Cresce em todo mundo um movimento que estimula pessoas a não vacinarem seus filhos, justificando-se em informações que circulam nas redes sociais de que as vacinas têm aumentado o número de crianças com autismo e outras doenças graves.
Os “antivacinas” são, em geral, vinculados a um modo de vida mais alternativo, saudável e “antiquímico”. Eles buscam voltar às origens, fugindo de um estilo de vida baseado em alimentos industrializados, com alta carga de sódio, alumínio, agrotóxicos e outros venenos que vão nos matando um pouco todos os dias.
O problema é que dentro dessa busca por qualidade de vida, louvável e acertada, na maioria das vezes incorporaram também informações inverídicas, construídas por cientistas inescrupulosos, criminosos, que se venderam à indústria farmacêutica. Publicam falsos resultados de pesquisa, colocando em risco a vida das pessoas e um dos projetos de maior impacto na saúde mundial que são as políticas de vacinação.
Podemos afirmar, sem medo de sermos contestados, que as vacinas são as responsáveis por evitar mais de três milhões de mortes por ano, isso sem considerar os agravos que não resultam em morte direta, mas que deixam sequelas, muitas delas irreversíveis, como a poliomielite. Essas informações estão baseadas em dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e validadas pela comunidade científica internacional.
A história pode nos ajudar a entender como nasce esse movimento, denominado “antivacina”, e como ele vem se alastrando de forma vigorosa, potencializado pelas redes sociais, colocando em perigo a saúde e a vida das pessoas.
Em 1988, um médico inglês chamado Andrew Wakelfield publicou, em coautoria com outros 12 pesquisadores, na revista The Lancet, um dos mais respeitados periódicos científicos do mundo, um artigo no qual afirmava haver associação entre o autismo e doenças inflamatórias intestinais com o uso da vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola).
A notícia bombástica, veiculada pela imprensa, levou a uma redução significativa dos índices de vacinação em todo o mundo, provocando um retrocesso de consequências incalculáveis.
O medo continua a se espalhar hoje, potencializado e capilarizado pelas redes sociais, a despeito de a notícia ter sido posteriormente desmentida pela comunidade científica. O então médico foi cassado após comprovação da fraude efetuada por ele e sua equipe, em razão de negociação feita para favorecer a empresa farmacêutica em processos que a mesma sofria na Justiça.
A revista The Lancet retratou-se, publicando em seu site a informação da fraude e fixando uma tarja vermelha sobre o artigo, demonstrando ter sido o mesmo recolhido.
Infelizmente, passadas quase duas décadas do descobrimento do embuste científico e da publicização da penalidade de cassação do registro médico do pesquisador, os efeitos danosos à saúde pública continuam a deixar suas sequelas, comprometendo a vida e a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo.
Seja por ignorância, seja por ganância, crianças em especial, e todos nós, continuaremos a sofrer as consequências de um crime de implicações difusas, muitas delas que jamais conseguiremos avaliar.