Publicado em 2 de abril de 2025 às 06:39
A mulher parecia estar em êxtase. Com as mãos apontadas para o céu, ela agradecia pela vida da filha que um dia antes havia recebido uma sentença de morte. >
Era o fim dos anos 1980, e ela tinha ouvido de um médico de Bacabal, no interior do Maranhão, que sua bebê em estágio avançado de desidratação deveria ser "levada para morrer em casa".>
O destino parecia ser o mesmo de tantas outras crianças que morriam na zona rural das regiões mais pobres no Brasil — não fosse a mãe capaz de testar em casa uma receita que começava a se disseminar pelo país: a do soro caseiro. >
Um punhado de açúcar, uma pitada de sal, mistura em um copo de água e oferece aos poucos. Pela manhã, a menina começava a voltar à vida.>
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"Pois é, o médico desenganou, mas eu consegui salvar. Se eu consigo mais que o médico, o que mais eu posso no mundo?", celebrava a mulher.>
Quem ouviu e lembra dessa história ainda com detalhes é o médico Nelson Arns Neumann, epidemiologista que atuou junto à diocese de Bacabal pela Pastoral da Criança, a entidade social com foco na saúde infantil ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).>
Filho da pediatra e sanitarista Zilda Arns, fundadora da Pastoral que morreu em missão durante um terremoto no Haiti, Nelson Neumann viu de perto as discussões acaloradas nos anos 1980 sobre a possibilidade de introduzir o tratamento de reidratação oral para crianças com quadros graves de diarreia no Brasil.>
No início daquela década, o Brasil tinha uma taxa de mortalidade infantil média de 76,36 para cada 1 mil nascidos vivos, segundo o banco de dados das Nações Unidas (ONU). Em 2024, segundo o Ministério da Saúde, o índice foi de 12,6, uma redução drástica em quatro décadas.>
E uma das principais causas de morte de crianças era a diarreia, especialmente as mais pobres. Uma pesquisa do Ministério da Saúde mostrou que, em 1980, 32.704 crianças morreram pelo quadro, contra 3 mil em 2000. Nos dados mais atuais disponibilizados pelo governo, foram 176 mortos em 2024.>
Até os anos 1980, quando o quadro diarreico levava à desidratação, o tratamento era exclusivamente por via intravenosa e feito nas unidades de saúde. >
Para crianças muito pequenas, o soro de reidratação era aplicado na moleira, região da cabeça que não tem cobertura óssea nos primeiros meses de vida.>
"Você chegava nos hospitais e via aqueles corredores lotados só com crianças recebendo soro por desidratação na cabeça", lembra o médico Nelson Neumann.>
Era um tratamento caro, recorrente e, muitas vezes, inalcançável para os que mais precisavam dele, nas áreas distantes dos grandes centros.>
Com início da campanha do soro caseiro após a fundação da Pastoral da Criança, em 1983, brasileiros de todas as regiões passaram a aderir a uma nova forma de tratar o problema em casa.>
A campanha era inspirada em resultados vistos em outras partes do mundo, como Bangladesh e Egito, que experimentavam as descobertas do médico Nobert Hirschhorn sobre os sais de reidratação oral.>
Foi essa mistura, disponibilizada em pacotes para ser diluída em um litro de água, que passou a ser distribuída primeiro no Brasil por meio das equipes católicas. >
Mas foi só nos anos 1990 que o país passou a aderir ao objeto que viria se tornar símbolo da campanha: a colher-medida, que permitiu fazer a receita apenas com sal e açúcar, em casa. >
Responsável por pesquisas em 1989 que avaliaram o preparo do soro por famílias no Nordeste antes da colher-medida chegar, o médico epidemiologista em saúde infantil Cesar Victora lembra que havia um debate no Brasil sobre os dois métodos disponíveis.>
Um era com os tais pacotes de sais distribuídos; outro, a partir de uma receita ensinada às famílias: "Um punhado de açúcar e uma pitada de três dedos de sal".>
Os pesquisadores que visitaram as famílias chegaram à conclusão que havia muitos problemas no preparo em casa, fosse com os sais ou com medidas subjetivas com a mão, o que levava à diluição em quantidade de água insuficiente, podendo agravar ainda mais o problema da criança.>
Mas, entre os dois métodos, o soro caseiro tinha a vantagem de poder ser imediatamente preparado com sal e açúcar, que estão disponíveis em qualquer lugar. >
"A criança não precisa esperar que a família obtenha o pacote em farmácia ou serviço de saúde", explica à BBC News Brasil o epidemiologista Cesar Victora, presença constante nos rankings de pesquisadores mais influentes no mundo.>
A partir dessa e outras pesquisas, milhões de colheres-medida passaram a ser fabricadas e distribuídas gratuitamente.>
"Com isso você colocou na mão da mãe a possibilidade de fazer um tratamento em casa", diz Nelson Neumann.>
Só entre 1998 a 2024 (período em que a Pastoral possui dados), foram mais de 11 milhões de colheres entregues aos brasileiros.>
Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde informou que a distribuição seguiu só até 2004, "em virtude do aumento da cobertura da Estratégia Saúde da Família e da redução da mortalidade infantil por desidratação". >
A importância do soro caseiro — seja pelos sais ou pela colher — foi tanta que a publicação científica Lancet descreveu a terapia de reidratação oral como "potencialmente o avanço médico mais importante" do século 20, que pode ter salvado até 50 milhões de pessoas.>
