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A dois meses da eleição, Brasil enfrenta crises diplomáticas inéditas com EUA e Argentina

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil classificaram o momento como inédito, tanto pela gravidade dos últimos acontecimentos, como pela simultaneidade dos fatos.

Publicado em 05 de Agosto de 2026 às 17:34

BBC News Brasil

Publicado em 

05 ago 2026 às 17:34
Imagem BBC Brasil
Crédito: AFP via Getty Images

A dois meses das eleições presidenciais, o Brasil enfrenta um momento sem precedentes nas relações internacionais, com conflitos diplomáticos abertos com dois de seus mais tradicionais parceiros: Argentina e Estados Unidos.

No mesmo dia em que o governo brasileiro decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires, os EUA revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, em mais sinais do desgaste nas relações entre os países.

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil classificaram o momento como inédito, tanto pela gravidade dos últimos acontecimentos, como pela simultaneidade dos fatos.

Na terça-feira (05/08), após repetidos ataques do presidente Javier Milei a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Itamaraty informou ao embaixador argetino, Guillermo Daniel Raimondi, que agora o governo fará tratativas apenas com o encarregado de negócios argentino em Brasília.

Segundo diplomatas, com o rebaixamento, Raimondi não deve continuar no Brasil, mas a decisão brasileira não representa uma expulsão formal.

Também na terça, o governo de Donald Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Com isso, a diplomata terá que solicitar um novo visto para entrar no país, caso saia dos EUA.

O ato, segundo apurou a BBC, foi em resposta à demora do governo brasileiro em autorizar o nome indicado pela Casa Branca para chefiar a embaixada americana em Brasília, Daniel Perez. No rito diplomático, essa autorização é a concessão de um agrément.

Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que o governo brasileiro não tinha a intenção de bloquear a indicação de Perez. Contudo, os Estados Unidos anunciaram o nome do embaixador antes de solicitar formalmente o agrément ao Brasil, contrariando a praxe diplomática.

Segundo uma fonte do governo americano ouvida pela BBC News Brasil, a gestão do republicano ainda avalia novas medidas diplomáticas caso o governo brasileiro não autorize a nomeação do novo embaixador americano.

Rubens Barbosa, diplomata aposentado e ex-embaixador em Londres e Washington, afirma que o Brasil jamais enfrentou uma crise diplomática com os Estados Unidos como a atual ao longo do período republicano.

Da mesma maneira, diz, apesar de muitos momentos de tensão e desencontro ao longo dos anos, a relação diplomática entre Brasília e Buenos Aires nunca havia sido rebaixada desta maneira, pelo menos nas últimas décadas.

"Partidarismos e ideologia estáo tendo um papel muito importante em ambas as crises, e isso não deveria acontecer. A diplomacia existe para resolver questões pontuais, não agravar a crise", avalia.

Imagem BBC Brasil
Relação entre Lula e Trump teve idas e vindas desde o primeiro tarifaço em 2025 Crédito: Getty Images

Para Felipe Krause, professor da Universidade de Oxford e coordenador do Programa de Estudos Brasileiros mantido pela instituição acadêmica britânica, o atual momento também é sintoma da aliança de líderes conservadores na América do Sul ao redor de Donald Trump.

"É um momento gravíssimo para as relações internacionais do Brasil com EUA e Argentina, e um momento muito grave, infelizmente, para as relações internacionais na nossa região, nas Américas", diz.

O analista aponta também para a crescente internacionalização das eleições brasileiras, com mais declarações de líderes estrangeiros e atenção no exterior.

"A internacionalização das eleições e a crescente importância das relações internacionais e da política externa para o processo eleitoral brasileiro são bastante inéditos", afirma.

Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do Instituto Brasil da universidade King's College London, argumenta ainda que as atuais crises, embora inéditas até pela sua simultaneidade, não chegam a ser uma surpresa.

"E o Brasil já vem diversificando ou tentando as suas relações e parcerias internacionais. A extrema direita está mais organizada mundialmente, resta saber como governos progressistas vão se apoiar, as respostas não tem sido tão coordenadas como tem sido a aliança da extrema direita internacional", afirma.

