Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 06:09
Atenção: esta reportagem contém conteúdo explícito e detalhes de atos de violência contra animais que podem ser perturbadores.>
Enquanto a maioria dos pais dorme, a delegada Lisandrea Salvariego está acordada e atenta. Ela observa, por horas durante a madrugada, jogos, chats e redes sociais onde crianças e adolescentes participam de desafios violentos.>
Nas telas monitoradas por Salvariego, sessões de abuso sexual, automutilação e, principalmente, a tortura e assassinato de animais acontecem diariamente, transmitidos ao vivo.>
A delegada faz parte do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo. O grupo começou como uma resposta aos ataques a escolas em 2023, ano em que o país registrou 12 casos. Mas a investigação revelou um ecossistema maior.>
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Ao mapear autores, vítimas e ambientes digitais, a polícia identificou padrões: discurso de ódio, hierarquias internas e um sistema de recompensas baseado em sofrimento.>
O trabalho do Noad costuma ser, primeiro, de observação, para coleta de provas: os policiais se infiltram nas comunidades e assistem aos crimes. Fazem isso em silêncio, para não alertar os suspeitos.>
"Tem madrugadas em que vou dormir e escuto o gatinho e o cachorrinho gritando... É tão revoltante, tão desumano, que não tem como a gente não ir atrás", desabafa a delegada.>
A brutalidade contra Orelha, um cão comunitário espancado até a morte na Praia Brava, em Florianópolis, chocou o país. Para Salvariego, não é um episódio isolado.>
"Isso acontece praticamente todas as madrugadas. É muito triste, porque a gente vê hoje crianças e adolescentes nesse mundo que, por vezes, os pais desconhecem, até porque falta letramento digital", diz a delegada.>
"A gente tem inúmeros Orelhas sendo mortos todos os dias. Para a gente, infelizmente, é uma rotina.">
O número de episódios observados por Salvariego nas comunidades de zoossadismo pode variar. Há noites com "apenas" dois ou três, mas ela relata ter chegado a ver até 20, principalmente cães e gatos, torturados e mortos.>
"O que motiva tudo isso é a violência pela violência. Não tem nenhum objetivo, além de ficar famoso, conhecido e ter status dentro daquele grupo. Tanto que é muito comum eles matarem o animalzinho com perversidade mesmo e depois escreverem com o sangue o nome deles", diz Salvariego.>
"E, hoje, a violência escalou muito, principalmente com relação aos animais. Muito. Só vale se o animal sofrer muito para morrer.">
Na terça-feira (27/1), outro cachorro comunitário, o Abacate, morreu após ser baleado intencionalmente em Toledo, no Paraná. A polícia investiga o caso.>
A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, pontua que os casos de tortura a animais expõem o crescimento de atos violência extrema cometidos por jovens.>
Em entrevista à BBC News Brasil, ela afirma que estes atos são alimentados pela dessensibilização à violência e pela "combinação explosiva" de uso da internet sem supervisão familiar. >
"Pessoas que começam a olhar para a violência com muita frequência, depois de um tempo de exposição rotineira, perdem a sensibilidade. Começam a não achar aquilo tão asqueroso, tão revoltante; já não causa a mesma repulsa", diz.>
"Primeiro se assiste e fica insensível; depois, se começa a fazer.">
Em uma dessas comunidades monitoradas por Salvariego, uma menina foi submetida a uma série de humilhações e abusos sexuais enquanto uma plateia online assistia. >
As transmissões, que têm pico de audiência entre 23h e 3h da manhã, podem reunir 600 ou até mil pessoas.>
A jovem foi obrigada a cortar o cabelo, mutilar-se, beber água do vaso sanitário e a matar um gato. Nesta hora, ela disse: "Esse gato não, eu amo este gato. É o meu gato".>
As comunidades em que cenas como essa ocorrem não estão em uma dark web (internet profunda) inacessível, mas em plataformas ou sites acessados de um computador, ou celular e tablet por meio de um aplicativo.>
"Tudo isso é superfície", diz a delegada Lisandrea Salvariego. "São aplicativos, jogos online, plataformas digitais e redes sociais que todo mundo têm acesso.">
As plataformas são campos férteis para proliferação do extremismo. Mas o Discord se diferencia de outras, segundo a delegada, por concentrar particularmente a formação de núcleos extremistas. É lá que a violência escala, ressalta Salvariego.>
O Discord é uma plataforma de mensagens por texto, voz e vídeo inicialmente voltada ao público gamer, mas hoje usada por comunidades de diferentes interesses. Lançada em 2015, tem mais de 200 milhões de usuários ativos por mês no mundo.>
Participar de um servidor no Discord não é tão simples quanto seguir uma página em redes sociais. Em geral, não tem como buscar e encontrá-los. É preciso receber um link com o convite para participar, que muitas vezes chega via redes sociais.>
A principal característica é que o Discord preza pela criação de uma comunidade fechada, chamada de servidores ou "panelas" (no caso de um subgrupo dentro de um servidor). Ou seja, o conteúdo é produzido para dentro, a um grupo restrito, e não para viralizar e ganhar alcance, como no Instagram ou TikTok.>
"O Discord tem algumas peculiaridades que facilitam esse crime, como compartilhamento de telas, além de ele permitir que haja uma escolha na hierarquia. Ou seja: ali dentro tem o líder, os oradores e moderadores", explica Salvariego.>
A busca por novos usuários acontece em outras redes, quando os membros percebem interesse ao divulgarem algum vídeo com conteúdo extremista, explica Salvariego. O aliciamento pode começar de forma sutil em jogos populares como Roblox, Minecraft e Free Fire.>
