Publicado em 17 de março de 2026 às 09:36
Os primeiros relatos apareceram em telas estrangeiras, fora do alcance da maioria dos iranianos. >
Em 28 de fevereiro, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que havia "sinais de que o tirano não existe mais" — indicando que o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, havia sido morto em um ataque conjunto entre os EUA e Israel. >
Os iranianos que assistiam à televisão estatal, no entanto, encontraram silêncio.>
Autoridades do governo não confirmaram nem negaram a morte de Khamenei. Em um dos canais da emissora estatal, o IRTV3, um apresentador de notícias pediu aos telespectadores que "confiassem" nele e nas "informações mais recentes" que o governo possuía. >
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Ele descartou as notícias da morte de Khamenei como "rumores infundados", que "em breve seriam revelados".>
Foi somente na manhã seguinte que a mídia estatal iraniana noticiou a morte de Khamenei, horas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, tê-la anunciado publicamente nas redes sociais.>
Desde o início da guerra que, segundo relatos, matou mais de 1,2 mil pessoas no Irã e se espalhou para o Líbano e os países árabes do Golfo, a mídia estatal iraniana tem misturado fatos com ficção, apresentando uma versão oficial dos eventos para seu público interno.>
Embora milhões de iranianos acompanhem canais de TV via satélite em língua persa com sede no exterior, o acesso a informações independentes pode ser difícil. >
Bloqueios de internet, censura e canais restritos deixam os iranianos praticamente isolados do mundo exterior durante períodos de agitação e conflito.>
A BBC acompanhou a primeira semana de cobertura da guerra pela mídia estatal iraniana e constatou que ela centrou suas reportagens no sofrimento dos civis, em apelos por retaliação contra seus "inimigos", em pressões por lealdade pública à República Islâmica — e deu pouca atenção às instalações militares e governamentais atingidas por Israel e pelos EUA.>
Também encontramos alguns exemplos de desinformação.>
De acordo com a organização Repórteres Sem Fronteiras, o Irã é um dos países mais repressivos do mundo em termos de liberdade de imprensa.>
Desde a revolução de 1979, quando a República Islâmica do Irã foi estabelecida, todos os meios de comunicação operam sob rígidas restrições. A maioria dos veículos de notícias ocidentais e em língua persa — incluindo a BBC News Persa (serviço de notícias da BBC no idioma) — está proibida de fazer reportagens no país.>
Embora as principais plataformas do regime sejam a TV e o rádio, ele também opera online por meio de sites de notícias e redes como Instagram, Telegram e X. O acesso a essas plataformas de mídia social de dentro do Irã geralmente requer uma rede privada virtual (VPN).>
Seu aparato midiático se tornou a principal fonte de informação para as pessoas que vivem no país, principalmente quando a internet é cortada.>
"Eles têm uma narrativa que estão propagando", diz Mahsa Alimardani, da organização de direitos humanos Witness. "É a de que eles são bastante vitoriosos e que suas forças armadas são muito fortes.">
Diversos veículos de comunicação estatais iranianos relataram que as forças iranianas mataram ou feriram centenas de soldados americanos, inflando o número de baixas inimigas.>
Em 3 de março, a agência de notícias Tasnim, uma agência semioficial associada à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), informou que 650 militares dos EUA haviam sido mortos nos dois primeiros dias da guerra. A agência citou um porta-voz da IRGC.>
A alegação foi repercutida por veículos de notícias globais de países como Índia, Turquia e Nigéria.>
Na época, o Pentágono havia confirmado a morte de seis soldados americanos. Em 13 de março, o Comando Central dos EUA confirmou a morte de mais sete militares americanos.>
As novas tecnologias também estão ajudando a mídia estatal a disseminar propaganda.>
Em uma publicação no Facebook, que já foi apagada, o canal de notícias estatal em inglês, Press TV, compartilhou um vídeo de um prédio em chamas, com colunas de fumaça subindo ao ar.>
"Fumaça sobe de um arranha-céu no Bahrein após o ataque do Irã", dizia a descrição.>
Mas uma análise mais detalhada revelou detalhes incomuns no vídeo, como dois carros aparentemente se fundindo em um só — um sinal de que o vídeo era falso e foi feito usando IA.>
"Embora o uso de conteúdo gerado por IA em propaganda de guerra certamente não seja novidade, o uso de falsificações de IA por grandes veículos de mídia estatal, mesmo aqueles que não têm exatamente uma reputação de se ater à verdade, é impressionante", diz Brett Schafer, diretor do centro de estudos britânico Institute of Strategic Dialogue.>
"O uso repetido de deepfakes pela mídia estatal iraniana sugere que isso é uma característica de sua cobertura de guerra, e não um erro.">
Assim como grande parte do conteúdo gerado por IA sobre a guerra que inundou as redes sociais, não está claro quem o criou e de onde veio. No entanto, desde o início da guerra, a BBC viu outros exemplos de imagens geradas por IA compartilhadas por veículos governamentais para promover sua narrativa. Grande parte dessas imagens é bem irrealista e tem a intenção de glorificar o Irã em vez de enganar.>
A Casa Branca e o presidente dos EUA, Donald Trump, também compartilham rotineiramente imagens ou vídeos assim gerados por IA. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, compartilhou recentemente no Instagram uma imagem gerada por IA que o retrata, junto com Trump e o primeiro-ministro em tempos de guerra, Winston Churchill, em uma pose triunfante. A publicação foi adicionada por um veículo de notícias por meio do recurso de colaboração da plataforma de mídia social.>
O histórico do Irã de disseminar "pequenas verdades" juntamente com informações falsas semeou dúvidas entre muitos críticos do regime dentro e fora do país.>
Quando a mídia estatal iraniana noticiou, em 3 de março, que mais de 160 crianças e funcionários foram mortos em um ataque a uma escola — no que especialistas independentes dizem ter sido provavelmente uma operação dos EUA visando uma base militar próxima — ela compartilhou uma imagem aérea de um funeral coletivo.>
Opositores do governo alegaram que a imagem havia sido gerada por inteligência artificial. Mas a imagem era real. Geolocalizamos a imagem em um cemitério a cerca de 3,7 km da escola, confirmando que as árvores, o traçado da estrada e um prédio próximo correspondiam aos visíveis nas imagens de satélite.>
Covas recém-cavadas também aparecem em imagens de satélite do dia seguinte ao funeral. No dia anterior, o solo estava sem buracos.>
"Temos que sustentar duas verdades ao mesmo tempo", diz Mahsa Alimardani, da Witness. O regime iraniano frequentemente oculta provas quando é o perpetrador de abusos, mas durante a guerra também investe pesadamente na documentação de vítimas civis.>
Embora essa documentação possa servir à propaganda e à narrativa de guerra do Estado, diz ela, isso não a torna automaticamente falsa.>
Quando se trata dos reportagens de veículos estatais do Irã, Alimardani observa que se deve manter uma dose saudável de ceticismo.>
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