O resultado das urnas que deu vitória ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reconhecido até mesmo pelo Partido Liberal (PL), legenda do candidato derrotado, o senador Flávio Bolsonaro. Apesar disso, circulam nas redes sociais narrativas de que o resultado seria "matematicamente impossível" e insinuações de fraudes sem comprovação.
A BBC News Brasil entrevistou cientistas políticos e analistas de dados para explicar o que tornou possível a vitória inédita de Lula — foi a primeira vez desde a redemocratização, quando a eleição presidencial passou a ocorrer em dois turnos, que o derrotado na primeira rodada de votação conseguiu vencer a segunda etapa.
Os entrevistados também contestaram argumentos que circulam entre bolsonaristas de que a prorrogação da votação até 19h teria permitido alguma irregularidade a favor de Lula.
O encerramento das urnas estava previsto para 17h, mas foi prolongado por decisão do ministro do STF Cristiano Zanin após pedidos das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, devido a dificuldades enfrentadas por parte dos eleitores para acessar os locais de votação, seja devido à falta de transporte público em algumas cidades, seja por questões climáticas.
A tese de que a prorrogação teria afetado a legitimidade da eleição foi rebatida por dados do próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Corte presidida pelo ministro Kássio Nunes Marques, indicado ao STF em 2020 pelo então presidente Jair Bolsonaro.
De acordo com os registros das urnas eletrônicas, apenas 34.393 votos foram registrados após 17h, um número muito menor do que a vantagem obtida por Lula de 4,4 milhões de eleitores.
"No domingo (25/10), foram realizadas as eleições mais inclusivas da história da República brasileira. Mesmo diante da instabilidade na reta final de votação, graças às medidas adotadas e a competência dos técnicos do Tribunal, foi possível avançar com a apuração e entregar um pleito com segurança", declarou Nunes Marques por meio de nota na quarta-feira (28/10).
A declaração veio logo após Flávio Bolsonaro divulgar uma manifestação se dizendo o "verdadeiro presidente eleito". Depois, porém, o senador recuou e divulgou nova manifestação se declarando o "líder do Brasil".
Em sua nota, Nunes Marques disse ainda que "todos os questionamentos feitos dentro do devido processo legal serão analisados e respondidos". Essa fala não se refere a contestações sobre o resultado da votação, mas a denúncias que cada campanha presidencial levantou contra o adversário sobre supostas ilegalidades na corrida eleitoral.
Flávio Bolsonaro acusa Lula, por exemplo, de ter usado a máquina pública com fins eleitorais, enquanto o petista diz que o senador foi favorecido pela Meta, grupo que controla Facebook, Instagram e WhatsApp.
As diversas denúncias ainda serão analisadas pelo TSE — caso se comprove alguma ilegalidade com gravidade suficiente para interferir na integridade das eleições, o pleito pode vir a ser anulado pela Justiça Eleitoral.
Entenda a seguir a matemática por trás da eleição de Lula e o que especialistas dizem sobre as suspeitas de fraudes levantadas sem provas por bolsonaristas.
De onde vieram os votos a mais de Lula e Flávio no 2º turno?
As eleições de 2026 tinham 158.745.502 pessoas aptas a votar. Para entender a vitória de Lula, vamos destrinchar como esses eleitores se comportaram no primeiro e no segundo turno.
Em 4 de outubro, cerca de 125,2 milhões apareceram para votar, enquanto cerca de 33,5 milhões não foram às urnas.
Dos que votaram, optaram por Flávio Bolsonaro 56,104 milhões (47,03% dos votos válidos), enquanto outros 53,879 milhões preferiam Lula (45,16% dos válidos). Os demais candidatos ficaram bem atrás e somaram 9,316 milhões.
Já os votos brancos e nulos, que não entram na contagem dos válidos, somaram quase 6 milhões de votos.
Ou seja, Flávio acabou o primeiro turno com uma vantagem de cerca de 2,2 milhões de eleitores sobre Lula. O cenário era muito desafiador para o petista por dois motivos, apontavam analistas políticos.
O primeiro deles é que uma virada dependia de atrair uma parte significativa dos eleitores dos demais candidatos a presidente, que, em tese, estavam majoritariamente no campo da direita.
O segundo era a necessidade de ampliar a participação do eleitorado que não optou por qualquer candidatura no primeiro turno, reduzindo a abstenção e os votos brancos e nulos — historicamente, porém, nunca havia se registrado uma forte queda desses grupos entre o primeiro e segundo turno.
