Publicado em 12 de janeiro de 2024 às 05:51
"Com a demência, é como se eles morressem repetidas vezes e lentamente.">
Helen Rimell tem vivido o luto por sua mãe, Susan, desde que ela foi diagnosticada com demência vascular no início de 2015.>
Há dois anos, Helen deixou sua vida em Londres para se mudar de volta para o sul do País de Gales e tornar-se cuidadora em tempo integral da mãe, de 75 anos.>
Fotojornalista e fotógrafa de casamentos, ela já retratava a mãe há décadas e continuou a fazê-lo, o que resultou em um projeto muito pessoal chamado No Longer Her(e) (em inglês, uma combinação das expressões "não mais ela" e "não mais aqui").>
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"Eu estava tentando processar a dor e a perda, pois ela estava se tornando cada vez menos ela mesma", explica Helen.>
"Ela está aqui, mas não está, e é ela mesma, mas não é.">
As imagens capturam o declínio cognitivo de sua mãe em pequenos detalhes do cotidiano em casa. Como o sabão com marca de dentes, de quando a mãe tentou comer a barra, perdendo a capacidade de entender o que é comestível.>
Ou o copo quebrado em uma poça de líquido após ela derrubá-lo no chão.>
Outras imagens mostram Susan sendo alimentada pela neta, com uma colher, ou ela deitada na cama após já ter esquecido como se vestir.>
Helen e sua mãe sempre foram muito unidas.>
"Ela era minha melhor amiga, eu contava tudo a ela", diz Helen.>
“Ela era divertida, engraçada, gentil, atenciosa, muito empática, muito compassiva. Foi a única pessoa que realmente me entendeu e me protegeu", acrescenta.>
Em 2010, Susan sofreu uma hemorragia cerebral. E nos anos seguintes começou a esquecer os nomes das pessoas e algumas palavras.>
Ao receber o diagnóstico de demência em 2015, a progressão da doença parecia inicialmente lenta.>
Helen lembra-se com carinho de uma viagem que fez pela Europa com a mãe em 2018.>
"Na época ela estava esquecida, mas ainda era muito divertida, realmente uma grande companhia", diz ela.>
"Ela adorou essa viagem. Todos os dias tomávamos um Aperol spritz ao entardecer", acrescenta.>
Quando a epidemia de covid-19 chegou ao Reino Unido em 2020, Helen foi forçada a passar menos tempo com a mãe e começou a notá-la cada vez mais distante de quem havia sido.>
Ela já não reconhecia lugares, às vezes se perdia ao sair de casa e era trazida de volta por policiais.>
A casa da infância de Susan – na aldeia de Langland, península de Gower, em Gales – era um lugar ao qual Helen levava a mãe com frequência. E as memórias do lugar foram algumas das últimas a desaparecer.>
"Eu a levei lá em fevereiro de 2020 e ela olhou ao redor e não se lembrou; isso para mim foi algo gigante", conta Helen.>
Durante a pandemia, os cuidadores de Susan deixaram de atendê-la e, em setembro de 2021, Helen decidiu se mudar e cuidar ela mesma da mãe.>
"É muito difícil em todos os sentidos: mental, emocional e fisicamente", diz Helen.>
Susan passou por um período de agressividade e violência.>
Ela odiava a hora do banho. Ela cravava as unhas, dobrava seus dedos para trás, batia, esbofeteava e lutava com você”, disse Helen.>
"No começo ela era realmente maníaca – subindo, descendo, subindo, descendo, subindo, descendo, andando, movendo móveis, arrastando mesas, arrastando móveis por horas todas as noites.">
Ela também brigava por tudo que você fazia com ela, quebrando coisas.>
“Ela perambulava por aí se a porta fosse deixada aberta, então era necessário trancá-la”, lembra.>
Susan não consegue mais manter uma conversa, não usa talheres e tem incontinência.>
Mas há pequenos momentos de felicidade.>
"Ela adorava dançar. Você colocava Elvis e ela ficava dançando e dançando na sala – hoje ela ainda bate o pé", diz Helen.>
O que Susan pensaria dessas imagens tão pessoais?>
"Nós falamos sobre isso, minha mãe e eu, que eu ia documentar sua doença, documentar nosso relacionamento, sempre foi um plano. Ela disse que era importante", diz Helen.>
"Documentei de forma intermitente desde que eu estava na faculdade. Ela sempre permitiu e sempre me apoiou muito na minha carreira.">
Quando Helen era estudante, ela fez um projeto sobre o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) da mãe, que até posou nua em sua banheira para uma fotografia.>
"Nós temos essa relação: ela confia em mim e eu confio nela", explica Helen.>
Os últimos anos têm sido muito difíceis para Helen, que tem feito malabarismos para cuidar da mãe e trabalhar.>
Ela mantém sua casa em Londres, mas parece um mundo distante.>
"Eu costumava dançar swing quatro vezes por semana, mas agora é difícil manter amizades. Não me sinto parte da minha vida em Londres", diz Helen.>
"Parece que não tenho um propósito. Estou presa no limbo enquanto os outros seguem em frente com suas vidas.">
A demência provou ser algo muito diferente do que Helen imaginava antes de se tornar a cuidadora da mãe.>
"Eu não sabia realmente o quão ruim era a demência ou como era o final", conta.>
“Nos filmes você tem uma velhinha doce sentada em uma casa. Ela esquece seu nome, mas no último minuto ela lembra de como dançar com você e de sua música preferida".>
"Mas não é assim", lamenta."Toda a personalidade muda, sem falar em toda a deterioração física, a agressividade e todas as coisas diferentes que vêm junto.">
Apesar de ter de pausar sua própria vida e da dor com que vive diariamente, Helen não tem arrependimentos.>
"Eu faria tudo de novo: ela fez isso por mim e eu quero devolver o amor que ela me deu", diz ela.>
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