Publicado em 4 de outubro de 2025 às 13:32
É véspera de Ano Novo em 2019. Giulia Baccosi está em uma festa com seus amigos, quando toca o telefone.>
A jovem de 31 anos aceitou recentemente um novo emprego na Sicília (Itália), mas não tem certeza se tomou a decisão correta.>
"Meu coração me dizia que talvez eu devesse reconsiderar", conta ela. "Olho para o céu e peço um sinal para o Universo, me dizendo se estou no caminho certo.">
A mensagem no celular de Baccosi vem de uma amiga, dizendo que um navio cargueiro transportando rum e azeite de oliva está prestes a zarpar da Europa para a América Central — e precisa de um cozinheiro.>
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Baccosi já havia trabalhado como cozinheira em um navio e decide aceitar este novo emprego, em vez de ir para a Sicília.>
"Vou com você até o México", conta ela ao telefone para o dono do navio, "e, depois, saio.">
A previsão é que este trecho da viagem leve cerca de três meses. E, em seguida, Giulia Baccosi pretende voltar para sua vida na Itália.>
Mas não é assim que as coisas funcionam.>
No início de janeiro, aumenta a expectativa a bordo do Avontuur. A escuna de 100 anos de idade sai da Alemanha e se dirige às áreas agitadas do mar do Norte.>
Giulia Baccosi irá cozinhar três refeições por dia para a tripulação faminta e gerenciar os suprimentos.>
A primeira escala é Santa Cruz de Tenerife, nas ilhas Canárias. A tripulação pode ouvir os tambores distantes do enorme carnaval da cidade.>
Depois de 36 dias no mar, todos estão ansiosos para se divertir. E, ao descer no porto, a tripulação se vê rodeada de foliões com roupas deslumbrantes.>
"Nós nos perguntávamos: 'O que faremos? Vamos participar da festa!'", relembra ela.>
Na manhã seguinte, em meio a uma leve ressaca, surge um boato sobre visitantes na ilha que ficaram doentes devido a um vírus misterioso e foram colocados em quarentena no hotel. Mas a tripulação logo esqueceu o incidente, enquanto se preparava para seguir viagem.>
Certa manhã, pouco tempo depois, Baccosi está cortando frutas e mexendo mingau, quando o vigia noturno comenta com ela sobre uma pequena luz incomum identificada no horizonte.>
O Avontuur está a 45 milhas náuticas (83 km) do litoral da ilha Gran Canária e a luz está longe demais para ser um barco de pesca. Surgem rapidamente os gritos de comando, as velas são baixadas e o motor, usado apenas em emergências, é ligado.>
"O que está acontecendo?", pergunta a jovem. "É realmente o que eu acho que seja?>
Quando a luz chega mais perto, ela vê um pequeno barco de pesca de madeira, com 11 homens e cinco mulheres a bordo, lotando a embarcação de tal forma que eles mal conseguem ficar de pé.>
"Eles estão acenando", conta Baccosi, "e podemos ouvi-los gritando à distância.">
À medida que o Avontuur se aproxima, as pessoas a bordo do minúsculo barco ficam cada vez mais angustiadas.>
"Todos eles queriam ser os primeiros a sair daquele pesadelo", ela conta. "Eles são os seres humanos mais frágeis e vulneráveis que podem existir.">
Os ocupantes do barco estavam à deriva no mar há mais de 10 dias. Eles não tinham mais água, comida, nem combustível.>
Eles tentavam cruzar do oeste da África para as ilhas Canárias, uma das travessias mais perigosas do mundo. Dezenas de milhares de pessoas tentam fazer este trajeto todos os anos e milhares deles morrem no caminho.>
Trazidos a bordo do Avontuur, os migrantes exaustos recebem alimento, água e assistência médica.>
"Lembro-me de um deles me dizer 'eu não sabia que o mar é tão grande'", conta Baccosi.>
O Avontuur não conseguia transportar mais 16 passageiros. Por isso, foi chamada a guarda costeira.>
"Não há heróis... nenhum deles se sente assim", escreveu Giulia Baccosi posteriormente, no seu diário.>
