Publicado em 15 de março de 2026 às 07:36
As cenas de numerosos romances e filmes distópicos apresentando conflitos com cenários de redução dos recursos naturais podem não estar muito longe da realidade, principalmente durante a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.>
Como era previsível, a guerra gira, em parte, em torno do petróleo, um recurso associado há muito tempo às intervenções ocidentais na região.>
Mas, à medida que o conflito se amplia e atinge os vizinhos do Golfo, analistas afirmam que outro recurso vulnerável se tornou um possível ponto de tensão: a água.>
O Golfo detém apenas 2% das fontes globais renováveis de água potável.>
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A região depende muito da dessalinização, principalmente com as pressões geradas pelo crescimento da indústria petrolífera, a partir dos anos 1950, e seu impacto sobre fontes que já eram limitadas.>
O Instituto Francês de Relações Internacionais indica que 90% da água do Kuwait vem da dessalinização. Este índice é de 86% em Omã, 70% na Arábia Saudita e 42% nos Emirados Árabes Unidos.>
"Em 2021, o volume total de produção das usinas de dessalinização, que retiram água do Golfo, foi de mais de 20 milhões de metros cúbicos por dia, o equivalente a 8 mil piscinas olímpicas diariamente", declarou Will Will Le Quesne, do Centro de Ciências do Meio Ambiente, Pesca e Aquicultura de Omã, ao programa de rádio Newsday, do Serviço Mundial da BBC.>
A produção agrícola e de alimentos também depende da água dessalinizada do Golfo. As reservas subterrâneas, normalmente empregadas para irrigação, foram seriamente esgotadas em toda a região.>
Esta dependência faz da infraestrutura de abastecimento de água uma vulnerabilidade estratégica, que tanto os Estados Unidos quanto o Irã aparentemente desejam explorar.>
Analistas descrevem a técnica de Teerã como "escalada horizontal", ampliando o escopo do conflito, em vez de confrontar diretamente os Estados Unidos e Israel. E atacar a infraestrutura de abastecimento de água parece fazer parte da estratégia iraniana, embora estruturada como retaliação.>
"Se os governos do Golfo acreditarem que a infraestrutura de abastecimento de água está sob ataque, eles serão mais propensos a pressionar os Estados Unidos a tentar pôr fim à guerra", explica o professor Marc Owen Jones, da Universidade do Noroeste, no Catar.>
Para ele, os ataques iranianos pretendem "criar um nível de pânico", influenciando os civis a "ficar ou sair".>
O Bahrein acusou o Irã de atacar diretamente uma usina de dessalinização. Já o Irã afirma que um ataque anterior dos Estados Unidos danificou uma usina de água na ilha de Qeshm, no Estreito de Ormuz.>
Também se acredita que os ataques iranianos ao porto de Jebel Ali, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, tenham chegado perto de uma das maiores usinas de dessalinização do mundo.>
E um incêndio suspeito foi relatado perto da Usina Independente de Energia e Água Fujairah F1, também nos EAU. As autoridades afirmam que a usina permanece funcionando.>
Já a usina do Oeste de Doha, no Kuwait, também teria sido danificada indiretamente, devido aos ataques a portos próximos ou à queda de fragmentos de ataques com drones.>
Para o Irã, "este é mais um jogo de sinalização", declarou à BBC o professor Kaveh Madani, chefe do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.>
O Irã também enquadrou todas as ações como reações "justificadas" aos ataques contra o país. Os ataques ao Bahrein, especificamente, foram justificados como retaliações ao ataque americano à ilha de Qeshm.>
Qualquer ataque à infraestrutura crítica de abastecimento de água mostra a capacidade do Irã e até onde ele está preparado para ir, em resposta às ações militares dos Estados Unidos e de Israel.>
Mas Madani indica que seu poder reside na ameaça de ataques dirigidos e mais sustentados às preciosas fontes de água do Golfo, não necessariamente indicando o que o Irã irá fazer no futuro.>
Historicamente, "a água sempre foi usada como arma e ameaça", segundo o professor.>
Madani destaca o artigo 45 da Convenção de Genebra como possível causa para a aparente cautela e restrição de Teerã sobre ataques mais óbvios e diretos às usinas de dessalinização do Golfo e ao enquadramento deliberado dos seus ataques como retaliatórios.>
"A lei determina que você não pode atacar infraestrutura civil, mas o Irã não foi quem começou. Era o que dizia a postagem de Abbas Araghchi nas redes sociais", explica Madani, parafraseando a opinião do ministro das Relações Exteriores iraniano.>
Araghchi qualificou o ataque à ilha de Qeshm como um "lance perigoso com graves consequências... um crime flagrante e desesperado", que limitou o abastecimento de água para diversas aldeias".>
Sustentados ou não, estes incidentes destacam a fragilidade dos Estados alinhados aos americanos, em relação à segurança do abastecimento de água.>
O Irã também é vulnerável, mas Madani ressalta que seu abastecimento de água é mais diverso que o dos seus vizinhos do Golfo e menos dependente da dessalinização.>
De qualquer forma, outros observadores afirmam que eventuais ataques à infraestrutura crítica de abastecimento de água no Golfo realizados pelo Irã poderão ser um convite a ataques retaliatórios próprios.>
O Irã vem se aproximando há algum tempo de um estado de "absoluta escassez de água".>
O baixo nível de chuvas, "vazamentos de água causados pela infraestrutura centenária de abastecimento de água da capital" e a Guerra dos 12 Dias contra Israel no ano passado contribuíram para a falta de água, segundo o ministro da Energia do Irã, Abbas Aliabadi.>
As represas de todo o país já estão em "estado preocupante", segundo Ahmad Vazifeh, do Centro Nacional de Gestão do Clima e da Crise da Seca do Irã. Os principais aquíferos estão sobrecarregados, rios como o Zayandeh Rud minguaram e o lago Urmia, no noroeste do país, encolheu dramaticamente.>
Décadas de construção de barragens, agricultura com uso intensivo de água e falhas de gestão agravaram a situação, segundo ambientalistas como o britânico Fred Pearce. E, em algumas regiões, a extração do lençol freático também causou sério afundamento do solo.>
As autoridades chegaram a alertar que Teerã, um dia, pode enfrentar racionamento ou evacuação parcial dos seus moradores.>
Pesquisadores indicam que esta é uma ameaça ao meio ambiente e à segurança nacional, que afeta a estabilidade e a resiliência econômica interna do Irã. E tudo isso é agravado pelas últimas semanas de intensos conflitos com os Estados Unidos e Israel.>
Antes da guerra, a escassez de água contribuiu para a instabilidade doméstica do Irã. Protestos no Cuzistão, Isfahan e em outras partes se misturam com reclamações mais gerais sobre o custo de vida e o ambiente político.>
As dificuldades do Irã em relação à água também se entrecruzam com as tensões regionais.>
O país mantém disputas antigas com o Afeganistão sobre o rio Helmand, com a Turquia sobre as represas dos rios Tigre e Eufrates e com o Iraque sobre cursos d'água compartilhados pelos dois países.>
A guerra vem destacando como os sistemas de abastecimento de água do Oriente Médio se fragilizaram e poderão influenciar os rumos e a duração do conflito, segundo analistas.>
As pressões ambientais aumentam os riscos de escalada, ao lado de fatores como as reservas de petróleo e gás. Os futuros conflitos na região podem ser determinados não apenas pelos oleodutos e petroleiros, mas também pelos rios, aquíferos e usinas de dessalinização.>
Neste e em outros conflitos, a água pode ser mais densa que o petróleo.>
Com colaboração da BBC News Persa.>
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