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Vitor Vogas

Manato e a Pedagogia do Silêncio

Como não falar de sexo na escola pode ajudar a informar adolescentes que já praticam o tal "comportamento sexual adulto"?

Publicado em 05 de Setembro de 2018 às 22:47

Públicado em 

05 set 2018 às 22:47
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Praça Oito - 06/09/2018 Crédito: Amarildo
Já na introdução do seu plano de governo, o candidato a governador do Estado Carlos Manato (PSL) faz uma ressalva: o plano não é uma obra acabada e está aberto a contribuições visando ao seu aperfeiçoamento. É bom que isso esteja escrito no documento, pois ele precisa mesmo ser revisado, profundamente, sobretudo no eixo Educação. Nessa área tão importante, o programa do candidato é um apanhado de propostas que não seriam endossadas por nenhum pedagogo ou educador que já tenha entrado no século XXI. Na verdade, o plano educacional de Manato é um arremedo de algumas ideias ruins de Jair Bolsonaro (PSL) para as escolas brasileiras.
Manato tem 37 anos de exercício da medicina, com especialização em obstetrícia e ginecologia. Em sua estreia no horário eleitoral, o espectador ouviu que ele calcula já ter dado à luz cerca de 10 mil capixabas. Nessa qualidade, o candidato sabe bem que vivemos uma “epidemia” na área de saúde pública: a da gravidez na infância e na adolescência.
Como se sabe, essa realidade decorre, entre outros fatores, de uma outra epidemia: a da desinformação.
Por isso, surpreende que o leitor encontre a seguinte proposta no plano de governo de Manato: “Os alunos menores de 16 anos não poderão ser expostos a abordagens de professores e livros didáticos sobre o comportamento sexual adulto”. Traduzindo: será proibido falar de sexo, até para alunos do ensino médio.
A pergunta que salta é: como não falar do assunto na escola pode ajudar a informar adolescentes que já praticam o tal “comportamento sexual adulto”?
Em entrevista à Rádio CBN, diante desse questionamento, Manato deu até uma resposta razoável. Defendeu que o assunto seja debatido pelos pais com seus filhos. Os problemas: 1) Não é isso que está escrito no plano; 2) Muitos pais tratam o tema como tabu e simplesmente não falam de sexo com os filhos, por motivos culturais e/ou religiosos. Se a escola também cruzar os braços, o que vai restar?
Ainda mais problemática é a ideia de Manato, também adaptada de Bolsonaro, de “criar um grupo de estudos com educadores, juntamente com a Polícia Militar e o Exército, para conhecer e avaliar a implantação de escolas militarizadas no ES, podendo ser construídas ou adaptadas”. Escolas militares ou militarizadas são muito boas... para formar militares, privilegiando valores como disciplina rígida, obediência e hierarquia. Hoje, nos países do mundo democrático, não há ninguém, absolutamente ninguém, levando a educação pública para essa direção.
Mesmo assim, em sua última passagem por Vitória, no dia 31 de julho, Bolsonaro defendeu a multiplicação das escolas militares pelo país e disse que vai pôr um militar à frente do MEC. “Vamos formar pessoas aptas ao trabalho, e não formar militantes ou pessoas que têm apenas senso crítico. No mercado, ninguém quer saber quem tem senso crítico.”
Errado. A escola moderna, em dia com seu tempo, tem o dever de estimular o pensamento crítico nos alunos. E não se trata aqui de Paulo Freire, não tem nada a ver com marxismo... Quem diz isso é o próprio mercado contemporâneo. É o mercado liberal que Bolsonaro diz defender. Cada vez mais, empregadores buscam jovens profissionais questionadores, criativos, inovadores, comunicativos, que tenham ideias próprias e saibam pensar “fora da caixinha”. Esses conseguirão os melhores empregos. Não quem age como autômato, treinado para apenas “cumprir ordens”. Como é que uma rede de “escolas militarizadas” poderá começar a formar esse profissional que o mercado prioriza?
Diante dessa pergunta, Manato admitiu que, na verdade, desistiu da ideia, não pela concepção pedagógica em si, mas por inviabilidade prática: os custos muito elevados para a implantação dessas escolas. Falta avisar ao seu maior aliado.
“No programa está claro que eu ia botar um grupo de estudos com professores, policiais militares, e ia lá ver como funciona a escola militar. Eu, me antecipando a isso, fui lá pessoalmente, porque estava redigindo o plano, para não escrever e falar besteira. Chegando lá, vi que a escola militar é uma escola de custo caro e que 90% é para filho de militar. Não é viável. Aí eu conversei com a alta cúpula e eles me falaram que você pode militarizar a escola, ou seja, implantar a cultura militar na escola.”
O saldo do silêncio
Segundo a Secretaria de Estado de Saúde, nos últimos cinco anos (2013-2017), só na rede pública hospitalar do Espírito Santo, foram registrados 2.191 partos de mães na faixa de 10 a 14 anos de idade. Quando consideramos parturientes de 10 a 19 anos, foram 43.927 nascimentos. Significa que, em cada 100 nascimentos, 16,6 são de mães nessa faixa etária.
Diferença conceitual
Manato nega contradição entre seu plano e o que ele afirmou na entrevista sobre a implantação de “escolas militarizadas”. E faz uma distinção importante entre estas e os colégios militares do Exército.
Com a palavra, Manato
“No meu programa, está claro que eu ia botar um grupo de estudos com professores, policiais militares, e ia lá ver como funciona a escola militar. Eu, me antecipando a isso, fui lá pessoalmente, para não escrever e falar besteira. Chegando lá, vi que a escola militar é uma escola de custo caro e que 90% é para filho de militar. Não é viável. Aí eu conversei com a alta cúpula e eles me falaram que você pode militarizar a escola. Então pus no meu programa a ‘escola militarizada’, que significa a cultura militar nas escolas. É a disciplina, o ordenamento, o civismo...”
Custo altíssimo
Prossegue Manato: "Eu fui antes, porque iam começar os programas e eu queria ter alguma coisa concreta. Eu fui lá e vi a realidade. Quando vi que 90% dos alunos são parentes de militares e que o custo é altíssimo, eu não posso fazer isso com o dinheiro do Estado. Tenho que ter respeito ao dinheiro público e à quantidade de pessoas".
Capacitação
"A ideia é fazer a escolha do diretor pela comunidade escolar. Ele e o corpo docente vão se capacitar com aquela cultura e implementá-la. Então não fui contraditório. No meu programa eu disse que ia fazer um estudo. E já fiz. Nem esperei os outros. Eu mesmo fiz, in loco", finaliza Manato.
Borracha seletiva
Manato também quer implantar o Projeto Escola sem Partido nas escolas públicas estaduais, “que serão proibidas, assim como seus professores e pedagogos, [de] utilizarem livros que remetem ao assunto do comunismo e marxismo”. Notem: não se trata de censura aos livros que defendam o marxismo, mas a toda obra que simplesmente aborde o tema. Levado o escrito ao pé da letra, um professor não poderá usar um livro de História que informe que Marx e Engels publicaram o “Manifesto Comunista” em 1848 ou que narre a Revolução Bolchevique de 1917.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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