"Nós fizemos o que qualquer ser humano decente deveria fazer — e faria — no nosso lugar.">
Dias depois, o Avontuur retorna ao Oceano Atlântico e a tripulação é chamada para se reunir no convés. O capitão, então, lê um email do dono do navio.>
"O mundo que vocês conhecem não existe mais", começa o email.>
"Os portos estão fechando, os aeroportos estão fechando, voos são cancelados. Supermercados, lojas, fronteiras — tudo está fechado.">
Segue-se um momento de silêncio.>
"Ficamos nos olhando uns para os outros, um tanto surpresos, um pouco confusos", conta ela. "O que estará acontecendo com nossos entes queridos em casa?">
O mundo está começando a fechar devido à covid-19, mas, na verdade, ninguém entende exatamente o que isso significa.>
"Eu quis falar com meu namorado, quis ligar para minha mãe, minha avó, meu irmão", relembra Baccosi.>
"Fiquei tomada pelo medo de que algo acontecesse com eles enquanto eu estava no mar, sem poder nem mesmo falar com eles uma última vez.">
O único ponto de contato entre a tripulação e o resto do mundo é um e-mail diário por satélite, que conecta o navio ao seu local de procedência, na Alemanha. E o sinal de telefone ainda está a pelo menos seis dias de distância.>
Sem saber se terá autorização para atracar em algum lugar, o Avontuur navega em direção ao Caribe.>
Ao se aproximar de Guadalupe, Baccosi se senta no convés e se agarra ao telefone celular, aguardando um sinal.>
Quando a ligação é finalmente completada, ela se desmancha em lágrimas.>
"O que vocês vão fazer?", pergunta o parceiro dela.>
"Não tenho ideia de nada", responde a jovem. "Ninguém sabe.">
Normalmente, a chegada a um novo porto significa carga e descarga, licença para desembarcar e a compra de provisões. Para a tripulação, deveria ser uma oportunidade para descansar, andar em terra firme, fazer telefonemas, enviar mensagens e ter um tempo para se divertir.>
"Quando você divide um navio com 15 pessoas, você nunca fica a mais de alguns metros de distância de todos os outros seres humanos com quem você vive", conta ela.>
Parece haver pouca atividade no porto, até que surgem alguns funcionários, usando máscaras cirúrgicas. Eles pedem ao Avontuur que saiam de Guadalupe o mais rápido possível, deixando a tripulação sem acreditar no que estava acontecendo.>
Depois de não conseguirem licença em terra após mais de três semanas no mar e ainda se recuperando da notícia de que o mundo está em lockdown, os tripulantes se preocupam com o que virá pela frente.>
Sua próxima escala é Honduras, que pode estar a até 15 dias de distância. "Será que realmente devemos seguir adiante?", pergunta-se Baccosi.>
Nas semanas seguintes, enquanto as pessoas em terra não conseguem se misturar livremente, a tripulação do Avontuur é proibida de descer do navio na maioria dos portos.>
Fica claro que todas as chegadas e partidas planejadas do navio são impensáveis, incluindo o plano de Giulia Baccosi, de desembarcar no México. E também parece improvável que alguém consiga colocar os pés em terra firme em qualquer porto, até que o Avontuur retorne à Alemanha.>
Com isso, conseguir comida fica cada vez mais difícil, o que deixa Baccosi preocupada.>
Como ela conseguirá alimentar os 15 membros da tripulação, agora confinados a um espaço com o tamanho aproximado de uma quadra de basquete, enquanto a tensão entre eles aumenta?>
Os pensamentos da jovem se voltam cada vez mais para os seus entes queridos. Ela rascunha uma mensagem e deixa pronta para postar no Instagram.>
"Parece surreal ficar confinada nesta bolha flutuante", escreve ela. "Espero que vocês estejam todos bem e seguros por aí.">
