Publicado em 8 de outubro de 2023 às 17:25
A administradora Natasha Vilhena tomava um banho quando passou o sabonete no peito e sentiu um caroço na mama. O episódio aconteceu em novembro de 2015. Ela tinha 27 anos de idade e havia casado há dois meses.>
Preocupada com a descoberta inesperada, Vilhena resolveu investigar e, após uma batelada de exames, recebeu o diagnóstico em dezembro daquele mesmo ano: ela estava com câncer de mama.>
"Eu queria resolver logo essa situação. Falei com o mastologista e, uma semana depois, já tinha feito a cirurgia para retirar o tumor", lembra.>
Mas o tratamento não parou por aí: ela ainda passou por sessões de quimioterapia e radioterapia antes de iniciar a hormônioterapia, um comprimido tomado diariamente para regular a ação de hormônios que estimulam o crescimento das células tumorais e o reaparecimento da doença.>
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Geralmente, essa etapa terapêutica (a hormonioterapia) se estende por cinco a dez anos.>
Só que antes mesmo de começar a quimioterapia, Vilhena precisava tomar uma decisão de vida muito importante. "Eu queria ser mãe.">
Aconselhada pelos médicos, a administradora adicionou uma nova etapa antes de continuar a cuidar do câncer. Ela fez um congelamento de óvulos — as células reprodutivas podem ser afetadas pelas substâncias químicas ou pela radiação aplicadas para destruir as células tumorais remanescentes.>
Com os gametas assegurados, Vilhena fez as sessões de químio e radioterapia. Depois, como planejado, começou a tomar o comprimido diário de tamoxifeno, o remédio que bloqueia a ação de alguns hormônios.>
"Quando completei três anos de tamoxifeno, os médicos disseram que eu poderia ter um filho", conta ela.>
Após dois meses sem a hormonioterapia, Vilhena foi orientada a buscar a gestação por meios naturais, sem recorrer ainda aos óvulos congelados. E, depois de cinco meses de tentativas, veio a notícia: ela estava grávida.>
"Minha gestação foi ótima e correu bem, apesar de tudo ter acontecido em 2020, durante a pandemia de covid-19", diz Vilhena.>
A bebê Leonor nasceu saudável no início de 2021 — e, após três meses de amamentação, a nova mamãe retomou a hormonioterapia contra o câncer de mama.>
"Lembro que, logo após o diagnóstico, a primeira coisa que o oncologista me disse foi: 'Natasha, com certeza você vai morrer algum dia, porque essa é a única certeza que a gente tem na vida. Mas eu posso te garantir que você não vai morrer por causa deste tumor'", recorda Vilhena, hoje aos 35 anos.>
"Essa frase parece simples, mas para mim foi muito importante ouvi-la.">
Histórias como a de Vilhena revelam uma face recente e ainda pouco conhecida do câncer de mama.>
Segundo médicos ouvidos pela BBC News Brasil, o avanço no tratamento permite colocar a paciente — e não o tumor — no centro dos cuidados, de modo que outros aspectos da vida (como o desejo de formar uma família) passam a ser decisivos até nas escolhas terapêuticas.>
O oncologista Ricardo Caponero, diretor científico da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), destaca dois movimentos antagônicos que afetam o cenário relacionado a esse tipo de tumor.>
"Primeiro, percebemos que as mulheres estão apresentando câncer de mama cada vez mais cedo", observa o médico.>
Antes, a esmagadora maioria dos casos era diagnosticado após os 50 anos de idade. Agora, por motivos que ainda não foram 100% elucidados, a doença aparece com frequência crescente entre as mais jovens. Para ter ideia, 20% dos tumores de mama são detectados atualmente em brasileiras com menos de 40 anos.>
"Em segundo lugar, o projeto de maternidade é deixado para cada vez mais tarde. A mulher faz faculdade, pós-graduação e quer progredir na carreira antes de ter um filho", acrescenta Caponero.>
O oncologista se lembra que, no passado, era comum gerar descendentes na casa dos 18 aos 25 anos. Um levantamento realizado no Estado de São Paulo revelou que, em 2019, 39% das novas mamães possuíam entre 30 e 39 anos.>
Esses dois fenômenos causam um choque: cada vez mais mulheres são diagnosticadas com o tumor nas mamas justamente no momento da vida em que planejavam uma gestação. >
E, por causa da doença em si e dos possíveis efeitos colaterais do tratamento, o sonho de ser mãe entrava em xeque. >
