Lula livre pode ser uma armadilha para o
PT. Por um lado, pode (e vai) reaquecer a militância já estabelecida, dando um novo sopro de ânimo, energia e esperança para petistas e apoiadores que já estavam esgotados e estressados pelos reveses acumulados nos últimos anos, tanto nas urnas como na Justiça. Por outro lado, o clima de euforia causado pela
soltura do maior líder petista no último dia 8 e o retorno da lulodependência como nunca antes na história do PT podem impedir o partido de realizar dois exercícios fundamentais para efetivamente se reconstruir e atrair novos apoiadores nas próximas eleições: fazer uma autocrítica profunda e verdadeira; e priorizar a construção de novos quadros para reoxigenar o partido.
Agora, no lugar da autocrítica e do investimento em novos quadros, temos Lula lá, Lula cá, Lula acolá... uma estratégia política novamente centrada em Lula – e o próprio Lula, como sempre, centrado nele mesmo.
Ao mesmo tempo, na medida em que volta a concentrar toda a sua militância em torno do ex-presidente, o PT pode negligenciar o imprescindível e inadiável trabalho de retornar para o que tem de melhor (suas bases) e começar a construir novos líderes, com visão mais contemporânea e sem os vícios e a ficha da velha guarda.
O “Lula agora livre”, enfim, é muito bom, obviamente, para o próprio Lula. E pode soar excelente para os petistas já convertidos. Mas pode limitar demais as possibilidades de o PT se reinventar politicamente e de atrair novos apoiadores para voltar a obter sucesso nas próximas eleições municipais, em 2020, e gerais, dois anos depois. Daí a mencionada armadilha.
A tudo o que já ponderamos, acrescente-se que a simples liberdade de Lula, por si, tende a beneficiar a sua própria nêmesis política,
Jair Bolsonaro. Mais ainda o discurso de Lula após recuperar a liberdade, uma vez que inflama ainda mais a militância bolsonarista e dá novo fôlego à polarização política da qual o presidente é o maior beneficiário, isto é, da qual Bolsonaro depende para sobreviver politicamente.
A ascensão política de Bolsonaro foi forjada no antipetismo. Muito mais que méritos próprios, a agenda anticorrupção, o medo da violência, a pauta conservadora nos costumes, o discurso liberal na economia etc. etc. etc., o que realmente elegeu o militar reformado em 2018 foi o antipetismo espalhado pela sociedade e o contraponto que ele conseguiu encarnar ao PT com seu discurso radicalizado de extrema direita, estabelecendo-se, como ninguém, como o candidato anti-PT e anti-Lula. Foi esse o fator mais determinante para a sua chegada à Presidência.