Tenho uma espécie de fascínio pelas ferramentas. Algo parecido ao que acontece com quem gosta de motocicletas, de armas ou de joias. Sou usuário de chaves de fenda, martelos, serrotes e alicates ao fazer pequenos consertos caseiros, e de goivas, faquinhas, raspadeiras, e até cacos de vidro, quando faço colheres. No serviço de desbastar os pedaços de bambu, uso uma foicinha paraibana, bem leve, cabo de goiabeira, de minha grande estima. Com ela consigo chegar na forma básica da peça, no shape, como se diz.
Em junho, quando estive na Paraíba, me deparei com uma foice que eu nunca tinha visto. Ela estava sendo usada por seu Nelson, patriarca do assentamento de Tambaba, no caminho da praia dos pelados. Ele disse que tinha pago R$ 20 por ela, na véspera. Demonstrei interesse e pedi que botasse preço, mas ele se fez de rogado, dizendo que eu poderia encontrar uma igual lá pelas bandas de Goiana, na estrada de Recife. Bem que procurei, mas continuei de mãos vazias e com ela na cabeça.
Na semana passada, voltei à Paraíba, para a inauguração do busto do professor Lynaldo Cavalcanti, com quem trabalhei por 13 anos e com quem muito aprendi. Dentre as centenas de feitos relevantes de Lynaldo, está a criação, em 1978, do curso de desenho industrial em Campina Grande, para enriquecer o ambiente universitário concentrado nas engenharias. Pois o que aquela tal foicinha tinha de especial era exatamente o seu design, projetado, com certeza, por alguém que entendia do ofício de cortar madeira. Sua lâmina, quase quadrada, é presa ao suporte do cabo em ângulo de uns 30 graus, o que reduz a obrigação de levantar o cotovelo para dar golpes certeiros. Lynaldo, que usava muito mais a intuição do que as mãos, apreciaria aquela ferramenta feita com aço de mola de caminhão.
Desta vez, depois de muita conversa mole, uma nota de R$ 100 e do prestígio de meu amigo Iveraldo, consegui trazer pra casa a foice de seu Nelson, que ganhou, de quebra, uma história pra ser contada na fresca da varanda sobre um homem barbudo fascinado por foices.