Como o voto é secreto no Brasil, é impossível saber como cada eleitor mudou ou não sua posição entre as duas votações. Mas o saldo do segundo turno mostra que os dois fenômenos ocorreram, nota o cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getúlio Vargas.
Ou seja, uma parte relevante dos eleitores dos candidatos da terceira via optou por Lula e houve um inédito aumento na participação dos eleitores que também favoreceu o petista.
Além disso, o cientista político acredita que o petista pode ter virado até alguns votos que foram para Flávio no primeiro turno, não de eleitores convictos do bolsonarismo, mas daqueles que aderiram ao candidato nas vésperas da votação e deram a ele uma arrancada no primeiro turno.
"Esse era o voto instável. Já o voto da tia bolsonarista que anda de amarelo não tinha como virar", ressalta.
Vamos olhar os números do segundo turno. Em 25 de outubro, cerca de 128,2 milhões apareceram para votar, ou seja, quase 3 milhões a mais do que no primeiro turno, o que reduziu a abstenção para 30,5 milhões.
Além disso, o votos brancos e nulos caíram em cerca de 1,8 milhão para 4,1 milhões.
Ou seja, esses dois fenômenos representaram mais 4,78 milhões de votos válidos a serem disputados por Lula e Flávio. Somando esse montante com os 9,316 milhões de eleitores que optaram por candidaos da terceira via na primeiro turno, chegamos a 14,09 milhões de novos votos que poderiam ser captados por Lula ou Flávio.
E foi exatamente isso que ocorreu: somando o crescimento de votos dos candidatos do PL e do PT no segundo turno, ambos cresceram 14,09 milhões no total. Mas foi Lula que conquistou a maioria.
O petista conseguiu atrair o apoio de 10,376 milhões de eleitores, somando 64,256 milhões (51,79% dos válidos).
Já Flávio obteve apenas 3,7 milhões de novo eleitores, terminando atrás do petista, com votação total de 59,8 milhões (48,21%).
Esses números revelam apenas o saldo total da migração dos eleitores, ressalta Jairo Nicolau. Na prática, nota o cientista político, pode ter ocorrido de parte dos eleitores da terceira via ter migrado para o voto nulo no segundo turno. Por outro lado, uma parcela maior dos que anularam no primeiro turno pode ter optado por Flávio ou Lula em relação ao que o saldo da queda dos nulos revela, por exemplo.
Os números divulgados pelo TSE, porém, não permitem detalhar esse fluxo de eleitores devido ao sigilo dos votos.
Para Nicolau, a migração de parte relevante do eleitorado de candidatos como Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) para Lula ocorreu porque há uma parcela do eleitor brasileiro que é bastante volúvel e trânsita entre candidatos de direira e esquerda. Isso já havia acontecido em 2022, quando Lula venceu recuperando parte dos eleitores que haviam desistido de votar no PT em 2018 e optaram por Jair Bolsonaro naquele ano.
"A matemática da política brasileira não é matemática ideológica. As pessoas esquecem como são desinformados os eleitores brasileiros, como são despolitizados. Grande parte deles não se orienta por ideologia. Então, existe um contingente de eleitores no Brasil que oscila, que não é tão fiel assim", afirma.
Nicolau nota que o desempenho de Lula no segundo turno de 2026 (51,79%) ficou menos de um ponto percentual acima do seu desempenho em 2022 (50,9%). Na sua avaliação, o que chama atenção foi como o petista se enfraqueceu no primeiro turno.
"Basicamente, o Lula recuperou o que ele perdeu [no primeiro turno]. Simplesmente voltou para o nível dele. E o Flávio ficou mais ou menos do tamanho do pai [em 2022]. O barulho da campanha dá a impressão de que o resultado foi muito diferente. Não foi. Foram campanhas diferentes para resultados semelhantes [em 2026 e 2022]".
Na sua visão, o crescimento do presidente no segundo turno reflete uma campanha mais energizada, após o susto da primeira votação, tanto nas redes sociais, com uma atuação coordenada por meio do canal Exército do Lula, organizado pelo deputado André Janones (PT-MG), quanto nas ruas, com a realização de grandes atos em todo o país por apoiadores do petista.
"Estou falando dos maiores comícios e mobilizações de rua que o país já viu numa campanha eleitoral. Não tem igual, não teve em 1989, não tem nada semelhante ao que aconteceu ali nessas três semanas".
Para Pedro Burgos, professor do Insper e consultor em Inteligência Artificial, houve um movimento orgânico de apoiadores de Lula trabalhando para virar votos entre o primeiro e o segundo turno — algo que precisa ser melhor investigado com pesquisas qualitativas, na sua visão.
