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Vitor Vogas

Luciano Huck soletra o que pensa para o Brasil

Confira a coluna Vitor Vogas deste domingo (25)

Publicado em 25 de Novembro de 2018 às 10:46

Públicado em 

25 nov 2018 às 10:46
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Luciano Huck Crédito: Amarildo
Que Luciano Huck flerta desde o ano passado com a ideia de entrar em definitivo na vida pública, disputando mandatos eletivos, não é segredo para ninguém. Mas o que ele realmente pensa e defende em termos políticos? Qual é a sua visão de mundo e de país? Qual o seu projeto para o Brasil?
Na última sexta-feira, tanto na entrevista como na palestra que deu durante o 13º Encontro de Lideranças promovido pela Rede Gazeta, o apresentador de TV e popstar forneceu algumas pistas importantes para se responder a essas perguntas.
O caldeirão de ideias de Huck é uma mistura interessante que remete, mesmo que vagamente, ao que Emmanuel Macron procurou fazer na França: uma mistura de liberalismo na economia com uma visão mais social-democrata, de promoção do estado de bem-estar social, nos serviços providos pelo Estado à população. Numa simplificação extrema, uma mescla de direita nas políticas econômicas com esquerda nas políticas sociais. A ênfase de Huck é claramente dada a essa segunda perna, no que toca ao combate às desigualdades.
Não por acaso, nos primeiros meses deste ano, enquanto ainda se ensaiava uma candidatura de Huck à Presidência, o governador Paulo Hartung deu entrevistas defendendo a reprodução, no Brasil, da triunfante experiência eleitoral de Macron na França. A cara desse movimento seria a de Huck. Não deu certo, pois Huck recuou – provavelmente sentindo que ainda precisa aprender muito para encarar voo tão alto, conforme também sugeriu em sua palestra.
“Brasil real”
Huck faz eco à defesa das reformas (da Previdência, do próprio Estado etc.), mas não para aí. Na verdade, ele mescla a defesa de certo liberalismo na economia com uma forte dose de compreensão sobre as injustiças sociais que marcam o país e sobre a necessidade de corrigi-las por meio da ação direta do próprio Estado, com políticas que promovam inclusão e desenvolvimento social. Não está pensando só em consertar a economia, mas, acima de tudo, em ajudar a consertar esse “Brasil tão injusto”.
Pode soar demagógico, superficial? Pode. Mas, acima de tudo, soa sincero. Quem ouve Huck por dez minutos capta uma sensibilidade e uma preocupação genuínas, portanto honesta, do apresentador com este Brasil da Belíndia, da Rocinha ao lado de São Conrado, de Higienópolis e do Capão Redondo, da Ilha do Boi e do Morro do Romão.
“O que me traz a este palco é o meu incômodo pessoal. Cara, enquanto a gente tiver favela, a gente não vai ter um país justo”, resumiu ele.
Huck fala com a autoridade de quem passou os últimos 15 anos de sua vida percorrendo o Brasil a trabalho, para gravar quadros para o seu programa, contando histórias de pessoas que em geral enfrentam dificuldades.
“Não estou em campanha. A minha vida é essa. Vou fazer quatro Estados só hoje. Estou sentindo o pulso do país. A gente vive num país muito injusto. Estou com 47 anos. Não quero fazer 70 anos, olhar pro lado e ver que o Brasil não andou pra frente. Digo isso não só do ponto de vista das reformas, da estabilidade econômica, que todo mundo sabe que precisa ser feito. Estou aqui porque minha geração precisa lutar para construir um país mais justo. Vejo às vezes meus amigos discutindo os mesmos problemas que eles discutiam 20 anos atrás. E penso: cara, eles não estão vendo o que está acontecendo no Brasil de verdade. É um país onde pessoas não têm comida no século 21”, relatou Huck, enfatizando, ainda, o que ele considera realmente prioritário:
