“Estão transformando copo d’água em tempestade”, assim se defendeu o engenheiro piauiense que, junto com um grupo de homens que estão na Rússia, fez o que consideram inocente brincadeira com uma estrangeira. No vídeo, os marmanjos “homenageiam” a genitália rosa da mulher e a ensinam a entoar com eles o samba exaltação sem que ela se dê conta do que está falando.
O jogral das crianças deu frutos na terra das matrioskas e no Brasil. A atitude machista e misógina rendeu denúncias lá como cá, ao ponto de o Ministério Público Federal abrir investigação contra os moços, pobres moços, por injúria. Eles foram defenestrados nas redes sociais, mas o que chama a atenção foram as vozes de apoio ao vídeo. Homens relevando a atitude porque o Brasil tem mais com o que se preocupar, como se os crimes de violência praticados contra as mulheres não começassem provavelmente assim: com bobagens como essa.
Em sua própria defesa, o engenheiro apertou o dedão na ferida: “se fosse no carnaval do Brasil, onde bebemos um pouco mais, seria considerado normal”. Porque o machismo e a violência são a norma por aqui, mesmo pra quem posa de pai de família exemplar. E se fosse com mulher e filha dele, estaria dentro do que ele chama normalidade? Vivemos no país dos que se consideram homens e mulheres de bem, mas só até o capacho da porta de entrada; dentro de casa, a roda gira conforme o horror oculto de cada um.
Foram essas brincadeiras, a inocência de algumas palavras, o toque sem consentimento (leiam como se aspas houvessem) que transformaram a ponta do rabo da serpente no monstro da lagoa azul, a dos relacionamentos baseados em assédio moral e sexual. Foi e tem sido a ideia de superioridade do macho sobre a fêmea a povoar o inconsciente de homens que impõem e mulheres que se sujeitam.
Fortes e unidos, eles enfrentam, com seu poderio fálico, os botões cor de rosa das mocinhas. Debaixo do zíper esconde-se a criptonita que confere ao superman de hoje e de sempre poderes de mando e punhos cerrados sobre vozes vindo na contramão. O crepúsculo do macho, tudo indica, está longe de ver o sol poente.
*O autor é jornalista e cronista