Publicado em 7 de abril de 2023 às 16:19
- Atualizado há 3 anos
"O estado da obra, quando a vi pela primeira vez, era inacreditável. Não dava para ver a pintura original, estava toda coberta de gesso e mais pintura. Tinha cinco ou seis camadas por cima. Tive que me perguntar se era um Leonardo ou não, porque estava completamente irreconhecível.">
Essa foi a reação da italiana Pinin Brambilla, uma das maiores autoridades mundiais na conservação de afrescos renascentistas, ao deparar com A Última Ceia.>
O ano era 1977, e Brambilla, que faleceu aos 95 anos em 2020, havia aceitado o desafio de restaurar a obra-prima de Da Vinci, encomendada pelo duque de Milão Ludovico Sforza há mais de 500 anos.>
Ela não foi a primeira a tentar salvar este imponente mural de 4,5 metros de altura que decora uma parede do refeitório do mosteiro da Igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão.>
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Outros antes dela tentaram, sem sucesso, resgatar esta obra destinada a desaparecer, e esses esforços haviam culminado em um absoluto fracasso.>
Desde que Da Vinci terminou a obra em 1498, "seis restauradores trabalharam na pintura. E cada um deles mudou a fisionomia, as características e as expressões dos apóstolos", disse Brambilla ao jornalista da BBC Mike Lanchin, em entrevista em 2016.>
Mateus, por exemplo, era jovem, mas as sucessivas tentativas de impedir a deterioração do mural o transformaram em "um homem mais velho, de cabelo escuro e pescoço pequeno".>
Cristo, embora não tenha mudado tanto, "havia perdido parte de sua humanidade, de sua beleza", acrescentou Brambilla.>
"O que buscamos com a nossa restauração foi resgatar o caráter de cada indivíduo. E isso foi muito emocionante.">
O grande problema do mural — que capta o drama da ceia de Páscoa judaica e o momento em que Jesus revela a seus discípulos que um deles vai trai-lo — é que começou a se desintegrar praticamente assim que foi concluído.>
Devido ao seu conhecido perfeccionismo, Da Vinci dispensou a técnica tradicional do afresco, na qual o artista aplica a pintura sobre uma camada de argamassa de cal ainda úmida.>
Essa metodologia faz com que o pigmento se fixe à parede, mas requer trabalhar rápido para finalizar as pinceladas antes que a parede seque.>
Para evitar a correria e poder dedicar tempo a cada detalhe, Da Vinci decidiu aplicar uma técnica experimental que consistia em pintar com têmpera ou óleo sobre uma superfície de gesso já seca.>
Isso fez com que os pigmentos não aderissem de forma permanente à parede. E com o tempo — que a princípio parecia estar a favor do artista — a imagem começou a descamar.>
Vários fatores contribuíram para a deterioração de A Última Ceia.>
Para começar, a parede do refeitório onde está pintado o mural absorveu a umidade de um córrego subterrâneo que passava sob o mosteiro, um detalhe que Da Vinci desconhecia. >
Também devido à sua localização, recebia lufadas de fumaça e vapor que emanavam da cozinha.>
Anos depois, o exército de Napoleão usou o prédio como estábulo e, mais recentemente, durante a Segunda Guerra Mundial, uma bomba aliada caiu sobre o convento.>
Embora o mural tenha permanecido de pé, ficou exposto.>
No entanto, o mais preocupante para Brambilla não foi o que o tempo e as intempéries fizeram com a obra — mas, sim, as tentativas infelizes de conservação que haviam sido feitas para salvá-la.>
"Me concentrei primeiro no que aconteceu nos anos desde que Leonardo a pintou. Em que restauradores fizeram que coisas, em como trabalharam e que materiais usaram", contou Brambilla à BBC.>
Depois de inicialmente vedar a sala para impedir a entrada de mais poeira e sujeira, e erguer enormes andaimes em frente ao afresco, a restauradora e um pequeno grupo de assistentes fizeram pequenos orifícios na parede para inserir pequenas câmeras e determinar quantas camadas de pintura cobriam a obra original.>
"Trabalhamos com pequenos fragmentos de cada vez, com muita dificuldade, porque a pintura que estava embaixo (a de Da Vinci) era muito frágil, enquanto a que estava em cima era muito robusta", explicou Brambilla, fazendo um gesto com as mãos que revela que o tamanho desses fragmentos não passava de 5 x 5 cm.>
Arduamente, com a ajuda de lupas, instrumentos cirúrgicos e muita paciência, a equipe foi retirando as camadas de pintura e cola para revelar as cores originais da obra, enquanto outras partes foram deixadas nuas, mal retocadas com aquarelas.>
Finalizar cada seção levava meses, anos. Uma série de interrupções também afetaram a continuidade do trabalho — desde dificuldades técnicas e burocráticas até visitas de dignitários estrangeiros e membros da realeza europeia.>
A dedicação de Brambilla também impactou sua vida pessoal e suas relações familiares.>
"O trabalho me fazia ficar muito tempo longe do meu marido e do meu filho. Às vezes, eu trabalhava sozinha, inclusive sábados e domingos até o meio-dia. Num determinado momento, meu marido me disse: 'Chega, basta de A Última Ceia, quero viver um pouco'. Mas eu estava totalmente obcecada.">
Até que finalmente em 1999, depois de pouco mais de duas décadas, quando já estava com mais de 70 anos, Brambilla considerou a missão cumprida.>
Ao remover séculos de restaurações duvidosas, pinceladas que eram toscas e inexpressivas voltaram a ser delicadas, refinadas. Agora era possível ver claramente a comida sobre mesa, as dobras na toalha.>
Alguns críticos acreditam que a restauração tirou pintura demais da obra, outros dizem que está praticamente como quando Leonardo a terminou.>
Brambilla ficou satisfeita com o resultado do seu trabalho, mas confessou que ficou triste quando terminou.>
"Quando terminei de trabalhar na pintura, fiquei triste porque teria que abandoná-la", disse ela, reconhecendo que é algo que aconteceu não só com a obra de Da Vinci.>
"A cada obra que restauro, uma parte fica comigo, algo do artista. Me distanciar é sempre difícil. É como se você perdesse uma parte de si mesmo.">
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