"Há 25 anos, quando comecei na Oncologia, conversar com a paciente sobre gravidez era praticamente um pecado", admite o médico Daniel Gimenes, da Oncoclínicas.>
"Por causa dos medos relacionados ao câncer, falar em métodos de fertilização, de congelamento de óvulos, era algo praticamente proibido. E acontecia muito de as mulheres dizerem: 'Engravidei. O que faço agora?'", relata o oncologista.>
Embora muitas gestações acontecessem na prática durante o tratamento do câncer de mama, esse tema ainda era cercado de tabus e mistérios até muito recentemente. >
Havia um medo entre os especialistas de que o turbilhão hormonal desencadeado pela formação do embrião no útero poderia engatilhar um novo crescimento do câncer na mama.>
A coisa mudou completamente de figura em maio deste ano, com a divulgação do estudo Positive, publicado no periódico The New England Journal of Medicine. >
Liderado por cientistas do Instituto do Câncer Dana-Farber, da Universidade Harvard, nos EUA, a pesquisa pretendia entender se a interrupção da hormonioterapia contra o câncer de mama para tentar uma gravidez é de fato segura.>
No total, 497 mulheres com câncer de mama que desejavam ter um filho foram acompanhadas. Dessas, 368 (ou 74%) engravidaram e 317 (63,8%) tiveram um bebê. Segundo os autores, os números são bem parecidos à média da população.>
Para completar, a interrupção do tratamento e a gravidez em si não representaram uma ameaça à saúde dessas mulheres. Entre aquelas que tentaram uma gestação, 8,9% tiveram algum evento relacionado ao câncer (como a reincidência do tumor nas mamas), ante 9,2% no grupo controle (formado por voluntárias que tinham a doença, mas não buscavam gerar um filho).>
"Vivemos um momento extraordinário na Oncologia, particularmente no câncer de mama", comemora o médico Pedro Exman, do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.>
"O estudo Positive respondeu uma pergunta extremamente importante, que gerava angústia em pacientes e médicos", destaca ele.>
A partir do trabalho, portanto, especialistas se sentem mais confortáveis e confiantes para inserir a maternidade — quando há esse desejo da paciente — no planejamento terapêutico do câncer de mama.>
Mas, é claro, a possibilidade de paralisar o tratamento depende de uma série de etapas e critérios, como você confere a seguir.>
Para que a maternidade durante o intervalo no tratamento do câncer de mama seja possível, é preciso em primeiro lugar que a mulher esteja em idade fértil (ou seja, ainda não tenha alcançado a menopausa) e reúna as condições de saúde básicas para ter a gravidez.>
Segundo ponto: existem diferentes tipos de câncer de mama. Eles são classificados segundo a gravidade e também de acordo com as características "comportamentais" e genéticas das células tumorais. >
No estudo Positive, 93,4% das pacientes se encontravam no estágio 1 ou 2, em que a doença está em fase inicial e ainda não se espalhou para outros órgãos ou tecidos (num processo conhecido como metástase).>
Todas as voluntárias também apresentavam tumores com receptores para os hormônios. Essas substâncias, produzidas pelo sistema endócrino do próprio corpo, estimulam a multiplicação das células cancerosas.>
Na contramão, o uso do tamoxifeno e outros remédios dessa classe bloqueia a ação desses hormônios e, assim, ajuda a prevenir o reaparecimento do câncer.>
A boa notícia é que os cânceres de mama com receptor hormonal positivo representam uma grande fatia dos casos — o que significa que a situação analisada no estudo Positive se assemelha à realidade de muitas pacientes.>
"Tumores hormonais positivos englobam ao redor de 70% dos casos de câncer de mama", calcula a oncologista Solange Sanches, do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo.>
Mas como a interrupção do tratamento funcionaria na prática?>
A exemplo da história de Natasha Vilhena, contada no início desta reportagem, o primeiro passo após o diagnóstico do câncer de mama costuma ser a cirurgia, que faz a retirada dos nódulos principais.>
Mas há sempre o risco de sobrar algumas células tumorais microscópicas, impossíveis de ver a olho nu. Essas unidades podem se multiplicar e dar origem a novos caroços.>
