situação se agravou a partir de 2020, durante a crise sanitária da covid-19.
"Foi uma tempestade perfeita: durante a pandemia, estávamos num contexto em que as pessoas precisavam confiar nas vacinas", contextualiza ela.
"Mas tínhamos uma política governamental de desinformação, de ataque à ciência, em meio a uma crise sanitária", critica a especialista.
"Isso, somado à dificuldade de acesso às vacinas por causa das restrições da própria pandemia, fez a cobertura vacinal cair drasticamente."
Um exemplo disso foi o que aconteceu com a vacinação contra o sarampo: apenas 75% das crianças tomaram a primeira dose em 2021, número que fica 20 pontos percentuais abaixo da meta de 95%, uma meta que o Brasil havia alcançado em anos anteriores.
Com o fim da emergência sanitária, até houve uma recuperação da cobertura, mas ela ainda segue abaixo do ideal, especialmente se considerarmos a segunda dose.
Como retomar bom exemplo de vacinação do Brasil?
Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, essa retomada da vacinação é bem-vinda, mas acontece num ritmo lento.
Segundo eles, o país até adotou algumas medidas importantes nos últimos anos — como elevar o status do Programa Nacional de Imunizações (PNI) dentro da estrutura do Ministério da Saúde — mas é preciso dar um passo além para garantir que as coberturas vacinais fiquem realmente altas.
"Os dados nos mostram que o grosso da população brasileira não é hesitante em relação à imunização", interpreta Almeida.
"Nosso país não está tão mal quando consideramos as primeiras doses. O problema começa a partir das segundas doses, quando normalmente a criança já não está mais no ambiente hospitalar ou de primeiríssima infância e depende dos pais levarem até o posto."
"E precisamos considerar que principais cuidadoras de saúde são as mães, e elas estão cada vez mais trabalhando fora. Falta tempo para elas conseguirem levar as crianças para tomar as vacinas. Isso é um problema de gênero, de sociedade", complementa ele.
Almeida lembra que o Brasil tem alguns dispositivos que vinculam a vacinação a algumas políticas públicas — como a condicionalidade de ter a carteirinha atualizada para receber benefícios, caso do Bolsa Família, por exemplo.
"Mas falta rigor, falta controle", critica ele.
Segundo a legislação brasileira, a vacinação infantil é obrigatória.
A obrigatoriedade está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que determina a vacinação nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias.
Além disso, em 2020 o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que os pais não podem deixar de vacinar os filhos com base exclusivamente em convicções filosóficas, religiosas ou existenciais, quando a imunização é legalmente obrigatória.
Mas isso não significa que uma criança que está com a carteirinha desatualizada esteja impedida de ser matriculada numa escola.
Não existe uma regra federal sobre como as instituições de ensino devem se portar quando estão diante de um caso de recusa vacinal. Mas alguns Estados têm leis específicas sobre o assunto.
Em Goiás, os pais devem regularizar a vacinação da crianca em até 30 dias, caso contrário a escola deve comunicar o Conselho Tutelar, que pode levar o caso ao Ministério Público.
Já no Paraná, existe uma lei que exige a apresentação da carteira de vacinacão na hora da matrícula, seja em escola pública ou privada. Se o documento estiver desatualizado, a criança pode ser admitida na escola, mas os pais devem acertar as doses num prazo de até 30 dias.
Outros ajustes necessários
Oliveira destaca a necessidade de treinar adequadamente os profissionais de saúde que atuam na ponta, em contato direto com a população.
"É fundamental que eles saibam a importância da vacina, de manter altas coberturas. Se eles emitem uma opinião contrária às doses, isso abala a confiança de todos os usuários do SUS", observa ela.
Para Ballalai, o fato de o Brasil ter mais de 38 mil salas de vacinação espalhadas pelo país não é mais sinônimo de acesso.
"Precisamos esquecer o passado, o caminho não é mais o mesmo. No meu entender, poderíamos repensar o uso de boa parte dessas salas e investir na vacinação nas escolas, criar algum tipo de obrigatoriedade para matricular crianças e adolescentes."
A médica também critica o que ela vê como uma "politizacão da vacina".
"Não se pode usar a vacinação como propaganda, para reforçar um ou outro lado político", observa ela.
"Isso cria a ideia de que, quem se vacina, vota num partido, quem não se vacina, vota no outro. Não é isso que queremos", complementa Ballalai.
Já Matta aposta na força do SUS para fazer essa retomada. "Nosso sistema de saúde já tem uma lógica descentralizada, de participacão social."
"Como fazer a vacina estar presente no cotidiano das pessoas? Como disponibilizar as doses em escolas, supermercados, comunidades ribeirinhas?", questiona ele.
A resposta do Ministério da Saúde
Em entrevista à BBC News Brasilno início de setembro deste ano, o atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha, classifica os últimos quatro anos como uma "ressuscitação do PNI".
"Começamos em 2023 com parte das vacinas do calendário oficial com menos de 80% de cobertura. E chegamos agora em 2026 a mais de 90%", defende ele.
Questionado sobre como fazer para que o país volte às médias acima de 95%, Padilha diz que é preciso "continuidade".
"Nessa política de fortalecimento do PNI, toda vez que você tem uma interrupção, reconstruir é muito mais difícil", justifica o ministro.
Padilha também entende que o caminho para melhorar a situação da imunização do Brasil passa pelas escolas.
"Estamos fazendo, por exemplo, o programa Saúde na Escola, em que mais de 1,2 milhão de crianças foram vacinadas. Queremos estimular que pais e mães com dificuldades de levar os filhos até a sala de vacinação deem uma autorização para fazer essa vacina na escola", detalha ele.
Segundo o ministro, os próximos desafios incluem reforçar cada vez mais os programas de vacinação na escola, digitalizar os dados e facilitar o acesso da população às vacinas.
"Precisamos mobilizar profissionais de saúde, imprensa, igrejas, para criar verdadeiros embaixadores da vacina", diz Padilha.
"A vacinação tem que ser um compromisso individual, de proteger a sua criança, mas também um compromisso público, de proteger a família, a igreja, a escola", conclui ele.
Gráficos: Equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil