Alçado a quase ministro por si mesmo, Magno chegou, neste mesmo espaço, em agosto, portanto ainda antes das eleições, a se escalar para comandar a Defesa, a Segurança Pública ou as Relações Exteriores
“Não é um favor que te fazem; mereces, mereces…”, ouviu Martins, ainda quase ministro, na peça escrita por Machado de Assis em 1862. Cercado por bajuladores e neoconhecidos ávidos por favores, o parlamentar via crescer seu prestígio diante de boatos de que passaria a integrar o primeiro escalão do Poder Executivo. Ao final (atenção: spoiler), coube a ele próprio desfazer o mal-entendido e avisar que não ascenderia na burocracia estatal e, assim, dar adeus àqueles que até então o veneravam.
Para Martins, foi até um alívio. Não se sabe se será o caso para o senador Magno Malta que, derrotado nas urnas em outubro, pode acabar na planície ou, como sinalizou o presidente eleito Jair Bolsonaro, no máximo em algum cargo no segundo escalão. Alçado a quase ministro por si mesmo, Magno chegou, neste mesmo espaço, em agosto, portanto ainda antes das eleições, a se escalar para comandar a Defesa, a Segurança Pública ou as Relações Exteriores. Também cogitou presidir o Senado. A última hipótese foi descartada de pronto, visto que o republicano não conseguiu se reeleger, mas as demais, ou alguma outra alocação ministerial, dependeria apenas do aliado Bolsonaro, que chegou a convidar o senador para ser vice-presidente na chapa, convite esse do qual Magno declinou.
É bem verdade que o republicano foi aguerrido na campanha pró-Bolsonaro, saindo até do Espírito Santo para pedir votos para o então candidato à Presidência da República, deixando em segundo plano a própria candidatura. Para alguns, desprendimento e lealdade; para outros, arrogância. Passado o segundo turno, Magno não desgrudou a imagem da de Bolsonaro, ao contrário, fez uma oração da vitória logo após o resultado das urnas, e chegou a dizer ao jornal “O Globo” no início do mês passado: “Vou ser ministro, sim!”.
Não bastasse isso, turbinou postagens nas redes sociais com vídeos de apoiadores – entre eles o pastor Silas Malafaia –, por vezes com a utilização da hashtag #Elesim. “Ele”, nesse caso, era o próprio Magno, em franca campanha para o ocupar uma vaga na Esplanada dos Ministérios. Não colou. Veio do próprio Bolsonaro, na última sexta-feira, o balde de água fria, após ressaltar que Magno não ficará “abandonado”: “Existe campo para ele, sim. Mas, infelizmente, os ministérios estão se esgotando”. “Não podemos dar ministério para todo mundo”, explicou o presidente eleito.
O fato é que Magno, em poucos meses, saiu de uma campanha em que era, inicialmente, considerado favorito à reeleição e assediado para ser vice numa chapa presidencial, para um dos principais derrotados no Espírito Santo e, agora, relegado a um eventual outro “campo” no governo federal. Entre os possíveis motivos para não integrar o time principal estariam a insistência do próprio Magno e resistências da ala militar do governo. O vice, general Mourão, apelidou o republicano de “elefante na sala”.
Magno sai, assim, menor do que entrou e talvez do que jamais esteve desde que foi eleito vereador por Cachoeiro de Itapemirim, em 1992. De lá para cá, foi deputado estadual, federal, e está no Senado desde 2003. Será a primeira vez, desde 1993, que ficará sem mandato.
Além disso, a pauta conservadora da qual sempre se fez um dos principais representantes no Estado e no país, composta por petardos homofóbicos, oposição à flexibilização da legislação sobre o aborto e combate ao abuso sexual contra crianças e adolescentes agora tem vários porta-vozes, que disputam os holofotes. Muitos deles estarão no Congresso e no futuro governo Bolsonaro. Magno, no entanto, não estará totalmente à margem. A ex-deputada federal Lauriete, esposa do senador e também filiada ao PR, retorna à Câmara em fevereiro.
Novos planos
Como a coluna publicou ontem no Gazeta Online, Aridelmo Teixeira, que foi candidato ao governo do Estado em outubro, deixou o PTB e se filiou ao Novo.
Aridelmo by Aridelmo
Além disso, ele deixou também, no ar, os planos eleitorais para 2020. Referindo-se a si mesmo na terceira pessoa, o professor e empresário diz que “se o grupo achar que é o Aridelmo, é o Aridelmo, se achar que é outro, é outro”. “O Aridelmo” tem domicílio eleitoral em Vitória e não pretende mudar de endereço. Assim, somente poderia ser candidato à Prefeitura da Capital, se decidir tentar, mais uma vez, o Executivo.
Indicada...
Por conta do episódio em que um policial militar tentou extorquir dinheiro do deputado estadual Amaro Neto – e acabou preso – o próprio Amaro contou à Polícia Civil o seguinte: que informou a Keila Bonde Ferreira – com quem admitiu ter tido um “enlace amoroso” (ela é esposa do mencionado PM, cabo Fernando Marcos Ferreira) – sobre uma vaga de trabalho existente na Secretaria de Estado de Esportes. E lá ela conseguiu trabalho.
...e terceirizada
A secretaria em questão é área de influência do PRB, partido de Amaro. Mas quem procurar pelo nome de Keila Bonde Ferreira no Portal da Transparência do governo do Estado ou no Diário Oficial não encontrará registro de sua passagem por um eventual cargo comissionado. A coluna apurou que a vaga era em uma empresa terceirizada, que presta serviços à pasta.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.