O Unicef, fundo das Nações Unidas para infância, disse que nenhuma outra inovação médica do século "teve o potencial de evitar tantas mortes em um curto período de tempo e custo tão pequeno".>
Os primeiros pacotes com os sais de reidratação oral chegaram ao Brasil junto à criação Pastoral de Criança, em 1983.>
A ideia surgiu de um encontro entre dom Evaristo Arns, irmão de Zilda e tio de Nelson, e o então diretor da Unicef, James Grant. Na conversa, os dois falaram sobre os resultados positivos na Ásia e África da terapia de reidratação oral.>
"Grant dizia que os pacotes não chegavam onde precisa. E que ele ouviu falar que a Igreja Católica chegava aos pobres", relata Nelson Neumann.>
Dom Evaristo entregou os pacotes a Zilda, que passou a tentar convencer organizações brasileiras, como a Sociedade de Pediatria, a adotarem e recomendarem o tratamento.>
Com a classe médica convencida aos poucos, o Brasil esbarrou no problema de logística para a entrega de pacotes.>
"Minha mãe avaliou que no interior do Nordeste não chegava o suficiente. Em alguns postos de saúde, chegavam a vender, em vez de distribuir", diz Nelson Neumann. Outro problema era o de armazenamento em unidades sem estrutura. >
Pela falta de disponibilidade de pacote, passou ser ensinada a receita caseira — com punhados ou pitadas.>
"Falava-se de uma pitada de sal para oito de açúcar. Foi um desastre, porque a maioria das famílias se perdia ao contar até sete", lembra Neumann.>
O problema de diluição, com mais ou menos açúcar ou sal, fazia com o que organismo absorva menos água, piorando o quadro.>
Atenta também a esse problema na África, a organização Teaching-aids at Low Cost (TALC) do pediatra britânico David Morley, foi a primeira a criar uma colher-medida, chamando a atenção da Pastoral da Criança. A colher logo se tornou um item desejado por famílias africanas, que chegavam a decorar o objeto com miçangas.>
Mas havia mais um problema aqui. As pesquisas da Pastoral identificariam que o açúcar usado na África era mais denso do que o açúcar utilizado no Brasil. Ou seja, se a mesma a colher africana fosse utilizada, o resultado da solução de soro seria diferente. >
Junto à Unicef, a Pastoral fez experimentos e mudou os tamanhos da ponta de medição de açúcar da colher brasileira. Assim, passou a distribuí-las em grande escala. >
"A vantagem da colher é que estaria disponível em casa, e uma vez ensinada a quantidade correta de água (200 ml), o problema da alta concentração [de açúcar ou sal] desaparecia", diz o médico Nelson Neumann. >
Na segunda fase, iniciou-se uma campanha para fixar a medida de 200 ml nas casas da família. As equipes da Pastoral iam às casas e marcavam o volume com um esmalte em algum recipiente que fosse usado para o soro. >
O pico da campanha foi em 1994, quando se formou um grupo de defesa do direito da criança, inclusive com a participação de emissoras de TV que promoveram campanhas massivas.>
Uma das músicas que ficaram famosas explicava: "Um copo cheio de água limpa / Uma medida de sal / Duas medidas de açúcar / E tudo vai ficar legal / Dê o soro para criança / Dê bastante e devagar / Corra para o posto médico /Se ela não melhorar".>
"As salas das unidades básicas de saúde que existiam apenas para reidratação começaram a ficar vazias", conta Neumann. >
"Não tinha mais demanda suficiente para a sala existir. Aquilo que mais matava, as mães sabiam agora manejar em casa.">
De acordo com Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o soro de reidratação oral foi um marco importante para o tratamento da desidratação e para a redução da hospitalização por diarreia aguda, por promover uma recuperação rápida.>
Segundo Maria do Carmo Barros de Melo, do departamento de gastroenterologia da SBP, a orientação hoje é que as famílias busquem os pacotes com os sais de reidratação nas unidades de saúde, sendo o soro caseiro feito com a colher um "importante aliado" caso a família não tenha acesso aos pacotes.>
A colher não é mais distribuída pelo SUS, mas ainda é uma ferramenta essencial no trabalho da Pastoral da Criança.>
"Ela é importante pelo baixo custo e a rapidez que pode salvar vida", diz o enfermeiro Gean Soares, da coordenação nacional da Pastoral.>
Para Neumann, a menor demanda pelo objeto, é um sinal de que a vida do Brasil melhorou.>
Mesmo com uma colher em casa, explica, hoje já há o entendimento de que o ideal é que a criança não evolua para um quadro de desidratação.>
A orientação do médico é manter a todo custo a alimentação das crianças doentes. Antigamente, diz, havia uma forte crença de que era para evitar oferecer comida aos filhos com diarreia. Isso levava aos casos de desidratação e desnutrição.>
Caso a criança evolua o quadro para desidratação, com bocas secas, olhos fundos e pele sem elasticidade, ela precisa receber tratamento, seja de pacote ou caseiro.>
De acordo com a SBP, o soro deve ser sempre provado antes de ser dado à criança e deve ser menos salgado que a lágrima. Todo o soro deve ser ingerido pela criança em pequenas quantidades até que ela esteja hidratada.>
Após feita a receita, o líquido pode ser guardado na geladeira.>
Nas redes sociais, postagens recentes sobre a colher mencionam que, hoje, em vez de salvar vida de crianças, ela pode ser usada para ressaca.>
"Quando a pessoa perde muito líquido, a mistura ajuda a repor", orienta Nelson Arns Neumann.>
"Mas a minha recomendação é não beber a esse ponto.">
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