As mensagens reveladas entre o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e um número associado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), têm potencial de alimentar um sentimento de descrédito em relação às instituições e abrir espaço para candidaturas que se apresentam como alternativa à classe política tradicional, avalia a cientista política e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Graziela Testa.
Em entrevista à BBC News Brasil, Testa afirma que ainda é cedo para medir os efeitos eleitorais do episódio, principalmente porque novas informações podem surgir e alterar a percepção pública sobre o caso.
Mas, segundo ela, os eleitores indecisos podem ser os mais afetados pelas notícias recentes envolvendo Vorcaro e Moraes.
Para a cientista política, apoiadores fiéis do ex-presidente Jair Bolsonaro e do seu filho, o senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL), tendem a manter suas preferências eleitorais independentemente do desdobramento do caso, assim como eleitores identificados com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
"A grande pergunta é o quanto o eleitor indeciso será impactado", diz. "Há o risco do escândalo resultar em um sentimento antipolítica, com o eleitor entendendo que a política tradicional está contaminada", diz. "Isso pode favorecer candidaturas de 'outsiders', que se vendem como de fora da política tradicional."
Nesse contexto, diz, candidatos como Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) podem ganhar vantagem.
Mas segundo Testa, o desafio para que eles aproveitem o momento está em conseguir, de fato, se posicionar como atores que não fazem parte da política tradicional brasileira.
"A questão é qual deles vai conseguir comunicar para a população a ideia, de fato, de [ator] externo", diz. "Existem várias formas de se entender alguém como de fora da política."
Cury está atualmente em terceiro lugar na corrida pela Presidência, de acordo com o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
O candidato do Avantes aparece no primeiro turno com uma intenção de voto de 10% nos cálculos do agregador. Já Renan Santos aparece na quarta posição, com 4% das intenções de voto.
Os primeiros colocados nas intenções de voto para o primeiro turno são o presidente Lula, que tem 38% no primeiro turno, seguido por Flávio Bolsonaro, que aparece com 31% da preferência do eleitorado, de acordo com o agregador. No segundo turno, os dois agora aparecem empatados, com 44% das intenções de voto cada.
'Caso vai dominar debate público'
Graziela Testa também acredita que o episódio tem potencial para dominar o debate público nas próximas semanas, reduzindo temporariamente a atenção dedicada a outros temas políticos.
Segundo ela, a agenda pública costuma ser concentrada em um assunto por vez, ainda que a duração desses ciclos de atenção tenha diminuído nos últimos anos.
"É muito provável que a agenda pública fique voltada para isso agora [revelação das mensagens entre Moraes e Vorcaro] e que outras questões diminuam", diz, em referência a outros escândalos políticos que envolvem os candidatos à Presidência, tal como as investigações sobre o filho mais velho do presidente Lula, conhecido como Lulinha, e o próprio envolvimento de Flávio Bolsonaro com Vorcaro.
A cientista política, no entanto, ressalta que ainda há muitas incertezas sobre os desdobramentos do episódio. Ela lembra que novas informações podem surgir e modificar a compreensão pública dos fatos, tornando prematuras conclusões mais definitivas sobre seus efeitos.
Testa também destaca a importância de diferenciar eventuais críticas dirigidas a integrantes específicos do Judiciário da avaliação sobre as instituições em si.
Segundo ela, o debate atual está mais concentrado em atores individuais que aparecem nas informações divulgadas até o momento do que propriamente no funcionamento do Supremo como instituição.
O caso
Um relatório da Polícia Federal (PF) cujo sigilo foi retirado na terça-feira (1/09) analisou uma série de mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro.
Nas conversas, foram reveladas interações atribuídas pelos investigadores a Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes e pessoas ligadas à família do ministro.
As conversas incluem um suposto pedido do banqueiro, em 30 de outubro de 2025, para que Moraes interferisse a seu favor na atuação do procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Segundo a PF, em outra mensagem ao ministro, enviada no dia 15 de novembro, Vorcaro perguntou se deveria deixar o Brasil — ele foi preso dois dias depois, quando tentava sair do país para Dubai. No dia seguinte, o Master foi liquidado pelo Banco Central.
As investigações também confirmaram que o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, mantinha um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master, e que esse documento chegou a ser editado por Moraes.
O sigilo do relatório da PF foi retirado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator de inquéritos que apuram as fraudes bilionárias no Banco Master.
Na segunda-feira (31/8), Mendonça determinou que a PGR analisasse o documento e se manifestasse sobre a abertura de uma investigação contra Alexandre de Moraes.
Paulo Gonet, porém, foi na direção oposta e pediu a anulação do caso. Na sua visão, Mendonça não poderia ter solicitado diretamente à PF que produzisse um relatório sobre Moraes.
Segundo o PGR, o ministro teria que ter submetido a questão ao plenário da Corte antes de determinar essa apuração inicial. "Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais", argumentou, em sua manifestação.
Gonet também é mencionado no relatório da PF. Segundo os investigadores, o advogado Ciro Soares, ex-defensor do Banco Master, aparece como intermediador de contatos entre Vorcaro e o PGR.
Ele teria atuado em março de 2025 para que o banqueiro incluísse Pedro Gonet, filho do PGR, em uma viagem para Londres bancada pelo Master, para participação de um evento.
Dias antes, naquele mesmo mês, Soares mandou uma foto ao lado de Paulo Gonet para Vorcaro, informando que estava com o PGR. Na sequência, ambos trocam ligações. Gonet ainda não se manifestou sobre as revelações.
Após a publicação do relatório, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, afirmou que vai anunciar "medidas cabíveis e necessárias" nos próximos dias.
Em um comunicado, Fachin disse que em momentos de especial gravidade "é dever de todos preservar a integridade do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito às suas normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição".
Também após as revelações sobre os supostos contatos entre Vorcaro e Moraes, o ministro André Mendonça confirmou que teve ele próprio teve um encontro com o banqueiro do Banco Master, em março de 2025. Ele disse também ter se encontrado com o advogado do empresário no mesmo mês.
A confirmação veio em uma nota enviada à imprensa pouco depois que o jornalista Paulo Motoryn revelou o encontro em seu Substack, uma plataforma online que permite que seus usuários publiquem e distribuam newsletters.
Motoryn escreveu na newsletter "Noites Húngaras" que obteve mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro. Segundo esse material, a reunião teria ocorrido em 14 de março de 2025, em São Paulo, e durado duas horas.
O encontro teria sido realizado, segundo Motoryn, em um instituto fundado pelo próprio magistrado.
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