Publicado em 9 de março de 2026 às 07:11
Aos 31 anos, a carioca Mayara Magri ocupa um dos postos mais cobiçados da dança clássica mundial: é bailarina principal do Royal Ballet, companhia residente da Royal Opera House, em Londres.>
No palco, interpreta alguns dos papeis mais emblemáticos do repertório, como Giselle — balé romântico do século 19, conhecido pelo contraste entre a doçura do primeiro ato e a dramaticidade sobrenatural do segundo, que a brasileira estreiou como bailarina principal no último sábado, 28 de fevereiro.>
Nascida no Rio de Janeiro, ela começou a dançar aos oito anos, quase por acaso. Uma amiga frequentava uma escola de balé e a convidou para conhecer o estúdio.>
"Foi bem natural para mim estar ali. Eu lembro de ter curtido o espaço, o movimento e a música. Foi mais instintivo do que qualquer outra coisa", recorda. Não houve pressão familiar. Pelo contrário: o incentivo veio de professores que identificaram talento e ajudaram a moldar a futura bailarina.>
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Aos 14 anos, Mayara começou a perceber que aquilo que parecia apenas uma atividade da infância poderia, sim, se transformar em carreira. >
"Meus professores me levavam para concursos regionais e eu comecei a me dar muito bem, ganhar medalha… e eu comecei a me destacar", diz. >
O passo seguinte foi intensificar a rotina: mais horas de treino, dedicação diária e a mira em competições internacionais. Em 2011, ela foi treinada por seis meses para disputar o Prix de Lausanne, um dos concursos mais conhecidos do mundo para jovens bailarinos. "Foi o que realmente mudou tudo para mim", afirma.>
Filha de um taxista e de uma secretária que hoje trabalha na mesma escola de dança, Mayara hoje olha para o começo com gratidão a coragem e ao incentivo que recebeu dos pais.>
"Eles foram muito corajosos por acreditar que eu conseguiria uma carreira com algo que eles não tinham nem noção que era possível.">
Aos 16 anos, mudou-se sozinha para Londres para estudar na Royal Ballet School. Os pais nunca tinham saído do Brasil. Ainda assim, permitiram que a filha atravessasse o oceano em busca de um sonho.>
"Eu acho que por ser brasileira, eu trago comigo uma força espiritual muito, muito forte. Uma determinação de correr atrás daquilo que eu quero seguir", afirma.>
Para Mayara, essa persistência — a ideia de "não se tranquilizar com o conquistado, de sempre querer mais" — foi um diferencial dentro da companhia britânica.>
"Essa determinação de fazer melhor, de encontrar uma nuance diferente para cada dia, para cada apresentação, para cada papel.">
Há 14 anos vivendo fora do país, Mayara leva uma rotina que combina arte e alta performance física. Ainda que o balé seja uma arte, a preparação para cada espetaculo mais se assemelha ao de atletas de alta perfomance.>
Antes de cada estreia, são semanas de treino e ensaios intensos.>
"O trabalho físico vem antes e durante o treino de três, quatro semanas antes de uma apresentação, para que quando você esteja no palco, você esteja aberta para curtir a emoção do momento e tentar se conectar com o público.">
No Royal Ballet, ela diz, a exigência vai além da virtuosidade em um único tipo de movimento. "Você tem essa divisão… de você ser completo e tentar trazer os dois para tudo o que você faz", afirma, ao descrever a combinação entre o refinamento dos detalhes — "uma expressão, um olhar" — e a força física necessária para coreografias que empurram o corpo ao limite. >
"Nós temos que cuidar do nosso corpo… como um atleta, nós temos que puxar os nossos extremos", diz. E dá um exemplo: "Um bailarino, se ele não consegue saltar, ele tem que trabalhar no salto dele… mas também tem que trabalhar na parte dos movimentos mais lentos e saber fazer as coisas rápidas também.">
No palco, o objetivo vai além da execução impecável dos passos. >