"Eu comecei a rodar um robozinho para ficar capturando nas redes sociais depoimentos com as palavras "virei voto" do "Zema", do "Caiado", do "Cury". E, até onde eu vi, a proporção era de 20 para um. Ou seja, para cada vinte depoimentos de pessoas contando "virei voto da minha mãe do Cury para o Lula" tinha um contando que virou do Cury para o Flávio", por exemplo.
"O esforço de virar voto, especialmente da juventude, foi muito grande. O que aconteceu, e acho que é o que os números [das urnas] têm mais dificuldade de capturar, é um monte de gente tentando convencer pai, mãe, sogra, tio, colega no um para um. Acho que esse efeito no micro teve muito impacto", pondera.
As acusações de fraudes
A reportagem analisou centenas de vídeos no TikTok por termos ligados à fraude eleitoral. Doze deles levantavam suspeitas sobre o resultado ou endossavam acusações de fraude ou golpe. Juntos, somavam pouco mais de 3 milhões de visualizações.
Entre eles havia montagens e trechos de falas de Flávio Bolsonaro em sua primeira declaração após a derrota, em que pediu o anulamento da eleição.
Algumas publicações acusavam a Justiça Eleitoral de golpe pela prorrogação do horário de votação. Outras colocavam em dúvida a votação de Lula.
Um dos vídeos com mais visualizações afirmava que o petista só poderia ter chegado à votação divulgada pelo TSE se tivesse conquistado a maioria dos eleitores dos candidatos eliminados no primeiro turno (9,316 milhões).
Essa conclusão é falsa. Lula ganhou cerca de 10,4 milhões de votos entre os turnos, mas a conta trata os eleitores dos candidatos eliminados como a única fonte possível desses votos. Eleitores que se abstiveram ou votaram em branco ou nulo no primeiro turno também podiam votar em Lula no segundo. E a abstenção caiu de 21,08% para 19,2% do eleitorado. Os totais de cada turno não permitem saber como cada eleitor votou nas duas rodadas.
Como prorrogação das urnas foi usada para atacar legitimidade da eleição
Entre os conteúdos que falam em fraudes na eleição, passou a circular em perfis bolsonaristas um documento intitulado "Relatório Pericial Independente" com acusações de fraude na disputa presidencial.
Segundo o documento baseado em conclusões falsas, a vitória petista foi "fabricada" nas urnas que fecharam após as 17h.
O relatório foi desmentido pelo TSE. Por meio de nota, a Justiça Eleitoral diz que o relatório "distorce dados para sugerir fraude nas eleições".
Um dos argumentos do documento é que as urnas encerradas até 17h (30% do total) tinham maioria de votos para Flávio Bolsonaro. Nessas sessões, diz o relatório, o candidato do PL obteve 52,39% dos votos válidos, abrindo uma vantagem de quase 1,8 milhão de votos sobre Lula.
Já nas urnas encerradas após 17h (70% do total), continua o documento, "Lula obteve uma explosão atípica de mais de 6,1 milhões de votos de vantagem, suficiente para anular a liderança da oposição e virar o resultado nacional".
Segundo o TSE, o primeiro dado que contesta essa conclusão é que apenas 34.393 votos foram realizados após 17h. Ou seja, as urnas que deram a vitória a Lula registraram a grande maioria dos votos dentro do horário normal de votação.
A Corte ressalta ainda que não há nada de anormal em registrar votos após 17h. Mesmo se não houvesse a prorrogação da votação por decisão do ministro Zanin, as regras eleitorais permitem que eleitores que já estavam na fila da sua sessão até o momento normal de encerramento (17h) possam votar.
Por causa disso, 31.714 pessoas também votaram após as 17h no segundo turno de 2022, quando nao houve nenhuma prorrogação do horário.
O estatístico Rafael Izbicki, professor da Universidade Federal de São Carlos, também analisou o horário de fechamento das urnas e desmonta as acusações de fraude.
Ele ressalta que, das 348 mil urnas que fecharam após 17h no segundo turno de 2026, a grande maioria (340 mil) fechou até 17h15, possivelmente por causa de pessoas que ainda estavam na fila às 17h. Apenas 8.814 sessões (1,8% do total) fecharam a partir de 17h16.
No caso das urnas que fecharam até 17h, Izbicki concluiu que essas sessões eleitorais deram maioria de votos a Flávio não por causa do horário de encerramento, mas pelo local em que elas estavam, sobretudo em Estados onde o senador teve votação mais expressiva.
Isso aconteceu, por exemplo, em seis Estados cuja votação se encerra antes de 17h no horário local devido à diferença de fuso horário em relação a Brasília — Acre, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Roraima.