“A gente fica discutindo aposentadoria e não discute oportunidades. Não dá para falar de meritocracia vivendo em um país tão injusto como o nosso. (...) Quem transforma de verdade a vida das pessoas é o Estado. E quem transforma o Estado é a política”, sustentou Huck, diante de uma plateia formada majoritariamente por empresários como ele. Foi uma surpresa.
APRESENTADOR ACREDITA NO PODER TRANSFORMADOR DO ESTADO
Um ponto, assim, fica claríssimo: engana-se quem pensa que, por ser um empresário bem-sucedido, Huck dá voz àquele pensamento econômico ultraliberal muito em voga atualmente (e que chegará ao governo central em breve, no governo Bolsonaro/Paulo Guedes), de que o Estado precisa ser enxugado ao máximo e de que o mercado por si mesmo é capaz de resolver todos os problemas do país, inclusive as desigualdades sociais.
Na realidade, alguns defensores dessa concepção do mercado como panaceia chegam a afirmar que a desigualdade social nem sequer é um problema. Essa ideia foi verbalizada, por exemplo, em entrevistas concedidas pelo dono da Riachuelo, Flávio Rocha - que, assim como Huck, chegou a considerar candidatura à Presidência. Para alguns moradores do “andar de cima”, como diria Elio Gaspari, o mercado, operando livremente, tem o poder de gerar prosperidade para todos, bastando para isso que o Estado não interfira em nada: se não atrapalhar, já ajuda muito.
Huck não se perfila a essa linha de pensamento político-econômico.
Como deixou evidente, o novo aliado de Hartung acredita, sim, no papel do Estado como provedor de oportunidades e de melhores condições de vida para as pessoas, sobretudo as menos favorecidas economicamente e portanto mais necessitadas dos serviços e da ajuda direta do governo. Como ele disse, “quem transforma de verdade a vida das pessoas é o Estado. E quem transforma o Estado é a política”.
Entretanto, para que a política possa transformar o Estado, é necessário primeiro transformar a própria política – ou, mais precisamente, os políticos – em algo melhor do que o que temos hoje. Esse é outro ponto central do pensamento de Huck.
“A gente está vivendo um apagão de lideranças no país. Enquanto a gente não tiver políticos de que a gente tem orgulho, não vai dar certo”, argumentou o apresentador, que se considera em meio a uma “cruzada pela renovação política”, ao lado do seu “amigo e parceiro” Eduardo Mufarej, idealizador e coordenador do RenovaBR (participante do mesmo painel no encontro).
Mais do que numa cruzada, Huck diz estar atendendo a uma ”convocação geracional”, necessária para se transformar a cultura e as práticas políticas do país. Hoje, ele se considera numa fase de aprendizado. “Não é um projeto pessoal”, reiterou. “Temos que reunir o que há de melhor no setor público, na iniciativa privada, e construir um projeto de país. Então acho que a cruzada neste momento é para trocar ideia. Estou aprendendo, estou ouvindo muito. Quero fazer o que eu puder para a gente construir um país mais justo.”
Huck não vai ficar aprendendo para sempre. Em 2018, ele recuou. Em 2018.
FALTOU CORAGEM
Para tocar o RenovaBR, Eduardo Mufarej chegou a se afastar de alguns negócios. Huck, por sua vez, não quis deixar a TV Globo e transformar radicalmente a sua vida para ser candidato em 2018. Ele disse não se arrepender, mas admite: “O Eduardo foi mais corajoso que eu”.
SOBROU CLIMÃO
Em sua palestra neste sábado (24) no Encontro de Lideranças, Casagrande criticou em público o aumento de custeio, na casa de 16%, de 2018 para 2019, no projeto orçamentário apresentado por Hartung. Falou isso diante do atual secretário da Fazenda, Bruno Funchal, sentado na primeira fila.
LUCIANO PASSOU LONGE
Considerado o maior aliado de Casagrande, Luciano Rezende (PPS) não compareceu à palestra para prestigiar e mostrar apoio ao governador eleito perante o empresariado capixaba. A ausência chamou atenção e, para alguns dos presentes, pegou mal. 

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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