Na noite do último dia 4 de outubro, a esquerda brasileira acordou para o cenário que ela havia passado meses desconsiderando.
O senador de direita radical Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno da eleição presidencial brasileira cerca de dois milhões de votos à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (47% a 45% dos votos válidos).
As pesquisas que haviam mostrado o presidente candidato à reeleição confortavelmente à frente na maior parte do ano iludiram sua campanha e seus apoiadores. E a campanha de Flávio passou rapidamente a transformar a surpresa em destino.
Em questão de dias, o senador começou a comentar quais seriam os seus ministros e suas prioridades de governo, como se o segundo turno fosse uma mera formalidade.
Este roteiro, em vários aspectos, foi tomado emprestado da Colômbia.
No dia 21 de junho, Abelardo de la Espriella conquistou a Presidência do país por uma diferença de cerca de 250 mil votos entre os mais de 25 milhões de eleitores. Foram 49,7% a seu favor, contra 48,7% do candidato Iván Cepeda, em uma das eleições com maior índice de comparecimento da história do país.
Desde então, a direita vende este resultado como o ato inicial de uma nova onda regional, que o Brasil estaria destinado a acompanhar.
A narrativa da inevitabilidade sempre esteve errada, mas não o diagnóstico colombiano. A derrota de Cepeda demonstrou quatro variáveis constantemente mal gerenciadas pela esquerda latino-americana.
O que surpreende nas três últimas semanas é que a campanha de Lula, depois de tropeçar nas quatro questões, parece ter aprendido a lição. E, nos dias que precederam a eleição deste domingo (25/10), a corrida presidencial se encontra em um empate técnico e o ímpeto do momento está do lado do atual presidente.
Reverter a maldição da situação
A primeira lição se refere à aritmética que afeta o governo que está no poder no momento.
Cepeda perdeu obtendo a maior votação absoluta já recebida pela esquerda colombiana. Sua derrota não foi o colapso da coalizão progressista, mas a descoberta do seu teto, em consequência do governo que estava de saída, do presidente Gustavo Petro.
Atualmente, nenhum presidente em exercício na América do Sul conta com o apoio da maioria da população.
O baixo crescimento econômico, restrições fiscais e a normalização do sentimento antiestablishment fizeram com que governar tivesse um alto custo eleitoral. E Lula, que teve aprovação menor que a rejeição por grande parte do terceiro mandato, não é exceção.
O primeiro turno demonstrou que construir a liderança com base em uma oposição fragmentada e enfraquecida por escândalos é diferente de ter um governo popular. E essa liderança evapora quando surge um adversário consolidado.
A resposta da campanha foi parar de conduzir um referendo e começar a apresentar uma escolha.
Em vez de se concentrar no legado dos seus governos anteriores, Lula, agora, tenta demonstrar sua inigualável experiência, em comparação com um adversário sem histórico próprio no Poder Executivo.
O efeito é visível naquele mesmo número que os governistas mais precisam alterar.
Em uma pesquisa publicada em 21 de outubro, a parcela de eleitores que afirmam que nunca votariam em Lula caiu de 53% para 47% em apenas uma semana. Já a rejeição de Flávio Bolsonaro diminuiu pouco, de 54% para 52%.
Do excesso de confiança para a terapia de choque
A segunda lição é de complacência e suas raízes distributivas.
O partido Pacto Histórico, de Cepeda, iniciou as eleições na Colômbia convencido de que poderia vencer no primeiro turno. Esta convicção gerou exposição mínima na imprensa, recusa a ir a debates e mobilização, em vez de convencimento.
O primeiro turno de Lula parecia incomodamente similar. O candidato planava sobre as pesquisas favoráveis, investindo pouco em ir além de uma base que se mostrou insuficiente.
A diferença é o que ocorreu a seguir. Em menos de uma semana, a campanha se reinventou, nas ruas e nas redes sociais.
Uma combinação de conteúdo digital agressivo e mobilização das bases, da angariação de votos nos bairros até grandes comícios em Estados onde a esquerda havia permanecido em silêncio, transformou o clima do segundo turno.
Uma campanha que conversava com os já convertidos começou a procurar aqueles que ainda é possível persuadir: uma massa de 33 milhões de eleitores que não compareceram ao primeiro turno.
E, o mais importante, a campanha começou a falar com o tipo de eleitorado que foi perdido por Cepeda.
A redução da pobreza permanece sendo a principal reivindicação política da esquerda e seu instrumento eleitoral mais fraco, pois seus beneficiários já estão comprometidos e os não beneficiários cada vez mais se consideram seus financiadores.
A versão brasileira deste problema reside em uma periferia urbana, cujas aspirações são organizadas em torno do trabalho, do crédito e da economia informal, não da redistribuição de renda.