"O mais importante é tentar fazer o público sentir algo, levar para casa, se sentir tocado, transformado de alguma forma." Em tempos de notícias duras e incertezas globais, ela vê o teatro como um espaço de suspensão da realidade. "Que eles venham ao teatro e esqueçam das barbaridades que veem no mundo." >
Para sustentar essa entrega, Mayara diz que conta com uma estrutura de suporte dentro da companhia, com equipe dedicada à preparação física e ao cuidado do corpo: "Temos sala de pilates, fisioterapeutas e massagistas que realmente trabalham para ajudar a gente nessa trajetória que não é fácil… de corpo e alma, praticamente.">
Essa busca por conexão ganha intensidade em papéis dramáticos como o de Giselle. Mayara diz que continua descobrindo aspectos novos da personagem, mesmo após diversas apresentações.>
"É um balé que eu sempre sonhei muito em dançar aqui nessa companhia." >
O vínculo com a história vem de longe: ela conta que, ainda adolescente, aos 14 anos, foi escolhida por professores para interpretar Giselle em uma apresentação de fim de ano no Brasil. >
"Foi lá… que comecei a assistir vídeos da produção, a entender a história", lembra. Na época, diz, faltava maturidade. Agora, às vésperas da estreia como principal em Londres, ela afirma que reaproveita aquele estudo antigo como uma espécie de fio emocional que atravessa os anos e desemboca no presente.>
Para ela, interpretar Giselle exige abertura emocional e disponibilidade para viver o drama em cena. >
"O que eu busco como bailarina é realmente sentir a história e me abrir para o público, para que eles também possam sentir esse vínculo de troca de emoções." >
Ela descreve Giselle como um desafio duplo: narrativo e físico. No primeiro ato, a personagem é "uma menina ingênua do vilarejo que está amando pela primeira vez" — até sofrer uma decepção amorosa. A partir daí, a trama muda de plano. >
"Ela morre e vai para esse mundo… das Willis", diz, citando o mito que, na história, ronda o imaginário do vilarejo. "É um contraste incrível entre um ato e o outro… o real e o espiritual. E eu adoro porque eu adoro um desafio.">
O segundo ato, afirma, tem a dificuldade da "técnica clássica pura". Ela descreve o paradoxo do que o público vê — leveza e suspensão — e do que o corpo precisa entregar para produzir essa sensação. >
"Você saltar bem alto, mas parece que você não tá nem aterrissando… usar os braços de uma forma que parece que você não está se ajudando a saltar", diz. "Mas o corpo tá ali… a musculatura está toda impulsionada para você conseguir dar o maior salto que você consegue. Mas até rezar com calma." >
Mesmo no topo da hierarquia da companhia, ela descreve a carreira como um processo contínuo de testes e reinvenção. Mayara entrou no Royal Ballet no corpo de baile e foi avançando "nível" a "nível", de acordo com oportunidades e avaliações que medem técnica e interpretação. >
"Se fosse um teste, uma prova, eu diria que eu passei em todos os testes para estar fazendo o que eu estou fazendo hoje." >
Ainda assim, diz, a sensação de aprendizado não termina. "Eu sinto que eu nunca vou parar de aprender, porque cada balé é diferente… eu tento sempre servir o propósito do balé, o que é necessário de mim." >
Ela descreve esse processo como um lugar de vulnerabilidade: mudar a cada produção, arriscar escolhas artísticas sem ter certeza imediata do resultado.>
Ao falar sobre o que vem pela frente, Mayara não descreve o posto de bailarina principal como linha de chegada, mas como acúmulo — de experiência, repertório e responsabilidade. "Nada muda muito. Eu acho que só acrescenta", afirma. >
Ela diz que tem consciência de que onde chegou é o sonho de muitas meninas — e que, quando o corpo começar a pedir menos, quer transformar o que viveu em passagem de bastão.>
"Que eu possa passar toda essa informação… para a próxima geração, que seja ensinando, que seja conversando, que seja mostrando que é possível viver disso.">
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