Publicado em 23 de março de 2026 às 09:34
O clima da Terra está mais desequilibrado do que em qualquer outro momento da história registrada, alertou a agência meteorológica da Organização das Nações Unidas (ONU).>
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirma que o planeta está acumulando muito mais energia térmica do que consegue liberar, impulsionado por emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono.>
Esse "desequilíbrio energético" recorde aqueceu os oceanos a níveis inéditos no ano passado e continuou a derreter as calotas polares do planeta.>
Cientistas temem que o El Niño, uma fase natural de aquecimento prevista para começar no fim deste ano, possa levar a novos recordes de calor.>
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Em resposta ao relatório, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reiterou seu apelo para que os países abandonem os combustíveis fósseis em favor de energias renováveis, a fim de "garantir segurança climática, segurança energética e segurança nacional".>
"O planeta Terra está sendo levado além de seus limites. Todos os principais indicadores climáticos estão em alerta vermelho", advertiu, em um discurso em vídeo de tom enfático.>
Os últimos 11 anos foram os 11 anos mais quentes já registrados desde 1850, segundo a OMM.>
Em 2025, a temperatura média global do ar ficou cerca de 1,43 °C acima dos níveis do período "pré-industrial", antes de os seres humanos começarem a queimar grandes quantidades de combustíveis fósseis.>
Um resfriamento temporário provocado pelo fenômeno La Niña fez com que 2025 não fosse tão quente quanto 2024, que foi intensificado pela fase oposta, o El Niño.>
Ainda assim, o ano passado foi um dos três mais quentes desde o início dos registros.>
Muitos cientistas agora acreditam que o aquecimento está se acelerando, embora afirmem que as temperaturas estão, em geral, dentro da faixa das previsões de longo prazo.>
E a OMM aponta para uma série de outras evidências que mostram que o clima está mudando mais rapidamente do que já vimos antes.>
Talvez a medida mais abrangente seja a quantidade de energia térmica extra que está sendo absorvida pela Terra.>
Esse "desequilíbrio energético", que impulsiona a mudança climática, atingiu um novo recorde no ano passado, afirma a OMM.>
Embora os cientistas ainda estejam investigando exatamente por que a Terra acumulou tanto calor extra na última década ou mais, eles não têm dúvida de que os gases de efeito estufa que retêm calor, como o dióxido de carbono (CO2), são a causa principal do desequilíbrio.>
Segundo a OMM, os níveis de CO2 na atmosfera estão nos maiores patamares do que em pelo menos dois milhões de anos, devido a atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis.>
Parte da energia extra retida por esses gases aquece a atmosfera e a terra, além de derreter o gelo do planeta.>
Segundo dados preliminares, as geleiras do mundo tiveram um de seus cinco piores anos já registrados em 2024/25, enquanto o gelo marinho nos dois polos ficou em níveis mínimos ou próximos deles durante a maior parte de 2025.>
Mas mais de 90% da energia extra da Terra aquece os oceanos, o que, por sua vez, prejudica a vida marinha, intensifica tempestades e contribui para a elevação do nível do mar.>
O calor armazenado nos 2 km superiores do oceano global atingiu um novo recorde no ano passado, afirma a OMM. Nas últimas duas décadas, o aquecimento ocorreu a um ritmo mais de duas vezes superior ao observado no fim do século 20.>
"As atividades humanas estão perturbando cada vez mais o equilíbrio natural e viveremos com essas consequências por centenas e milhares de anos", disse Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.>
O relatório aponta para os impactos atuais do aumento das temperaturas, que ajudam a intensificar diversos tipos de eventos climáticos extremos e favorecem a disseminação de doenças como a dengue.>
O sudoeste dos Estados Unidos enfrenta atualmente uma onda de calor recorde para início de temporada, com temperaturas que superaram os 40 °C em alguns locais nos últimos dias — cerca de 10 °C a 15 °C acima da média.>
Uma análise rápida realizada na sexta-feira (21/3) por cientistas do grupo World Weather Attribution concluiu que a intensidade do calor teria sido "virtualmente impossível" sem a mudança climática causada pelos humanos.>
Os pesquisadores também monitoram de perto o oceano Pacífico, com previsões de longo prazo indicando fortemente que uma fase de aquecimento do El Niño pode se formar na segunda metade de 2026.>
Um El Niño, somado ao aquecimento causado pela atividade humana, pode elevar as temperaturas até 2027.>
"Se passarmos para El Niño, veremos um aumento da temperatura global novamente, possivelmente atingindo novos recordes", disse John Kennedy, da OMM.>
O "Niño" que dá nome ao fenômeno é ninguém menos do que o menino Jesus (el niño Jesús, em espanhol). O evento climático recebeu esse nome por ser o primeiro identificado por pescadores do Peru e Equador na época do Natal.>
"O El Niño e a La Niña são duas fases opostas do mesmo fenômeno, que chamamos de El Niño Oscilação Sul [ou ENSO, na sigla em inglês]", explica Vinícius Lucyrio, meteorologista da Climatempo.>
"É um fenômeno que acopla condições oceânicas e atmosféricas. Ou seja: é o oceano influenciando diretamente nas condições atmosféricas.">
O El Niño é a fase quente deste fenômeno, que traz águas de temperatura mais elevada para a faixa equatorial do Pacífico Sul, na costa norte do Peru e do Equador, se estendendo ao sul da linha imaginária até quase a Oceania.>
Isso ocorre por um enfraquecimento dos ventos alísios, um sistema de ventos que sopram de leste para oeste na região equatorial, explica Lucyrio.>
Já a La Niña é a fase fria do fenômeno, com temperaturas abaixo da média nas água do Pacífico Sul, sob efeito de ventos alísios fortalecidos que favorecem a ressurgência de águas profundas mais frias na costa do Peru e do Equador.>
No Brasil, a La Niña afeta as chuvas nos dois extremos do país.>
No Sul, ficam mais irregulares, favorecendo períodos de estiagem e seca. Já no Norte e Nordeste, há um aumento das precipitações, principalmente entre agosto e fevereiro.>
A La Niña também traz temperaturas abaixo da média ao país, ao favorecer a passagem de frentes frias. Isso ajuda a explicar, por exemplo, o verão mais ameno esse ano no Sudeste, observa o especialista da Climatempo.>
Já o El Niño traz tempo mais quente em todo o Brasil, principalmente entre o final do inverno e o verão. E, nas chuvas, o sinal se inverte. No Norte e Nordeste, a chuva tende a ficar abaixo da média, enquanto no Sul, fica acima.>
* Reportagem adicional de Thais Carrança>
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