No meio do segundo turno, Lula conseguiu a aprovação do Senado para o fim da jornada de trabalho 6x1 e renegociou as dívidas das pequenas empresas e dos autônomos. Estas medidas interessam exatamente aos eleitores de classe média baixa que decidiram a eleição na Colômbia, permitindo que Lula falasse sobre o futuro com algo que já foi oferecido.
O questionamento da agenda de segurança como sendo de propriedade da direita
Em terceiro lugar, a segurança pública substituiu a economia como questão formadora dos eleitorados latino-americanos. E a direita capturou o tema quase sem contestação.
De la Espriella criticou a desmobilização negociada dos grupos armados colombianos e Cepeda, identificado pessoalmente com a estratégia de Paz Total de Gustavo Petro, passou o segundo turno justificando uma política que havia se tornado indefensável. Sua concessão pareceu oportunismo, não aprendizado.
A estrutura federativa do Brasil dificulta ainda mais o terreno para Lula.
Constitucionalmente, a segurança é assunto dos Estados, o que faz com que os governadores da oposição reivindiquem o crédito de operações bem sucedidas, culpando o governo federal por eventuais falhas.
A resposta-padrão da esquerda (que o crime é consequência da pobreza e da desigualdade) é defensável na teoria e fraca na hora da urna. Mas a campanha de Lula criou um caminho diferente.
Em vez de recuar, a campanha lançou a questão do crime organizado para o seu adversário, intensificando os ataques ao histórico de Flávio Bolsonaro, de acusações de corrupção até supostas ligações com grupos criminosos do Rio de Janeiro.
O momento decisivo veio no debate da Band do último domingo (18/10), quando Lula propôs que os dois candidatos abrissem mão do seu sigilo bancário. Foi um gesto simples, mas poderoso, que transformou um argumento abstrato sobre integridade em um teste que Flávio precisou responder frente às câmeras.
É verdade que a campanha de Lula ainda não respondeu à política de braço forte da direita com uma agenda de segurança institucional própria, o que permanece uma lacuna para um eventual quarto mandato. Mas Lula parou de admitir o problema.
Líderes externos como variável interna
Por fim, o quarto ponto. De la Espriella pegou firmemente emprestada do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, desde sua estratégia de segurança até sua imagem pública.
Para um eleitorado substancialmente de classe média, as imagens da megaprisão salvadorenha Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo) forneceram um modelo com aparência prática e 53,8% dos colombianos formaram uma imagem favorável do presidente Bukele.
O Brasil difere em grau e, certamente, em gênero, pois suas tensões de longa data com os Estados Unidos ocupam posição central nesta história.
A soberania está enraizada na cultura política brasileira e Lula conquistou vantagens reais ao confrontar a pressão tarifária de Washington em 2025.
Mas o efeito da defesa da pátria traz retornos reduzidos. A população sente as tarifas nos empregos, antes da dignidade.
Pesquisas anteriores concluíram que menos da metade dos eleitores aceitam a afirmação de Lula de que estas medidas foram produto do lobby do seu adversário.
A campanha parece ter compreendido este ponto e mudou seu foco da retórica sobre a soberania para a vida diária, deixando a política externa como pano de fundo, não como manchete principal.
O que a comparação nos ensina
O segundo turno da Colômbia foi decidido por um ponto percentual e o Brasil provavelmente seguirá um caminho similar.
A pesquisa do Datafolha publicada em 15 de outubro apresentou Flávio Bolsonaro com 51% dos votos válidos contra 49% de Lula. Uma semana antes, eram 52% a 48%.
Nova pesquisa do mesmo instituto, publicada em 22 de outubro, mostra os dois candidatos empatados com 50% dos votos válidos para cada um.
A pesquisa da Quest publicada em 21 de outubro colocou a corrida em 45% para Flávio contra 44% de Lula no total das intenções de voto, dentro da margem de erro, com os dois candidatos empatados em 40% na pesquisa espontânea.
As tendência indicadas pelos números vão em favor do presidente.
A Colômbia nunca foi evidência de uma onda ideológica.
O que houve foi uma pequena falha específica: a incapacidade de falar com os eleitores que não são suficientemente pobres para serem beneficiários de programas sociais, nem ricos o suficiente para serem seus adversários. E, aliada a isso, uma campanha que percebeu que estava perdendo quando era tarde demais.
A esquerda brasileira recebeu um alerta no dia 4 de outubro, ainda com três semanas pela frente. A boa notícia para o PT é que esse alerta aparentemente foi ouvido.
Se será suficiente, ficaremos sabendo neste domingo.
* Guilherme Casarões é professor de Estudos Brasileiros da Universidade Internacional da Flórida, nos Estados Unidos.
Carlos Ricaurte faz parte do Centro de América Latina e Caribe da Universidade Internacional da Flórida, nos Estados Unidos.
Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons. Leia aqui a versão original em inglês.
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