O Morro da Piedade está de luto. Esse luto é pelos irmãos Damião e Ruan, jovens que tiveram suas vidas brutalmente ceifadas na madrugada do último domingo (25), e é também um luto pela justiça. Esta anda desaparecida há tanto tempo do bairro que se presume morta. Os 42 tiros disparados em Damião e Ruan, pelo que eles eram, pelo que eles representam, atingiram o coração da comunidade, que luta há anos com efeitos colaterais bem conhecidos do abandono: a violência, a pobreza e o desrespeito diário de direitos fundamentais.
O cenário da Piedade é rica e dolorosamente ilustrado pelo relato de um morador, que, como se adivinha, preferiu não se identificar. "Está uma situação muito difícil na Piedade. Antes das mortes, nós tivemos cinco famílias expulsas do morro por traficantes, mulheres agredidas com cabelos cortados, levando tapa no rosto na frente de todo mundo.”
Infelizmente, a Piedade é o exemplo mais visível, neste momento, de um problema enfrentado em todos os bairros de periferia do país, em que a ausência do Estado cria um ambiente de extrema vulnerabilidade.
O clamor por uma presença mais ativa e construtiva do Estado nem de longe se resume à ação policial - necessária, mas ineficaz diante da gravidade do problema. O grito é por garantias fundamentais, como acesso à saúde. O grito é por políticas públicas estruturantes, especialmente nas áreas de educação e geração de emprego, de forma a criar um horizonte de expectativas para os jovens.
E, não menos importante, o grito é para que a justiça mostre a cara nas comunidades, notadamente por meio do combate à lentidão na aplicação das leis, fator que gera impunidade e retroalimenta a violência. Caso contrário, a população dos bairros periféricos vai continuar à mercê dos criminosos, em uma luta diária e absurda pela sobrevivência de seus Damiões e Ruans.