'Pior momento entre Brasil e Argentina desde os anos 70'

A crise atual entre Brasil e Argentina foi impulsionada por comentários feitos por Milei durante o evento de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República em São Paulo no mês passado.

Na ocasião, o presidente argentino criticou Lula e suas políticas sociais e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de "lixo careca".

O magistrado havia negado um pedido de Milei para visita a Jair Bolsonaro (PL), que está em prisão domiciliar.

Logo após as declarações, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para "transmitir a repulsa" do governo brasileiro.

O embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, também foi chamado para prestar esclarecimentos ao Itamaraty sobre a relação entre os dois países.

A convocação de um embaixador estrangeiro para uma conversa com o chanceler é uma medida séria nas relações internacionais e uma demonstração de desagrado com a outra nação.

E chamar um embaixador brasileiro que está em missão no exterior para consultas, como fez o Itamaraty, também demonstra, na linguagem diplomática, enorme descontentamento com o país anfitrião.

Na semana seguinte, porém, Milei voltou a fazer duras críticas a Lula, chamando o brasileiro de "ladrão" e "corrupto" durante um programa de televisão argentino no domingo (02/08).

"Ele foi solto [da prisão] devido a um erro processual. Ele não é inocente", disse Milei, em referência à condenação de Lula na operação Lava Jato, que foi anulada em 2021.

O presidente argentino defendeu suas declarações anteriores sobre Lula e disse que foram dadas de forma espontânea. "Eles falam sobre interferência política na região. Se alguém está interferindo politicamente na região, é Lula, contaminando tudo com as ideias imundas do socialismo."

A resposta brasileira veio nesta terça, com o rebaixamento das relações. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Raimondi teria sido convocado ao Itamaraty, onde recebeu a informação de que poderia voltar para casa.

Já o jornal argentino Clarín reportou que Bitelli, que está em Brasília desde 26 de julho, não voltaria a Buenos Aires, pois o governo decidiu manter apenas um encarregado de negócios enquanto persistirem os ataques de Milei.

Para Felipe Krause, o atual momento pode ser classificado como "o pior ponto das relações entre Brasil e Argentina desde o final dos anos 70".

"É um momento gravíssimo", diz. "Mas é positivo que o lado argentino tenha decidido não fazer uma retaliação e tenha mantido o embaixador em Brasília para tentar normalizar as coisas."

Uma medida 'agressiva' dos EUA

O desgaste entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva começou ainda no início do mandato do presidente americano, em janeiro de 2025.

As diferenças ideológicas entre os dois líderes, somadas à proximidade de Trump com o ex-presidente Jair Bolsonaro, criaram um ambiente de crescente tensão diplomática. Desde então, sucessivos episódios de atrito contribuíram para aprofundar a crise entre Brasília e Washington.

O mais recente, porém, é visto por especialistas como inédito e um precedente perigoso.

"Nunca houve isso [a revogação do visto da embaixadora] na história do Brasil na relação com os Estados Unidos", disse o ex-embaixador Rubens Barbosa à BBC Brasil.

A revogação do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti segue uma troca de acusações entre os dois países em torno da aprovação do novo chefe da embaixada dos EUA em Brasília.

Daniel Perez foi indicado por Trump para o posto em 1º de junho, mas ainda não teve seu nome aprovado pelo governo brasileiro.

Diante de relatos não confirmados publicados pela imprensa brasileira de que a avaliação da indicação seria deixada para depois das eleições presidenciais de outubro, o governo americano reagiu e acusou o Brasil de tentar interferir em processos internos.

Em nota, o governo brasileiro repudiou a decisão dos EUA e afirmou que as justificativas apresentadas pelo Departamento de Estado são falsas.

O Itamaraty disse que Washington rompeu a praxe diplomática ao anunciar o indicado para a embaixada em Brasília antes de solicitar formalmente o agrément e afirmou que não há prazo definido para a concessão da autorização.