"Vídeos curtos, tanto no YouTube ou YouTube Kids, de vídeos curtos de brainrot [termo usado para se referir a vídeos rápidos, com conteúdo caótico e superestimulante] que estão disponíveis no TikTok ou no Instagram", diz Salvariego.>
"Os pais não estão se dando conta de que tudo isso influencia e muito no processo de dessensibilização, que é parte do processo da radicalização online.">
Pesquisadores apontam para uma deficiência na moderação de conteúdo no Discord, já que os próprios usuários nos canais assumem essa função. É o que também observa a delegada.>
"O líder pode escolher quem vai dar a ordem para alguém matar um bichinho, para alguém se cortar, para a tática de estupro virtual.">
A cooperação das plataformas é limitada, diz a delegada. >
"Elas não colaboram em quase nada. Temos, aliás, inúmeras dificuldades porque não há uma lei no Brasil que regulamente o uso emergencial, o acionamento da polícia feito direto na plataforma. Ou seja, eles nos respondem no tempo que eles querem, com os dados que eles querem, e que nem sempre são suficientes.">
A reportagem procurou o Discord para questionar quais são os mecanismos de cooperação com autoridades brasileiras e as medidas adotadas para coibir o uso da plataforma para práticas criminosas. Até a publicação deste texto, a empresa não havia respondido.>
O Discord afirmou anteriormente à BBC News Brasil que os administradores de servidores e moderadores voluntários não podem ir contra as diretrizes da plataforma e precisam manter "política de tolerância zero para atividades ilegais".>
A plataforma disse ainda que contratou uma equipe dedicada ao mercado brasileiro, incluindo "implantação de equipes especializadas em identificar e remover conteúdos nocivos específicos da região".>
A polícia atua infiltrada nos grupos. Quando uma violência está em curso e não há como localizar a vítima a tempo, o primeiro passo é tentar junto à plataforma bloquear o acesso o servidor usado naquele caso. >
"Depois, com preservação de dados, a gente investiga", explica a delegada.>
O crime de zoossadismo na internet não se restringe ao Brasil. E em outras partes do mundo, inclusive, tem sido um negócio lucrativo. >
No ano passado, a BBC desvendou grupos em que filhotes de gatos estavam sendo comprados para serem torturados online. Uma rede internacional com milhares de integrantes que postam, compartilham e vendem imagens e vídeos explícitos de gatos sendo feridos e mortos.>
A investigação da BBC começou depois que dois adolescentes admitiram ter torturado e matado dois gatos em um parque em Ruislip, no noroeste de Londres.>
A menina de 16 anos e o menino de 17 anos confessaram o crime depois que os gatinhos foram encontrados pendurados em uma árvore. Facas, maçaricos e tesouras também foram encontrados no local.>
Esses grupos começaram na China, mas a reportagem da BBC identificou membros ativos em todo o mundo. A extensão da rede foi documentada pelos ativistas dos direitos dos animais Feline Guardians.>
O grupo afirma que, entre maio de 2023 e maio de 2024, a cada 14 horas, em média, era publicado um novo vídeo mostrando a tortura e execução de um gato ou filhote de gato.>
E diz ter documentado 24 grupos ativos neste período, sendo que o maior deles tinha mais de mil membros. Acredita-se que o torturador mais ativo tenha filmado a tortura e morte de mais de 200 gatos.>
Os bate-papos em um grupo, aos quais a BBC teve acesso, mostrou contas discutindo como obter gatos para abusar deles. Uma postagem, por exemplo, compartilhou um anúncio de filhotes à venda no Reino Unido, acrescentando que queria "torturá-los muito".>
No Brasil, a investigação não apontou para um negócio que obtenha lucro com as atividades de tortura a animais. "Ainda não temos indícios de que esse conteúdo gera algum tipo de remuneração para eles", diz Salvariego.>
No núcleo da Polícia Civil de São Paulo, os agentes se infiltram nas comunidades, assistem aos crimes em silêncio para não alertar os suspeitos e coletam provas. Ou podem agir no momento exato para salvar a vida.>
As cenas de violência extrema têm que ser vista e revista investigadores para gerar um relatório técnico. "Meus policiais e eu temos que assistir a essas cenas várias vezes", comenta Salvariego.>
Desde sua criação, a equipe do Noad resgatou 358 meninas de "arenas virtuais" de automutilação. Além disso, 208 adolescentes foram internados e 58 adultos presos. Mais de mil animais foram resgatados nestes desafios.>
A delegada relata que, ao ligar para a casa de uma vítima no meio da madrugada para avisar que a filha está sendo violentada virtualmente no quarto ao lado, a reação dos pais é de total surpresa.>
"Se pai e mãe, antes de dormir, recolherem o celular de criança e adolescente, a gente cessa pelo menos 60% dos crimes na madrugada. Porque tudo acontece de madrugada, longe do olhar do pai e da mãe.">
O trabalho de coordenar investigações que miram nestas comunidades já cobrou um preço alto a Lisandrea Salvariego. Ela se tornou alvo de ameaças desses grupos.>
Ela conta que um jovem de 18 anos, preso em Santa Catarina, obrigou uma vítima a escrever o nome "Lisa" no próprio braço com uma navalha. A foto foi publicada com a legenda: "Presentinho pra Lisa kkkkk".>
A delegada diz que também já recebeu ameaças de morte. Ela, no entanto, encara o ódio como combustível: "São ameaças motivacionais. Conheço meu inimigo e sei como me proteger. Já as vítimas não têm essa proteção".>
Para lidar com o desgaste emocional de seu trabalho, Salvariego aposta em terapia e diz ter algumas válvulas de escape. "É assim que a gente sobrevive nesse meio", diz.>
"Mas é tão revoltante que eu diria que não tem como a gente não ir atrás, de tão desumano que é. E isso tem que acabar. Estamos colhendo os frutos de uma geração dessensibilizada.">
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