Para combater o tédio e a ansiedade, a tripulação começa a fazer artesanato, desenhar e tocar instrumentos. Eles montam uma rede de carga para poderem nadar com segurança na popa e alguns encontram alívio em relacionamentos amorosos.>
"Existe química, existe atração", conta Baccosi.>
"Buscar intimidade e toque físico é muito humano. Nesses momentos, você consegue esquecer que existe algo lá fora que está fora de controle.">
A tripulação também encontra conforto nas maravilhas do oceano, como golfinhos e peixes-voadores. Uma noite, eles recebem a visita de um grupo de baleias minke amigáveis, nadando em água bioluminescente.>
"Elas ficam tão próximas que podemos sentir sua respiração", relembra Baccosi.>
"O momento mais bonito, tão magnífico, maravilhoso e onírico — mesmo com cheiro de pum.">
Em certo momento, o Avontuur precisa fazer ações evasivas para evitar um furacão e navega para o norte, até a Terra Nova, no litoral do Canadá.>
A comida está acabando. Baccosi faz o inventário e percebe que eles não têm comida seca suficiente para voltar para a Alemanha.>
Alguns produtos, como o café ("a única coisa que impulsiona um marinheiro"), precisam ser racionados. E ela descobre que o gás também está acabando.>
"É a nossa principal fonte de energia para cozinhar", relembra ela. "E não temos plano B.">
Uma panela de cozimento lento improvisada é construída com pouco mais que uma caixa de madeira, espuma de construção e uma esteira de ioga. E funciona.>
"De alguma forma, partindo de uma situação muito séria e preocupante, acabamos comendo alguns dos melhores cozidos que já fiz na vida", ela conta.>
Em junho de 2020, o Avontuur finalmente atraca em Horta, no exuberante arquipélago vulcânico dos Açores, a oeste de Portugal.>
A tripulação é toda de cidadãos da União Europeia e seu desembarque deve ser permitido. Mas, antes de tudo, eles precisam fazer o teste de covid.>
Dias depois, vem o chamado. Depois de quatro meses e meio no mar, eles são autorizados a desembarcar. E Giulia Baccosi quer aproveitar cada momento.>
"Quero as flores, quero a grama, quero o bar, quero as pessoas, quero sair e comprar chocolate", relembra ela, "a possibilidade de andar e decidir se você vai para a esquerda ou para a direita.">
O ânimo melhora entre a tripulação e eles começam a olhar ansiosos para o trecho final da viagem, de volta para a Europa.>
"Sabemos que estamos indo para casa", conta ela.>
No final de julho, depois de 188 dias no mar, o Avontuur finalmente se aproxima do porto alemão de Hamburgo. A tripulação dá as mãos quando o navio atraca.>
"Meus olhos se encheram de lágrimas", relembra Baccosi. "Esperamos este momento por tanto tempo e agora é real.">
Mas ainda há trabalho a fazer. O porão do navio está repleto de sacos. Os 15 marinheiros precisam descarregar as 64 toneladas de óleo de oliva, café, cacau e rum trazidas do Caribe.>
"Nossa tarefa está feita — é hora de comemorar!">
Em uma festa de retorno ao lar, a tripulação veste camisetas com os dizeres: "O mundo que vocês conhecem não existe mais." Mas Baccosi se sente outra pessoa.>
"Estou de volta, mas não sou a mesma pessoa de antes. Fico imaginando como irei me encaixar, como um novo eu, na minha velha vida.">
A reviravolta da viagem no Avontuur não evitou que GIulia Baccosi retornasse à vida no mar.>
Ela não esperava voltar a trabalhar como cozinheira de um navio, mas, cinco anos depois, ela está a bordo novamente, em algum lugar perto do litoral da Groenlândia.>
De vez em quando, como fez na véspera de Ano Novo, cinco anos atrás, ela olha para o céu e pede um sinal para o Universo, para ter certeza de que está no caminho certo.>
Ouça aqui o episódio do programa de rádio Lives Less Ordinary, do Serviço Mundial da BBC (em inglês), que deu origem a esta reportagem.>
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