É para evitar esse cenário, e fazer uma espécie de "pente-fino", que os especialistas indicam as sessões de químio e/ou radioterapia.>
Antes que essa segunda leva terapêutica comece, porém, é importante ter a conversa sobre maternidade e o eventual congelamento de óvulos (se a paciente tiver essa disponibilidade financeira): afinal, pode ser que as substâncias químicas e a radiação afetem as células reprodutoras .>
Ao preservar os gametas femininos, é possível buscar uma fertilização in vitro, caso o procedimento seja necessário no futuro.>
Terminada a químio e a rádio, a mulher geralmente recebe a orientação de seguir com a hormonioterapia por anos — em alguns casos, o tamoxifeno precisa ser tomado por até uma década.>
No estudo Positive, as mulheres "pausaram" o tratamento depois de 18 a 30 meses de comprimidos diários.>
Elas foram orientadas a aguardar dois meses antes de iniciar as tentativas de engravidar, para dar tempo de o organismo se livrar totalmente do fármaco.>
O tempo livre de tamoxifeno — que inclui as tentativas de engravidar, os nove meses de gestação e um período de amamentação — se estende por cerca de dois anos.>
A seguir, a mulher retoma a hormonioterapia, por meio dos comprimidos diários, até completar o esquema terapêutico estabelecido pelos profissionais de saúde. >
De acordo com os médicos ouvidos pela BBC News Brasil, os avanços no conhecimento sobre o câncer de mama permitem que médico e paciente conversem mais e possam levar em conta outras questões que vão além do tumor — como os sonhos e as aspirações de vida.>
"Logo na primeira consulta, precisamos entender o estilo de vida daquela paciente, o trabalho que ela faz e quais são as perspectivas dela. Isso tudo influencia no planejamento do tratamento", admite Sanches.>
Nesse bate-papo inicial, os especialistas consultados consideram praticamente "obrigatório" falar sobre fertilidade e o sonho de ser mãe — na visão deles, mesmo que a mulher não pense em ter filhos agora, é importante saber os desejos dela para que a terapia se adeque aos sonhos futuros.>
Gimenes destaca que, mais recentemente, alguns trabalhos passaram a sugerir que a gravidez pode promover algumas mudanças hormonais que até protegem as pacientes.>
Uma dessas pesquisas, realizada na Universidade de Gênova, na Itália, fez uma revisão de 39 estudos já publicados sobre o tema. Os autores observaram que as mulheres com câncer de mama que tiveram uma gravidez após o tratamento tiveram um tempo de sobrevida maior quando comparadas às pacientes que não gestaram um bebê.>
Como conclusão, os autores destacam que "os desejos de engravidar das pacientes devem ser considerados como um componente crucial dos planos de cuidados de sobrevivência delas".>
Importante: esses achados ainda precisam ser confirmados por outras investigações mais robustas, que utilizam outras metodologias.>
Por fim, a psicóloga Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, chama a atenção para a desigualdade no tratamento do câncer de mama no Brasil.>
"Não há dúvidas que a Oncologia tem utilizado um olhar cada vez mais amplo", admite ela.>
"Mas a possibilidade de individualizar o tratamento ainda é desigual. Infelizmente, falar sobre temas como fertilidade e bem-estar durante o tratamento ainda está restrito a um número muito pequeno de mulheres", lamenta.>
Para a especialista, o tratamento contra o câncer está repleto de boas notícias que são acessíveis a um número limitado de pacientes.>
"O congelamento de óvulos, por exemplo, é um procedimento caro para a maioria da população", diz Holtz.>
Para lidar com um desafio deste tamanho, a psicóloga aposta no trabalho da equipe multidisciplinar, constituída de profissionais com diferentes formações, que conseguem acompanhar a pessoa com câncer sob diferentes ângulos e necessidades>
"A gente sabe como esses olhares distintos, do oncologista, do psicólogo, do assistente social, do nutricionista, do preparador físico, podem fazer com que o paciente se sinta cuidado de forma integral", conclui Holtz.>
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), 73,6 mil casos e 18 mil mortes por câncer de mama são esperados a cada ano no país.>
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