O prefeito de Cariacica, Juninho (Cidadania), pode não apoiar nenhum candidato para sucedê-lo no cargo, na eleição do ano que vem. E olha que pré-candidatos à cadeira de Juninho é o que não falta na cidade. Só entre os aliados do prefeito, destacam-se pelo menos quatro: o ex-deputado estadual Sandro Locutor (PROS), atualmente assessor especial do Detran-ES; o vice-prefeito Niltinho Basílio (PDT); o presidente da Câmara de Cariacica, Cesar Lucas (PV), e o vereador Joel da Costa (Cidadania). Quem indica a possibilidade de se manter neutro no processo é o próprio Juninho, em conversa com a coluna em seu gabinete, neste encerramento de ano.
“Eu estou muito focado na gestão. Coloquei como meta para a gente ter uma proposta de discussão sobre eleição após o carnaval. Não farei isso antes. Nós também vamos acompanhar um pouco o movimento da cidade em 2020. E a partir daí é que a gente vai ter uma noção se a gente apoia alguém ou se a gente até certo ponto se mantém no campo neutro, só focado na gestão”, afirma Juninho, que garante: “Fazer um sucessor não é minha prioridade”.
“Se eu sentir que qualquer posicionamento meu nas próximas eleições prejudique o andamento da administração, eu vou focar na administração. Para mim, a cidade está acima de qualquer candidatura. E eu tenho trabalhado muito nisso. Na minha reeleição [em 2016], eu não coloquei em xeque a minha administração”, prossegue o prefeito.
Juninho explica o seu cuidado:
“Temos que colocar nesse tempero de 2020 o cenário nacional e o cenário estadual. A gente não pode perder isso de vista. Cariacica é uma cidade que não consegue sobreviver sem o apoio do Estado e sem o apoio do governo federal. Então tudo isso tem que ser levado em consideração, até para se posicionar para 2020. Aqui em Cariacica, nós temos algumas particularidades que não podemos perder de vista. Qual será o posicionamento, por exemplo, do Helder Salomão, enquanto figura do PT? Qual será o posicionamento de um incansável candidato, que é o Marcelo Santos? O papel da Assembleia Legislativa neste processo de candidaturas aqui, porque você já vê o movimento de Euclério Sampaio... Tem o movimento do governo do Estado, porque nós temos a vice-governadora [Jaqueline Moraes, do PSB], que está aqui. Nós temos o Sandro Locutor, que está no governo, aqui. Então esse jogo aqui, para mim, é muito mais complexo do que em outras cidades. Por tudo isso, estou trabalhando de modo muito prudente, porque senão eu perco a rédea daqui.”
Em outras palavras, a cautela de Juninho se justifica assim:
Se o prefeito apoia e, principalmente, se declara antecipadamente apoio a um candidato que não faça parte do núcleo político do governador Renato Casagrande (PSB), ele pode dificultar uma boa relação administrativa com o governo estadual antes da hora, sendo que vai precisar cultivar essa boa relação até o fim de seu mandato em Cariacica.
Da mesma maneira, há pré-candidatos ligados ao campo do presidente Jair Bolsonaro, o chamado bolsonarismo. O PSL, por exemplo, tem como pré-candidato o Subtenente Assis. Mas esse campo é maior, não se resume ao PSL (até porque Bolsonaro decidiu fundar outro partido), e outros devem entrar na disputa a prefeito de Cariacica reivindicando o apoio de Bolsonaro e se apresentando como candidato desse campo. Nesse caso, se Juninho antecipa o apoio a um candidato não pertencente ao bolsonarismo, pode fechar portas, sem necessidade, com o governo federal. Bom lembrar que a cidade é uma das cinco do país, a única na Região Sudeste, a receber o programa “Em Frente, Brasil”, do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, o qual em 2020 ingressará na segunda fase, baseada em programas sociais.
“Nós colocamos Cariacica num ritmo, num rumo, que não posso fazer nenhum movimento equivocado que atrapalhe esse rumo da cidade”, completa Juninho.
JUNINHO SE GARANTE
O pano de fundo da próxima eleição municipal neste Brasil politicamente polarizado explica, em grande parte, a prudência de Juninho, a ponto de ele admitir ficar neutro na própria sucessão (algo raríssimo para qualquer prefeito), mas não é o único fator, como ele mesmo conta. Basicamente, Juninho não se mostra preocupado com a “defesa do seu legado”, como fariam quase todos os prefeitos prestes a deixar o cargo.
“Por que vou ficar louco em fazer o meu sucessor se não estou fazendo nada de errado? Se a prefeitura está sendo bem gerida? E acredito que, com a minha forma de me relacionar com a cidade, a população não vai permitir que quem se sente aqui provoque o retrocesso. Eu estou muito tranquilo quanto a isso. Não tenho essa preocupação de ter que fazer um sucessor para o cara defender o meu legado, para o cara não fuçar nada meu.”
Juninho está convencido de que, independentemente de quem vier a sucedê-lo, o seu legado estará preservado e ele será lembrado positivamente pelas ações que fez como prefeito. “Tem coisas que não me preocupam. O tempo vai mostrar quem é quem.”