Nesses Estados, as urnas fecham oficialmente às 15h ou 16h. Dessa forma, mesmo quando houve prorrogação nesses locais, praticamente a totalidade das sessões eleitorais fechou antes das 17h. Desses seis Estados, Lula só venceu no Amazonas.
"Por isso, praticamente todas as 32 mil seções desses Estados caem no grupo 'até 17h'. Esses seis Estados [somados] votaram mais em Flávio: 59,7% dos votos válidos. Eles respondem por 1,44 milhão dos 1,75 milhão de votos de vantagem de Flávio no grupo 'até 17h'", nota Izbicki, ao analisar o relatório bolsonarista.
A pedido da BBC News Brasil, o professor analisou também onde estavam as demais urnas que fecharam até 17h e deram, em média, votação favorável ao Flávio.
Segundo seu levantamento, a maioria das sessões encerradas até 17h, fora daqueles seis Estados com fuso diferente, estava em outros nove Estados em que Flávio venceu.
Ou seja, dos 30 milhões de eleitores que votaram em urnas que fecharam até 17h nos Estados com mesmo fuso horário de Brasília, 16,8 milhões (56,2%) estavam em São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Goiás, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Tocantins e Distrito Federal
Izbicki analisou ainda como foi a votação de Lula e Flávio no primeiro turno nos dois grupos de urnas criados no relatório bolsonarista: aquelas que fecharam até 17h no segundo turno e aquelas que ficaram abertas além disso.
Os dados mostram que Lula já tinha obtido um desempenho melhor em 4 de outubro no conjunto de urnas que fechou mais tarde no segundo turno, mesmo sem ter tido prorrogação da votação naquela ocasião.
"As seções que fecharam depois das 17h já davam seis pontos a mais a Lula no primeiro turno em comparação com a porcentagem obtida pelo petista nas que fecharam até 17h", destaca Izbicki.
Seu levantamento mostrou ainda que o petista teve crescimento similar entre o primeiro e o segundo turno nas urnas que fecharam até 17h ou depois disso.
"Do primeiro para o segundo turno, Lula cresceu praticamente o mesmo nos dois grupos. Além disso, os votos registrados depois das 17h não mudariam o vencedor, mesmo que todos fossem de Lula", ressalta.
"As urnas que fecharam até 17h votaram mais em Flávio por causa de onde estão, não da prorrogação", reforça o professor.
Acusações de fraudes em votos sem biometria também são contestadas
O relatório com falsas alegações de fraude levanta outros questionamentos sobre o resultado das eleições.
Um deles trata como suspeito o fato de 8,6 milhões de eleitores terem sido liberados a votar sem habilitação por biometria.
O relatório ressalta que o número é "quase o dobro da diferença total" de votos entre Lula e Flávio (4,4 milhões).
O TSE contesta qualquer irregularidade. Segundo a Corte, quando a habilitação do voto por biometria falha, há outros mecanismos seguros para autorizar o eleitor a votar.
O procedimento consiste em confirmar o ano de nascimento do eleitor, "um dado que precisa ser informado pelo próprio eleitor, pois não está disponível em nenhum documento ao qual o mesário tem acesso". Além disso, afirma o TSE, há a assinatura no caderno de votação e a identificação do mesário responsável.
A Corte ressalta ainda que é impossível identificar como votou o eleitor habilitado sem biometria, já que esses votos também são secretos.
A análise feita por Rafael Izbicki revela outras fragilidades no argumento.
Segundo seu levantamento, a proporção de eleitores que votaram sem biometria ficou praticamente estável nos dois turnos deste ano — foram 8,3 milhões no dia 4 de outubro (6,66% do total) contra 8,6 milhões (6,73% do total) em 25 de outubro — e caiu na comparação com o segundo turno de 2022 (10 milhões ou 8% do total).
Os dados analisados por Izbicki mostram ainda que Lula cresceu mais nas urnas com menos votos habilitados sem biometria.
"O relatório diz ter testado a correlação entre essas habilitações e a votação de Lula, mas não mostra o resultado. Se elas tivessem sido usadas para acrescentar votos a Lula, seria de esperar que ele crescesse mais entre os turnos nas seções com mais habilitações sem biometria", nota Izbicki.
"Os dados mostram o contrário: onde menos de 6% dos eleitores foram habilitados assim, Lula cresceu cerca de 3 pontos; onde foram mais de 15%, 2 pontos ou menos", disse ainda.
Gráficos por Caroline Souza e Laís Alegretti, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil
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