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Faca de dois gumes

Lula livre pode ser armadilha para o próprio PT

Com a libertação do ex-presidente, estratégia do PT volta a ser toda centrada no seu grande líder, o que impede o partido de fazer dois exercícios inadiáveis para obter novos apoiadores: autocrítica profunda e formação de novos quadros

Publicado em 18 de Novembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

18 nov 2019 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Lula lá, Lula cá, Lula acolá: estratégia do PT com Lula livre é centrada no seu grande líder e impede o partido de fazer uma autocrítica Crédito: Amarildo
Lula livre pode ser uma armadilha para o PT. Por um lado, pode (e vai) reaquecer a militância já estabelecida, dando um novo sopro de ânimo, energia e esperança para petistas e apoiadores que já estavam esgotados e estressados pelos reveses acumulados nos últimos anos, tanto nas urnas como na Justiça. Por outro lado, o clima de euforia causado pela soltura do maior líder petista no último dia 8 e o retorno da lulodependência como nunca antes na história do PT podem impedir o partido de realizar dois exercícios fundamentais para efetivamente se reconstruir e atrair novos apoiadores nas próximas eleições: fazer uma autocrítica profunda e verdadeira; e priorizar a construção de novos quadros para reoxigenar o partido.
Agora, no lugar da autocrítica e do investimento em novos quadros, temos Lula lá, Lula cá, Lula acolá... uma estratégia política novamente centrada em Lula – e o próprio Lula, como sempre, centrado nele mesmo.
Com o ex-presidente liberado para voltar a percorrer o país, participando de comícios e eventos públicos de toda ordem, a militância petista realmente se remobiliza, mas em torno do carisma e da figura do seu próprio “mito”, em um culto à personalidade de Lula que beira o fanatismo e que pode até superar aquela praticada por bolsonaristas em relação ao atual presidente; a mesma veneração cega, só que com o sinal invertido.
Toda essa idolatria pode ser uma armadilha na medida em que leva os líderes petistas a passarem uma borracha nos erros cometidos pelo partido: os deles mesmos, os do PT em geral e aqueles do próprio Lula. Ou por acaso não houve mensalão? Ou o petrolão nunca existiu? A Petrobras não foi pilhada e tudo não passou de uma grande conspiração? Com o ir e vir de Lula desimpedido, seu caminho desinterditado e sua língua desenfreada, o PT está “reautorizado” a viver em autonegação.
Ao mesmo tempo, na medida em que volta a concentrar toda a sua militância em torno do ex-presidente, o PT pode negligenciar o imprescindível e inadiável trabalho de retornar para o que tem de melhor (suas bases) e começar a construir novos líderes, com visão mais contemporânea e sem os vícios e a ficha da velha guarda.
Com Lula monopolizando as atenções, esse exercício fica bem prejudicado. Lula é um buraco negro que tudo atrai e tudo engole. Ao mesmo tempo, é um astro com luz própria forte demais. Tão forte que pode ofuscar qualquer estrela menor. Só que é com esses astros menores que o PT precisa contar. Manter a fé em um retorno triunfal de Lula ao poder central é ilusório. E tal ilusão só ajuda o próprio Lula. No momento, de acordo com a Lei da Ficha Limpa, ele está inelegível. E assim ainda estará nas eleições presidenciais de 2022.
O “Lula agora livre”, enfim, é muito bom, obviamente, para o próprio Lula. E pode soar excelente para os petistas já convertidos. Mas pode limitar demais as possibilidades de o PT se reinventar politicamente e de atrair novos apoiadores para voltar a obter sucesso nas próximas eleições municipais, em 2020, e gerais, dois anos depois. Daí a mencionada armadilha.

POLARIZAÇÃO BENEFICIA BOLSONARO

A tudo o que já ponderamos, acrescente-se que a simples liberdade de Lula, por si, tende a beneficiar a sua própria nêmesis política, Jair Bolsonaro. Mais ainda o discurso de Lula após recuperar a liberdade, uma vez que inflama ainda mais a militância bolsonarista e dá novo fôlego à polarização política da qual o presidente é o maior beneficiário, isto é, da qual Bolsonaro depende para sobreviver politicamente.
A ascensão política de Bolsonaro foi forjada no antipetismo. Muito mais que méritos próprios, a agenda anticorrupção, o medo da violência, a pauta conservadora nos costumes, o discurso liberal na economia etc. etc. etc., o que realmente elegeu o militar reformado em 2018 foi o antipetismo espalhado pela sociedade e o contraponto que ele conseguiu encarnar ao PT com seu discurso radicalizado de extrema direita, estabelecendo-se, como ninguém, como o candidato anti-PT e anti-Lula. Foi esse o fator mais determinante para a sua chegada à Presidência.
Agora, com base em seus primeiros discursos após deixar a Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, Lula mostra que está livre, solto, mas... nem um pouco leve. Não poderia ser mais previsível. Entrando no jogo de Bolsonaro, faz a sua parte para manter o país politicamente radicalizado e polarizado. É tudo o que Bolsonaro queria. E pelo que, certamente, agradece no seu íntimo.
E por isso tenho dúvidas sobre até que ponto esse “Lula agora livre” realmente pode ajudar o PT a se reerguer. E como o PT precisa se reerguer, particularmente no Espírito Santo, onde o partido tem sido castigado e dizimado pelos capixabas nas últimas eleições... É o tema da nossa próxima coluna, no início da tarde desta segunda-feira (18).

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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