O governo também acusou os EUA de adotar medidas hostis contra o Brasil e de tentar interferir nas eleições do país.

Imagem BBC Brasil
Viotti foi a primeira mulher embaixadora do Brasil nos Estados Unidos Crédito: Jefferson Rudy/Agência Senado

"A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente", diz um trecho da nota.

Além de adiar a aprovação de Perez, o Itamaraty recusou, no mês passado, pedidos de visto de Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, após o jornal The Washington Post ter publicado uma reportagem afirmando que a visita ao Brasil poderia ser utilizada para levantar suspeitas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.

Barnes e Samson visitariam Brasília de 27 a 30 de julho para se reunirem com autoridades governamentais, líderes religiosos e representantes da sociedade civil para discutir a integridade eleitoral, a liberdade religiosa e a liberdade de expressão.

Para Rubens Barbosa, foi um problema o governo americano ter ignorado o rito normal da diplomacia e ter anunciado seu novo embaixador para o Brasil sem antes ter solicitado o agrément ao governo brasileiro.

"Na praxe diplomática, a forma é importante. A primeira coisa que têm que fazer é pedir o agrément", destaca.

"E o agrément demora uns 30 dias. Então, é uma forçação um pouco de barra para antecipar a chegada do embaixador aqui", continuou.

Mas segundo o diplomata, a ação americana é resultado de meses de troca de farpas e acusações mútuas, não apenas de um conflito em torno da nomeação de oficiais em missões no exterior.

"Houve uma evolução gradual da crise político-diplomática", disse, citando acusações feitas por Trump contra Lula e um artigo do presidente brasileiro publicado no jornal americano Washington Post no final de julho.

Imagem BBC Brasil
Daniel Perez foi indicado por Trump para chefiar a embaixada em Brasília em 1º de junho, mas ainda não teve seu nome aprovado pelo governo brasileiro Crédito: Getty Images

Felipe Krause, professor em Oxford, classifica ainda a medida americana recente contra o Brasil como "agressiva", mas ao mesmo tempo "bizarra".

"O movimento de expulsar um diplomata é considerado muito grave, mas é algo já conhecido", diz.

"Agora revogar o visto, apesar de menos grave, é algo bem estranho", aponta. "Parece que eles tentaram buscar um meio-termo para mandar uma mensagem [para o Brasil]."

"De toda forma, é uma medida muito agressiva."

O futuro das relações

Mas o que esperar a partir de agora?

Para Rubens Barbosa, as relações tanto com os EUA quanto com a Argentina devem se normalizar após as eleições de outubro, pois existem muitos interesses econômicos e financeiros em jogo que precisam ser levados em conta.

"Isso vai continuar até a eleição e depois os países vão ter que se ajustar ao novo governo, seja qual for", diz o diplomata.

E quando se trata do governo argentino, diz Barbosa, é preciso relevar algumas das declarações e posturas de Javier Milei, que é conhecido por seu comportamento errático.

"Ele tem um estilo meio desvairado, não tem o que fazer", diz o ex-embaixador. "O Brasil precisa colocar isso em perspectiva, sem dramatizar."

Já Felipe Krauser aposta mais na normalização das relações com a Argentina do que com os Estados Unidos.

Segundo o especialista, Buenos Aires tem muito a perder se afastando do Brasil, especialmente considerando os laçõs comerciais históricos e a ligação por meio do Mercosul.

"Brasil e Argentina tem um relacionamento histórico e econômico muito importante, comparitlham uma fronteira, participam do Mercosul e de diversos outros mecanismos regionais bilaterais importantíssimos", aponta. "A relação tende a melhorar e os argentinos já estão demonstrando interesse."

Por outro lado, argumenta Krauser, o governo Trump "tem menos a perder".

"Claro que existe investimento americano pesado no Brasil e interesses financeiros e econômicos em jogo que fazem pressão para manter a relação, mas eles têm menos a perder e estão jogando pesado agora em busca de mais uma vitória na América Latina com a eleição de mais um governo pró-Trump na nossa região."

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